23/06/2009

A foto esmaecida

“A fotografia estava tão esmaecida que quase nada se notava, por isso, estranhava-se a conclusão a que as autoridades forenses tinham chegado.”
- Era a minha avó – dissera ela.
“Um crime hediondo perpetrado em condições insólitas.” – trazia o jornal a abrir.
O dia tinha chegado ao fim e a chuva não conseguira lavar a imagem do sangue seco nas lages e nos mosaicos da saída para o quintal onde dias antes tudo acontecera.
As sebes altas, aquele feitio introvertido e as habituais ausências prolongadas inibiram a vizinhança de inquirirem muito tempo antes. Teve que ser o intenso odor a denunciar a trágica ocorrência. A raiva permanecia à solta.

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A fotografia estava tão esmaecida que quase nada se notava, por isso, foi com acentuada precisão do olhar que reparei no bebé ao colo daquela mulher idosa que sorria.
Um olhar de amor, proveniente de um passado tão remoto que ficou preso no tempo profundo onde as memórias lutam com a infância para permanecerem indemnes, era dirigido a quem lhe tirou a fotografia e não a mim.
O amor que distribuiu foi sempre o Amor, primeiro de filha, depois de mulher, e a seguir a imagem naquele anúncio tatuado no soldado que foi à guerra e que tendo conseguido voltar lhe deu um neto, portanto também amor de mãe e por fim o amor a mim, esse sublime amor que pude experimentar antes de se sumir numa fotografia sépia ou num quadro feito de brancos, ou na memória desses objectos e pelo meio muitas dores e angústias, incertezas até ao confronto último preparando a ausência que, desde então, sempre me veio doendo.

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Sentados na esplanada virada ao mar, quem observava veria um casal a espalhar lágrimas num jornal aberto sobre a mesa ao ritmo das vagas que salpicavam as vidraças.
Algo tinha nascido duas semanas atrás ou estava a nascer de cada vez que os olhares se cruzavam e tão diferentes podem ser dois olhos ou dois pares.
Duas semanas atrás riam-se quando se cruzaram com os meus e riam-se quando, ao mesmo tempo, nos voltámos para trás e riam-se quando corri para eles para perguntar de quem eram os olhos que se riam assim para mim. Tinha sido tudo tão rápido.
Agora molhavam o papel aberto sobre a mesa e até a fotografia sépia que eu tirara da carteira e colocara sobre o jornal.
Duas avós, dois destinos tão diferentes.
Que descendência?

21/06/2009

Como uma foto

[Escrevo logo existo. Será mesmo assim?... A discussão fica para os filósofos. Depois da tanto silêncio, cá estou para deixar aqui mais um escrito no digital...]


Longe de ti me perco no rosto das coisas sem rosto. E, no entanto, há uma tranquilidade que me absorve, como se envolvida num longo afago que me liga a ti.
Sinto-te perto, apesar de saber que estás a milhas de distância. Sinto os dias passarem, em rotinas feitas de segredos, como se fora agora o tempo da adolescência. Apetece-me saltar, rir, brincar, gargalhar, com a alegria de uma criança que um dia olhou para ti e soube que eras tu o amigo com quem queria brincar. É dessa certeza que mais parece cósmica que emerge a palavra amo-te, repetida até ao infinito, com a força do sentir vulcânico, ininterrupta, segura, absorvente.

Escrever, talvez seja a minha forma de expulsar a birra e de modelar aquilo que me é distante. Procuro agarrar cada momento que me foge e escrevo, na expectativa de que me leias e sintas a ternura que há dentro de mim. Escrevo ainda para expulsar esta saudade granítica que me liga a ti, onde gotas de água escorrem em estalagmites. Escrevo para me sentir, num esforço de quem quer caminhar pela vida em passos suaves e doces, na inocência de simplesmente existir, sem dor, sorrindo às coisas que me lembram de ti.

Da casa do lado ouço os sons dedilhados de um piano límpido, nostálgico e envolvente. Talvez Chopin, em andamentos nocturnos, fazendo-me recordar os tempos em que, do jardim da casa de férias, escutava os sons que vinham da sala, quando ensaiavas novas composições para o concerto anual no Coliseu. Agora na casa nova, longe de ti, todas as manhãs acordo cedo e vou até ao terraço. Ali, sento-me no conforto da paisagem que me lembra os tempos antigos, quando eu era criança e me imaginava correr pelas ruas da aldeia, ora saltitando à beira do meu avô, que se dirigia à horta como quem caminha pelos segredos de um mapa, na senda do tesouro em mistérios guardado, ora chapinhando nas poças de água gelada, nas manhãs de Inverno, a caminho da escola. Ao lado, uma casa velha, em ruínas, lembra-me um álbum de fotografias durante décadas atirado para as águas furtadas de uma casa desabitada. Uma ameixoeira trepa pelo telhado da casa, carregada de ameixas vermelhas. As ervas e as silvas apoderaram-se da casa. Bandos de pássaros vão debicando as ameixas amadurecidas. Se ao menos eu conseguisse apanhar uma ameixa e tomar-lhe o sabor… Ao longe, o horizonte lembra-me de ti. É sempre assim. Há um lugar e um tempo onde estou sempre contigo, caminhando de mão dada, na hora crepuscular. É esta imagem que me persegue e que um dia hei-de buscar, ali, junto ao mar.

Desculpem, amigos

Já lá vão n temas à minha frente, até com um por mim proposto. A vida não me dá agora o tempo de os apanhar, sabemos todos como é, bordão linguístico na moda. É assim. Como uma feira. Será uma vaidade, o que se segue. Mas na verdade é só um brinde à nossa e um pedido de desculpas:

FEIRA

Olho para tudo na feira da ladra dos anos. Por entre setecentos euros de óculos, alto na miopia do galo, em passo de corrida vejo tudo nu na basílica do futuro.
Só no lume do convento perdido me sou, mas lento a ti me faço. No écran de teu sorriso esfuma-se fome de mim, uma ânsia de nada sem troca aparente, brilho do resto, o costume.
A vila atrás, a vida à frente. Alhos e pó, sangue de muitos ratos e pombos a saldo.
Outros momentos. Lixo no adro real de todos os santos, cruzes canhoto na mó saloia.

Abraço

16/06/2009

A Foto

Quando entrei na sala das luzes todas acesas, comecei por me rir para as paredes. A foto, dissera o homem que provavelmente não existe, naquele murmúrio que sibilava rouco do fundo do capuz cinzento. Procura a foto, ordenara com firmeza, continuando depois a não existir. Na sala que tinha as luzes todas acesas, uma imensidão de retratos cobria cada palmo de estuque, ocultando a própria cor dos muros.

Se essa cor seria vista por alguém, acaso as fotografias lhe consentissem espaço para tanto, era coisa que ficava ainda por determinar. Não parece com efeito provável que uma pouca de tinta mural, por melhor que a houvessem aplicado, lograsse fazer ouvir o seu brilho por entre aquela sinfonia clamorosa de luz e imagens. Havia ali paisagens e grupos de gente, e prados e praias e mares, e árvores altas como montanhas, montanhas nevadas como sorvetes, e sorvetes mais vibrantes que uma árvore viva de seiva, derretendo com alegria brincalhona nas mãos das crianças que brincavam nos prados e nas praias. Eu próprio aparecia em muitas das fotografias.

Percorri a sala banhado num riso divertido, riso que era muito mais prazer que escárnio. Ria-me no gozo de contemplar toda aquela beleza, as praias batidas de marés cálidas onde eu corria à beira-mar, as sombras de arvoredos a que me acolhia com grupos de bons amigos, os sóis poentes que doiravam de sonhos os nossos repousos vespertinos; e ria-me da sombra ingénua que ali me mandara, na busca ridícula de uma foto entre milhares de fotos. Mas o riso morreu-me na garganta, e secou-me na alma, quando de súbito a vi. Um engano era impensável, não podia haver confusão. Aquela é que era, sem dúvida – a foto!

Era medonha, a foto. Em volta dela, deixava-se afinal ver um pedaço de estuque bilioso e carcomido, quase como se as restantes imagens fizessem questão de se afastar, e de se demarcar daquele lastimável documento, que semelhava um qualquer género de aterro infecto. Eu não aparecia naquela foto.

A desolação é uma coisa suportável, e tem até uma certa estética. Um ermo pedregoso, áspero amontoado de rochedos que sofrem a rapina de três ou quatro arbustos esquálidos, mal presos pelas garras finas das raízes à superfície ingratamente rugosa, sob os pesados agoiros de um céu tempestuoso – isso é desolador, e não deixa todavia de ter a sua graça; a foto não era desoladora – era uma lixeira.

Nada do que as outras exibiam lhe faltava a ela; tinha também os seus arvoredos, arvoredos mesquinhos e vis; os seus prados barrentos, viscosos; as suas praias onde um mar fétido batia um areal cor de alcatrão e cor de escarro; e tudo isto esverdecia sob a luz suja de um sol pusilânime, enfiado da vergonha de não alcançar pelo menos a serenidade forte de um luar franco e claro. Era cinzenta, aquela foto, e eu não figurava nela.

Ou será que figurava? Aquele monturo que desfeava o lado esquerdo tinha decerto uma impertinência familiar, como familiarmente corcovava a árvore de ramagens obscenas, e quem sabe se não era em mim que o esverdinhado sol agoniava o seu brilho baço? Examinei então mais detidamente as fotos que em redor rebrilhavam, e nelas atentei no meu avatar.

Não era eu! Parecia-se muito comigo, o sacana, mas não era eu. Não sei bem que coisa tinha diferente de mim, e se o soubesse, de resto, ele seria talvez eu. Mas eu não era aquele, eu era o infame que na foto ominosa agachava junto ao monturo de tons gangrenados, e tentava fingir que não trazia um capuz cinzento.

Nem nas acções nos assemelhávamos: o outro fazia rir enquanto eu fazia uma via sacra, fazia de conta quando eu fazia pena, fazia pensar quando eu fazia tenções de abjurar todo o pensamento e razão, fazia planos quando eu só ambicionava fazer tijolo. Fazia de resto um bonito efeito, naquelas fotografias bonitas e vivazes, mas nenhuma delas era o meu retrato. Em toda a galeria multicor, eu só aparecia naquele ratinhado pedaço de papel de fotógrafo, aquela foto cinzenta de pó. Não era foto que se emoldurasse, coisa que felizmente ninguém se lembrara de fazer.

Saí da sala pensativo, ou pelo menos tentei fazê-lo. Mas isso de pouco adiantou, que mais havia para pensar?

13/06/2009

Primeira Reunião dos Contistas

Aos doze dias do mês de Junho do ano da graça de dois mil e nove, reuniram-se, pela primeira vez, os contistas deste blog (pelo menos alguns), no famoso restaurante "Martinho da Arcada". Em plena noite de Santo António, com cheiro a sardinha assada (os manjericos não andavam por aquelas bandas), por entre a multidão que enchia as ruas, lá foram chegando os comensais ao repasto, marcado para as vinte horas.
Os contistas masculinos (honra lhes seja feita) foram os únicos a chegar pontualmente. Ficaram, no entanto, decepcionados por a contista, ora subscritora, ter reservado a mesa no interior do restaurante e não na esplanada. Em virtude dessa falha, durante toda a noite houve diversas saídas à explanada para matar o vício.
Estavam, portanto, presentes os contistas Nuno, Armindo, Adriano e Guiomar (embora atrasada). A contista Margarida era a única ausência confirmada; a contista Sofia tinha avisado que chegaria mais tarde e a contista Rosa deve um percalço com a sua viatura que a reteve em terras distantes.
Foi muito curioso finalmente associar caras aos nomes e à escrita que já conhecíamos. O Nuno teimou que o Adriano era o Armindo e que o Armindo era o Adriano... Certo é que todos nos imaginávamos diferentes.
O jantar correu maravilhosamente (à excepção da comida) mas isso era o menos importante. O vinho foi muito bem escolhido. O humor esteve presente, em doses muito mais generosas que as de comida.
Foi tomada a primeira deliberação do grupo, ficando decidido dar um passo mais além... (não vou revelar tudo aqui).
Depois de sermos convidados a sair e enquanto decidíamos o que faríamos a seguir, a contista Sofia deu sinal de vida e ainda se juntou aos restantes contistas, num ambiente irlandês, com mais uma proposta de um outro passo, diferente do anteriormente deliberado, mas também, desde logo, aceite por unanimidade.
Ficamos a aguardar o desenrolar dos novos projectos.
Nada mais havendo a deliberar (ou os compromissos para a manhã seguinte assim o ditaram) deu-se por encerrada a primeira reunião dos contistas, pela uma hora da madrugada, da qual se lavrou a presente acta.

12/06/2009

A Foto

Para qualquer mortal aquela foto não passava de mais um pôr-do-sol sobre o mar. Poderia ter sido tirada em qualquer parte do mundo, ou simplesmente recortada de uma revista.
No entanto, quando ela a olhava, não via o sol deitar-se docemente sobre o mar, mas o outro lado da câmara. Voltava a sentir o olhar apaixonado daquele ser maravilhoso que se sentava à sua frente no momento em que tirou a fotografia. Recordava aquele dia passado em terras longínquas, cheio de risos, de paixão, de felicidade!
Tinham partido de manhã, num comboio cheio de pessoas que falavam uma língua totalmente desconhecida. Por muito que quisessem passar despercebidos, eram obviamente turistas, com hábitos e uma cultura totalmente diferentes.
Calcorrearam ruas e praças, sentiram os aromas da comida que fumegava em bancas de rua. Foram visitar o monumento mais famoso da cidade; imponente, revelador de uma cidade renascida. Uma autentica Fénix!
Decidiram rumar ao extremo da cidade, já praticamente arredores, para uma refeição num restaurante famoso pelo seu peixe.
Apanharam um táxi, coisa que pareceria normal. Revelou-se a corrida (e foi mesmo uma corrida) de táxi mais louca que podiam imaginar. Pelo caminho deram um encontrão a uma rapariga que passava à beira da estrada, derrubaram uma banca de fruta e fizeram diversas tangentes a outras viaturas, que parecia mesmo que iam ser secantes. Quando finalmente a viatura parou, as pernas tremiam sobre o chão que, embora firma, parecia fugir-lhes debaixo dos pés.
Tomaram a refeição no referido restaurante, numa esplanada sobre a praia, onde os banhistas tinham hábitos muito diferentes dos seus.
Assistiram, então àquele pôr-do-sol maravilhoso, que ficou eternizado pela máquina fotográfica.
De regresso passaram por alfarrabistas, onde compraram um livro de recordação. Embarcaram no comboio e brincaram e riram de forma perfeitamente inadequada para aquelas paragens.
Naqueles dez por quinze centímetros cabiam todas as sensações daquele dia; todos os acontecimentos passados com uma pessoa muito especial, num dia diferente de todos os outros que já vivera.

11/06/2009

O que farias se te saísse o euromilhões?

- O que farias se te saísse o euromilhões?
- Oh pá, nem sei. A primeira coisa era mandar o coirão do meu patrão à merda. Nunca mais fazia ponta de corno na vida!
- Eu não, antes de mais, pedia o divórcio.
- Por quê? Já agora, não me digas que continuavas a trabalhar?
- Divorciava-me para me ver livre da bruxa da minha sogra e da aprendiza dela, a filha.
- Se ela é assim tão má, a tua mulher, porque não te divorcias agora?
- ‘Tás louco?! A vivenda é da velha, o dinheiro é da filha e sempre tenho uma empregada que lava e cozinha.
- Quem, a tua mulher?
- Não pá, uma sopeira, mesmo.
- Então mas se o dinheiro é da filha, não é teu também?
- É uma forreta. Só porque já tinha umas massas largas antes de casar comigo, exigiu casar com separação de bens.
- Mas tu não tinhas nada?
- O mesmo que tenho agora, zero! E ainda me atira à cara que eu não contribuo com nada para a casa. Eu que, desgraçado de mim, estou desempregado há cinco anos…
- Mas não arranjaste nada em tanto tempo?
- Eu não… Só me aparecem trabalhos que não valem um chavelho. Ou são trabalhos boçais ou não pagam mais de mil euritos, nada de minimamente razoável…
- Tenho ideia que ela tinha uma empresa, não podias trabalhar lá?
- E tem. Ainda pensei nisso, mas ‘tás a ver, isto estar vinte e quatro horas por dia com a patroa (e aí era mesmo patroa) é muito mau. Ainda assim, considerei seriamente a hipótese, mas tu queres acreditar que ela me queria pôr a mim, o marido da patroa, a entrar às nove da manhã e a picar o ponto, como os outros empregados?
- Até era um bom exemplo…
- Bom exemplo?! Como é que eles me iriam respeitar? Ela nem me quis arranjar uma secretária?
- Então, queria que trabalhasses de pé?
- Não é dessas. Uma secretária para me assessorar.
- Mas que função irias ter?
- Sei lá, isso nem chegou a ser discutido. O marido da patroa tem de ter uma secretária (jeitosa). Não achas que tenho razão?
- Bem… enfim…
- Afinal, além de te despedires, o que fazias se te saísse o euromilhões?
- Olha, não sei, mas para já, o melhor é voltar para o trabalho, porque a minha mulher não é aprendiza de bruxa.

18/05/2009

Entrevista

- Posso colocar-lhe uma pergunta?
- Pode, sim.
- Quantos anos tem?
Assim de supetão como um soco no estômago, sem tempo para respirar nem sentido do sensato. Não é pergunta que se faça a uma diva numa entrevista à queima-roupa.
- É claro que uma pessoa, sobretudo a uma dama…
(O equilíbrio tentava restabelecer-se após a surpresa, demonstrando uma delicada maneira de estar.)
- …de um certo estrato social. Aliás, uma senhora, quando toda a sua vida se pautou por efeitos que levam a reunir um conjunto de eventos numa sequência toda ela desenvolvida desde tenra infância até idade adulta sem nunca lhe ter sido imputado o menor…
- Mas…
-...é óbvio que sabendo de antemão, ou tendo em sua posse elementos demasiado preciosos, os quais serão o garante de uma estabilidade estrutural acordada entre o tecido familiar e o leque sócio – económico onde se insere e evolui, pode, em ocasiões extremas, anular toda e qualquer veleidade…
- Eu gostaria de…
-…enquanto que , por sua vez, o contexto inapelável de onde provém, pode – efectivamente – conjugar, numa simulação imparcial, as duas vertentes de uma análise…
- Ei, se não se importa…
-…positiva cujo cerne incluirá, caso não incomode, a leitura global e o simulacro experimental de uma tese…
- Deixe-me só…
-…uma vez abordada de modo frontal esta problemática e a tentativa subsequente conseguirá, através da retórica, anular apenas a convicção perturbadora de um animado debate onde evoluem determinadas opiniões sensacionalistas que por maior progresso aparente manifestado não convencem quem delas se aproxima meticulosamente…
- Permita-me o reparo…
-…por confirmar fica, - se entretanto não puder haver prova contrária - a habitual inferência relativamente a casos semelhantes ou cuja aparência pode induzir um tratamento todo ele apontando para tal…
- Será que custa assim tanto…
-…por sua vez, dada a natureza e enquadramento do assunto, levar-nos-á, se conseguirmos não nos atrasar, a poder concluir, sem margem para dúvidas, colocando de parte toda e qualquer hipótese, por mais remota que fosse…
- Desculpe, mas a perante essa sua barreira terei que me retirar.
- Qual era, mesmo, a pergunta?

A saudade

É claro que durante as férias grandes o tempo cresce como se tivesse levedura e as noites encontram suas estrelas em cada fim de dia ao som de grilos e cigarras enquanto o feno arrefece. Uma saudade desequilibrada, como todas as saudades. O equilíbrio não se compadece de velhos como eu. Tenho tantas saudades de ti.
As anacrónicas saudades de colheitas em terras arrendadas ao terço, exploração de subsistência em leiras de vizinhos e das tradicionais desfolhadas da eira comunitária na cobiçosa e vã tentativa de encontrar o milho rei, porque hoje, nem as eiras conservam seus tijolos, (ruínas de outras eras) com fartura de ervas daninhas numa conquista férrea aos interstícios, abençoada força da Natureza, garante do dia que há-de vir.
Levantar de madrugada e caminhar cinco quilómetros atravessando a estrada municipal (a única alcatroada à época, sinal evidente da sua importância) e deitar-me nela olhando as estrelas com uma claridade e nitidez na Via Láctea nunca mais vistas, sempre com a sensação de um carro a chegar aumentando a adrenalina e depois seguir os passos dos avós correndo para os apanhar. Chegar e vê-los a começar a apanhar o grão ou o feijão ou varejar azeitona e sentir o cheiro de juncos em terra arenosa como um arquipélago insalubre onde crescia relva boa para rebolar e onde a imagem da roupa acabada de lavar com sabão azul e branco estendida a secar ao sol permanecia por toda uma vida.
Fogueiras de Junho ardendo em grossos madeiros com faúlhas pelos ares, os saltos e todas as aventuras com o cheiro a fumo na roupa vestindo como ciganos, as histórias de outras eras e os cantos. Não fora o Giacometti e nem me recordaria sequer deles, tal como de Dodós esquecidos na racha de um tempo passado a flutuar na cabeça de um saudoso velhote. Canto chão arrastado até ao arrepio de uma memória instalada em frasquinhos.
Avô adaptado ao tecnológico e veloz século vinte e um, entertainer de crianças curiosas, em nicho de mercado como senhor de suíças cristalizado e embalado em vácuo para ressuscitar um lustre mais adiante, cheirando a naftalina e aparentando recantos embebidos em brometo de prata. Histórias do tempo em que os avós eram verdadeiros dinossauros de contar, cujas rugas cresciam na razão directa da aparição do riso efectivo em soalheiros fins de tarde com aquela bola no horizonte lembrando uma toranja suculenta a enfiar-se lentamente no chão da lonjura. E ainda dizem que a saudade é um fado. Quantas vezes depois disso a bola mergulhou. Os avós já desapareceram e eu tomei o lugar de um deles. Olhando este fim de tarde, medito com os olhos colados na linha do horizonte e os risos de netos e crianças da sua idade, lembrando sábados à tarde, dançando nos cabos dos telefones e das catenárias dos comboios.
- Avô ajuda-me com este jogo da Play Station .
- Diz lá Pedro, se eu souber… olha que no meu tempo os brinquedos faziam-me correr mais.
-Mas eu corro, avô.
E digo para dentro: é certo que as casas com rodas eram em muito menor número, rapaz, que culpa tens tu?

A verdade

-A verdade nua e crua, talvez mais crua que nua.
- Verdade?
- É claro que verdade, verdadinha, a cem por cento não é mas…
- Mas o quê? Queres enfiar o barrete a quem? Se não é verdade a cem por cento…
- Hoje em dia, verdades a cem por cento são uma raridade. Espera-se um dia radioso de sol desavergonhado e vai-se ver aparecem nuvens, aguaceiros e um indivíduo constipa-se. Espera-se uma virgem e na melhor das hipóteses aparece com bigode ou com uma pré-rodagem digna de um fórmula um.
- Hoje em dia já nem se espera uma virgem, a não ser que se seja radical muçulmano e se reclame à porta do céu as sete virgens a que se teve direito por ter explodido em sintonia com judeus de preferência norte-americanos. Talvez nem se espere. É mesmo preferível não esperar, não venha aí um Godot de pacotilha que nos faça desesperar.
-Um Godot de pacotilha em formato de verdade, quem diria…
- A paciência de um agrimensor à espera de atendimento no sopé de um monte com castelo em cima, deveras altaneiro, sujeito ao capricho de senhores, isso sim.
- A verdade escondida num envelope de curiosidade.
- O que é afinal a verdade?
- É um estado circunstancial que nos pode levar ao desespero.
-Desvendar a verdade – um toque de magia; uma experiência poderosa que pode desembocar no espanto ou na raiva, na justiça ou na ignomínia, no alívio ou na inquietação.
- A luta, anos a fio, com a ilusão do Pai Natal para acabar de modo inglório na descoberta da fraude. Será isso a verdade a que temos direito?
-Ou enfrentar o nó górdio da dúvida: –Todos os portugueses são mentirosos.
-Na verdade…
- Cada político sabe perfeitamente o que é a verdade, pelo menos a sua verdade, e desloca-se geralmente nesse limbo que calca os dois mundos de modo a não lhe poderem invocar inverdades.
- E a verdade do comerciante…Na idade média escurecia a sua loggia para que o cliente carregasse mais fruta podre, hoje ilumina com neons para que o barulho das luzes disfarce a mercadoria.
-Queres comprar a minha verdade?
- Eu? Gostaria de deixar de ser filósofo mas não sei fazer outra coisa. Não posso comprar a verdade, posso é persegui-la até onde ela resista, como água a fugir entre os dedos de uma mão a fechar-se. Contar o quê?

17/05/2009

A Pergunta.

Tanto quanto recordo, vocês não conhecem o Percival, pois não? Bom, justo é ressalvar que por esse nome nem a mãe dele o conheceria, ela que ainda em primórdios de berço lhe pespegou o Ernesto Maria que há mais de quatro décadas lhe faz fronstispício ao cartão de identidade. Mas uma embirração já vetusta pegou-lhe um dia naquele Ernesto e, fazendo uma prática torcida com o execrado Maria, imolou ambos na pira de uma renovada identidade, rótulo novo para embalagem que traz já uso, e isso que mal tem se as coisas, afinal, também contam pelas aparências.

Percival não é em si próprio um nome comum, e nunca foi, no caso dele, desprovido de significado. Ernesto revia-se realmente naquele nome, pela boa razão que, tal como o brumoso cavaleiro das lendas arturianas, honra e flor de Camelot, também ele empenhara a sua vida no altar de uma porfiada demanda. Se Sir Percival buscava o santo cálice, Percival, mais modestamente, buscava uma resposta. Se acaso o inquirissem sobre tal assunto, diria antes que buscava a resposta, querendo com isso na realidade dizer, A Resposta.

O que tal resposta poderia ser, foi coisa que sempre variou. Ainda jovem, especulou sobre a vida e a morte, sobre a sublimidade da condição humana, sobre as humanas iniquidades. Mais maduro e experimentado, meditou largamente a ordem social, e as possíveis formas de atingir nesta uma posição lucrativamente predominante. Depois de também isto falhar, e nem sequer com estrondo que se notasse, passou a empenhar-se por inteiro na busca do amor, procurando com os românticos arroubos consagrados pelo estilo uma cara-metade, que por inclinação pessoal preferia feminina, e que lhe proporcionasse a almejada resposta. Ficou por esta altura claro para toda a gente que a resposta ambicionada era, muito simplesmente, “Sim”.

Mas até uma reposta de tal simplicidade pode ser difícil de encontrar. Pareceu então a Percival que o mundo todo se resumia a um imenso mar de Nãos de todas as espécies e feitios, tais como os Nãos tipo carapau de corrida, que se esgueiram antes que de os podermos agarrar e discutir alternativas; os do tipo tubarão, que é melhor aceitar e fugir para longe, sem lhes dar tempo a elaborarem mais mordentes argumentos; os do género baleia, esmagadores; aqueles que são como estrelas do mar, apontando sempre em várias direcções ao mesmo tempo; os búzios, que depois de recusarem se fecham na concha; e as pescadinhas de rabo-na-boca, que dispensam mais descrições, quem é que não passou já por coisas dessas? O desejado Sim, pelo seu lado, era aparentemente a mítica sereia daqueles tempestuosos oceanos.

Mas até as sereias se deixam encontrar, se as procurarmos com suficiente afinco. Que o diga o sublime Odisseus, poderoso guerreiro que só a elas se rendeu, e parece que fez até questão disso; que o diga Percival, quando um dia achou nas turvas águas de um bar acanhado e fumarento a sua ninfa, aquela que plenamente lhe ofereceu o Sim. Passados uns tempos, casaram-se.

Não foram todavia felizes. O nosso Percival, honra lhe seja feita, deu o melhor que tinha para dar, mas aquele Sim que o lançou nos braços da sereia não parece, pura e simplesmente, ser capaz de levar a empresa mais avante. Ficou por esclarecer, ao que tudo indica, a que coisa deu ela o seu Sim, visto que agora não parecem capazes de se entender na mais pequena ninharia. Se ele quer comer ela quer dormir, se pretende beber ela prefere fumar, o branco que ele escolhe devia sempre ser preto – diz ela, e também diz o contrário -, e a discordância tornou-se a única coisa em que ambos concordam. Mas ela disse Sim, e nisso não mentiu – a prova, à vista de todos, é que continuam casados.

O meu amigo Percival, casado, encornado e acomodado, não abandonou todavia a demanda. Cavaleiro sans peur et sans reproche, contra tudo e contra todos, mudou apenas muito ligeiramente o objectivo da sua busca. Na moderna versão de si mesmo, não procura mais a resposta, quanto mais não seja porque já a encontrou. Muito pelo contrário, resumindo aqui a sucessão dos eventos, tudo o que Percival encontrou foi a resposta, e muita gente diria que não era pouca coisa, caramba! Mas ele é que não se satisfaz. A fazer fé no que contam, emprega agora os seus dias na busca “da pergunta”, certo como está que o desconhecimento desta esteve sempre na origem de todos os seus males.

E quem sabe se não terá razão?

06/05/2009

Saudade de Nós

Por imperativo da definição, ninguém tem saudade das coisas que são, mas apenas das coisas que foram. Os nossos suspiros mais fundos são os que exalam a mágoa de uma perda sentida. Saudade de algo que não temos, de algo que porventura já tivemos, em dias melhores. Ou nem isso, sequer.

Todos os dias recordo, com dolorosa nitidez, aquela eternidade tão breve em que juntos fomos felizes. O momento, de tão fugaz, não teve sequer o tempo de começar a acontecer, e permanece todavia a parte mais viva deste meu presente sempre pretérito, vida sem futuro perfeito à vista, e mal conjugada na pessoa errada.

Uma das memórias mais belas, de entre as muitas que guardo, é o contentamento sereno e risonho daquele dia passado no campo, à época em que tinhamos a casinha junto ao rio. Que dizes tu, meu amor, que não houve casinha nenhuma, nem jamais te quedaste à beira de um rio, vendo a meu lado os peixinhos de todas as cores? Talvez tenhas razão. Deves ter razão, isso decerto nunca aconteceu, ou não seriam tantas as minhas recordações desse dia, nem tão claras. Tivesse de facto acontecido, e seriam talvez menores as saudades.

De tudo conversámos nessa tarde, ou de quase tudo, que sempre uma coisa ou outra se cala, mesmo quando voamos nas asas do sonho. Lembro-me que corremos alegres até junto da nossa casa, e nos estirámos num relvado perfeito, vendo juntos o céu às avessas, e escolhendo nuvens que depois levámos connosco.

Estavas cansada quando comigo vieste para o quarto, esse quarto cuja perda sempre choro, e que veramente nunca existiu. Suavemente, para não perturbar a magia daquele dia assombrado, deitei-te na cama ampla (aquela velha cama de nogueira, recordas-te, que tinha o dossel alto como um leito real? Como um leito de princesa, disse-te eu). Acariciei-te o rosto e tu sorriste, depois bocejaste, e sorriste de novo, numa hesitação de quem a um tempo deseja dormir e despertar. Abri então uma caixa de rendilhados relevos, aquela velha caixa de música que vivia na poeira da cómoda antiga. A cristalina melodia de embalar encheu de suavidade o quarto, e tu adormeceste a sorrir.

Ainda hoje revivo esse dia em que não fomos, imerso nesta imensa saudade de ser-me. Mas agora a noite cai, e há que pôr de lado a minha vida. Há coisas para dizer, coisas para fazer. Com um esforço consciente, expurgo-me de toda a saudade, e fico preparado para enfrentar as ninharias da vida dita real. Estou vazio; estou pronto. Não posso contudo evitar, bem no fundo desse vácuo que agora sou, uma ponta de saudade pelo dia de amanhã.

02/05/2009

A Verdade do Amor

Desperto com primeiros raios de sol que penetram pelas frinchas da janela de portadas brancas fechadas. Olho o rosto sereno que dorme a meu lado. Está a esboçar um leve sorriso, espelhando o seu estado de alma.
Sim, também eu acordei sorrindo, de facto estamos a passar uns dias maravilhosos. Não há pressas, constrangimentos, preocupações de não chamar a atenção dos outros ou de se ser vista por quem não devia.
Vêm-me, então, à memória os aspectos mais dolorosos da nossa relação, todos os momentos que me fazem não querer estar a seu lado. Como seria tão mais fácil se tivesse escolhido outro tipo de pessoa, com a qual pudesse andar livremente na rua, a quem pudesse dar a mão, ou beijar se me apetecesse.
Volto a olhá-la, a respiração suave revela a paz em que repousa. Porquê esta ligação tão forte? O que nos liga que e me faz enfrentar tudo isto? É este sorriso quase pueril? Essa forma de se entregar como uma criança pequena, que procura consolo no colo da mãe? Ou a alegria que me faz sentir, que despoleta o meu sorriso, o meu riso, como ninguém. Será a forma como me toca, como explora o meu corpo, despertando todos os sentidos, fazendo-me voar para outros mundos?
Mas também me lembro de outros momentos, daqueles em que me sinto a sufocar, em que nada parece ser razão para ficar, para continuar por aquele caminho sinuoso. Somos tão diferentes… Continuo a não entender o que nos une…
Abre os olhos lentamente. Espreguiça-se como uma gata. Olha-me e o seu rosto abre-se num enorme sorriso.
- Bom dia, meu amor. – diz, acariciando-me o rosto.
Como pode dedicar-me assim tanto afecto, uma quase veneração, quando eu sei que chego a ser pérfida quando discutimos?
Beijo-lhe o rosto. Sinto o seu aroma quente. Inebriam-se os sentidos. Um calor invade-me o coração.
Há verdades que não se explicam, constatam-se apenas. Não podemos procurar encontrar razões naquilo que não é racional.
A verdade do amor reside aí, é irracional e absoluto, não se compadece com conveniências ou opções correctas. É, simplesmente, sem escolha, sem razões, com toda a força que existe cá dentro.

30/04/2009

Saudade(s)

Confesso: há venenos que nos deixam ocos, vazios. Venenos brancos, de espuma abstracta, que nos sugam a Vida, a Verdade e o Sonho que nos sai do corpo (mas primeiro do olhar).
A divisória encontrava-se envolta em fumo denso e, como habitualmente, a noite demorava a nascer. O olhar dos transeuntes, inundado desse vapor branco, cegara, não pela noite que tardava, mas pelas profusas horas que teimavam em existir.
A claridade assumia um peso excessivo que, lentamente, trabalhava as pálpebras da cidade. Os ruídos, poucos, avocavam um som metálico e áspero. Os ouvidos da turbamulta contraíam a gravidade da procura do sentido. De fora, cada esquina adquiria um outro perfil, sempre sem sombra. As casas, ígneas línguas que lambiam a alabastrina cidade, tornavam-se pequenos refúgios ao longo das simétricas alamedas desarvoradas. Indistintamente, no cimo de uma outra alfama por definir, uma janela interrompia o horizonte lácteo. Dessa janela para dentro, esse mundo submergia.
Sal descia, voluptuosa, os degraus salomónicos de uma divisória enfumada que servia de antecâmara a essa janela, cujo condão (embora ninguém o soubesse) era perspectivar o inesgotado do Sonho. Descia-os como se, num só passo, transpusesse essa alba crepitação que a todos, sub-repticiamente, tumulava. [Sal] voltara a existir, mas sem nome. Essa luz clarão, do-no-mundo-e-fora-do-mundo, que esculpia o precipício da meia-noite, trouxera-lhe o ansiado indício.
Sempre amara o lado abstruso da realidade, enquanto cada partícula de luz a atravessava como uma convulsão. Prezara os cheiros subterrâneos, no labor minucioso de reconhecer todas as estações. Porém, jamais reclamara o Sol interino que faltava àquela cidade. Agora, incitara a sua súbita transformação: clandestina, em horas de alucinação, moveu-se para fora das vidraças, para fora de si própria. Nesse limiar mágico do voo, e de corpo todo rasgado, redesenhou as mitologias, sem a ilusão de as ter criado. Jorrou, oscilante, das estrelas outros compassos e diversas geometrias. No asfalto da sua pele, cintilaram amanheceres ferozes que rompiam o céu ácido da memória. A cidade ecoava noite.
Hoje pouco resta desse percurso, desse mar, desse Sal.
Ela passaria à frente de si própria. Silêncio.
Era noite, jubilosamente noite.
Em todos os outros, essa amnésia que não cuida saber dos auspícios da existência, alagava os fogos por atear, as cerimónias sacrais que não podiam ser verdadeiras, anestesiava os peitos nus dos poemas, não obstante a procura contínua de uma qualquer convicção que remanescia nos caudais da memória. Submetiam-se a essa nova vida, obedecendo às normas, aceitando todos os nomes, vozes e deuses. Todos se encontravam nesse estado encoberto e miasmático. Rumo ao centro da cidade, já não sabiam se perseguiam ou fugiam de algo. Aproximaram-se. Adentraram um espaço ou vórtice espesso e leitoso onde o Tempo, jazendo, respirava. Foram engolidos, sem interrupção. Perderam-se irremediavelmente nas armadilhas da nostalgia. Foram corrompidos pela medúsicas teias da melancolia.
Era noite, pesarosamente noite.
Apenas Sal se salvou. Apenas ela encontrou o fio de Ariadne nesse labirinto incompreensível chamado Saudade.
Confesso: há contravenenos que nos deixam absolutos, plenos. Antídotos brancos, de brilho insondável, que nos alumiam o Caminho, inflamam o espírito e erigem o Ver.

28/04/2009

E será verdade?

Os tribunais, não há que negá-lo, são sítios deprimentes. Em toda a história da humanidade, não se regista que tenha alguém sugerido fazer de um tribunal um lugar alegre e bem disposto, ou sequer pintá-lo de cores vivas. Pelo contrário, os tribunais são desenhados para induzir nos infelizes que a eles se sujeitam os mais tenebrosos estados de espírito. Tal coisa é particularmente verdadeira nos julgamentos de divórcio.

Ninguém caminha alegre para o seu divórcio, coisa talvez mais explicável que a alegria que tanto se usa por ocasião do matrimónio. Sendo ambos processos civis, o segundo reveste uma mais óbvia componente legal, mormente se é litigioso. E as componentes legais são coisas que, com toda a franqueza, acagaçam um bocado...

“Juro perante Deus que hei-de dizer toda a verdade e só a verdade”. Mesmo a republicanamente instituída possibilidade de delegar na sua própria honra o arcaico papel desse Deus lhe suscitava algumas questões – se já em tempos imemoriais havia descrido inteiramente deste último, acontecia-lhe por outro lado ser justamente o naufrágio da primeira aquilo que o trazia a cortes.

Fosse como fosse, era um juramento bonito. Até mesmo profundo, acabou por meditar, profundo e solene. Justamente a frase perfeita, a bacorada ideal a preceder este holocausto, a definição de mim próprio pela via judicial, o sacrifício destes tantos anos da minha vida no altar das circunstâncias. Seja então a verdade. Toda a verdade, e só a verdade, e assim me assista a graça desse estranho deus, que via de regra não tem mesmo graça nenhuma.

(O meu diabinho ainda coaxou um protesto em relação a “toda a verdade”, mas calei-o com um pano encharcado nas ventas, que isto de diabinhos é coisa que não requer senão firmeza. O juiz martelou afirmativamente o meu compromisso, e teve início a batalha pela verdade.)

O subsequente decorrer do processo acabou todavia por confirmar em todos os pontos a perspectiva cínica do diabinho, pois essa verdade total nem no próprio céu se usou jamais, sob razão maior de ser pelo menos um contrasenso. Estivesse aqui o velho Pôncio Pilatos, e seguro seria que o ouvissemos inquirir do magistrado, “Mas de que raio é que estás para aí a falar, com essa conversa de Verdade, e logo Toda, assim de uma vez, não querias mais nada. Toma”. (Não será muito bíblica a terminologia, mas é pelo menos plausível).

Ninguém mentiu, naquela sessão em que não ouvi nunca toda a verdade. Estava desde o início seguro que a não ouviria, nem que o meritíssimo estendesse as audiências pelos vinte e tantos anos que essa verdade durou, sobrevivendo quantas vezes à custa de umas quantas mentiras, não digo aqui se muitas ou se poucas, que não quero entrar por aí. Mas nem com esses anos todos lá iriamos, que as coisas gastam sempre mais tempo a relatar do que aquele que gastaram a acontecer.

Muita questão de facto foi ali debatida: quem pôs os cornos a quem, ou seja, questionando de forma mais técnica, se a requerida assistência foi devidamente prestada, os deveres cumpridos, ou pelo contrário negligenciada a paternidade, todas essas clausulas do contrato em apreço. Dito de outro modo, quem pôs os cornos a quem.

É um pormenor que sempre se exagera, esse dos cornos. Ora veja-se, dá um esperançoso casal início a um jubiloso matrimónio, que em devido tempo celebra sob a égide da vaca sagrada, tida em grande apreço por múltiplas culturas; orbita o mundo umas quantas vezes e, quando mal se precatam, porfia cada um dos nubentes no dissimulado esforço de enfeitar o parceiro com os adornos com que se exibia o esposo da dita bovina. Chegam por fim a vias de facto, e é mais certo que nascer o sol à direita de quem está virado para Braga, que o pomo da discórdia será a frondosa medida da armação que cada um dedicou à cara-metade. Ora, mesmo o boi, que sob o mais nobre apodo de toiro é corrido nas arenas, tem o discernimento de vislumbrar que o seu problema de bandarilhas decorre sobretudo do toureiro, e não do metal com que os ferros foram feitos. Mas a inteligência de um boi não está ao alcance de todos.

Também nós revolteamos sobre esse ponto, confesso-o. Acabámos por concluir que ninguém encornara o parceiro, medida talvez insalubre do que fomos nós dois.

Inquietei-me, confesso, com certas perguntas que poderiam muito bem ter sido feitas, perguntas de cuja resposta não me posso gabar.. Mas não, nenhuma dessas me foi inquirida, e a coisa veio a acabar na sentença, o que me têm dito ser frequente, nisto de tribunais.

A pancada do martelo, ao que parecia, fazia de nós duas pessoas apartadas, convivendo contudo em algo que dava pelo nome legalistico-abstruso de paternidade partilhada, forma jurídica de explicar que a Martinha era minha em certas ocasiões, da mãe em outras, de si própria vez nenhuma.

Saí do moderno edificio a pensar naquilo da verdade. É que eu vivi-a, essa verdade, e ela não esteve presente naquele tribunal, nem vejo como poderia ter estado. A Verdade é coisa fugidia, bem sabemos, e acaba por ser consensual que cada um tenha a sua. Nós lá nos safámos com o melhor arremedo que cada um podia arranjar, e a coisa por sorte não descambou. Mas a Martinha é que vai ter de viver com isso, não somos nós.

Não, nós apenas teremos de viver connosco, com a nossa realidade que aquele tribunal arranjou maneira de definir, por mais impossível que parecesse a tarefa. Com uma verdade de totalidade discutivel, mas que está decretada e transitou em julgado, sendo portanto para cumprir. Não sei mesmo se não seremos nós os mais traumatizados por tudo o que se passou.

Mas não, isso é um disparate. Nós somos adultos, e os adultos não se traumatizam. E essa é que é a verdade.

23/04/2009

VERDADE SEJA DITA

Assim ao leme do lápis, não é fácil navegar à bolina da verdade. Recicla-se o possível da espuma que se vai rasgando, e pelo meio fica a palavra, logo essa, única certeza. Fica, ou devia, porque no fundo resta tão só o sussurro dela. Todos a cortejam, a bordeiam. Uns fazem-lhe diligente cabotagem, outros dela se apartam em rumo de ponto cardeal único, poucos a beijam e raros a possuem, tresvario de risco.
O Manel Cada Olho, porém, era homem de palavra. Coisa assumida, coisa garantida. Teve foi a infelicidade de ficar pelo beiço, logo que encarou a Panca d’Ares. Moça do centro da vila, embora residente na Rua do Poço, em casa de telha vã junto ao muro da Quinta do Saloio, não era fruta de se deixar colher por um qualquer. Dizia-se até que nem sequer do ramo alguma vez tombaria. Mas o Cada Olho, perdido de amores desde a feira dos alhos, não deu o braço a torcer diante dos amigos e do diz-se por aí. Qual galã de fotonovela, tanto lhe rondou os ares e as missas ao domingo que acabou por levar a água do poço à sua horta. A Panca d’Ares tombou do ramo, perdida de madura e de pé contra o muro do Saloio, num final de tarde e folhas douradas a rodopiar ao lusco-fusco, regressava ela de rezar as vésperas.
Não foi muito repetida, a aventura. Em sabendo que o Benfica deixara de jogar em casa, Manel Cada Olho cuidou de todos os trapinhos, sem dar azo a murmuração. Desmaiada de cores, salvo no negro dos olhos e cabelos escorridos, a mulher era um anjo, a seu ver e amar simples. Contudo, a Panca d’Ares saíra à falecida mãe. Herdara-lhe o sobrenome, o hábito, o sangue e os humores. Saia preta plissada e camisinha branca, de casa para a igreja. Ou saia preta comprida e camisinha roxa, da procissão para a Rua do Poço. Acresce, ainda, que tal como à progenitora sucedera três vezes, também a si e logo à primeira lhe aconteceu a desgraça de não conseguir levar a bom termo a gravidez. Perdido o rebento, que na sua convicta devoção a Sto. António seria rapaz e futuro franciscano, embrenhou-se de vez num esconso sentimento de culpa, que Cada Olho, então ainda de poucos copos, mas muitos calos e leiras, desistiu de entender.
Passaram-se meses e meses de velas acesas, com cada vez mais santos nas paredes e cantos da casa, de S. Teotónio à Rainha Santa Isabel e da Beata Sancha de Portugal e irmãs ao então também Beato Nuno, passando por um longínquo S. Torcato e quase todos os lá de fora, mais venerados. O todo era completado de esmolas e terços e vigílias e ainda o jejum à sexta e a catequese ao sábado. Sem calor, Cada Olho esmoreceu. Eram distantes, os fins de tarde e as folhas douradas a cantarem vésperas. Uma feira de Sto. André trouxe-lhe, em boa hora, bom negócio e melhor bebedeira inicial. Vendeu a leira, desceu à casa de telha vã habitada de incenso e imagens, deixou metade do lucro no altarzinho de Nossa Senhora das Dores, subiu de novo ao largo, apalavrou uma motorizada vermelho berrante, entrou na Perdiz Branca e acabou a noite numa das bermas da Rua do Poço. Quando o fresco da madrugada e os galos o acordaram, seguiu em direcção ao Canal e à oficina do Ti Adelino. Com o sol ainda à sua esquerda, já rolava estrada fora e aos ziguezagues, sabe-se lá para onde.
Não foi longe. Ficou-se pelos confins do Lugar dos Moinhos, em casa térrea cedida por um primo, com vista para eucaliptais e apito de comboio de quando em vez. Trocou a lavoura pela talocha e a colher de trolha e só voltou à terra anos após, ao saber que a mulher se havia finado como uma virgem, sentada num banco corrido da sacristia, de terço nas mãos. Nem um santinho lhe testemunhara o passamento. Fora-se sozinha, agarrada à sua crença. O Manel Cada Olho custeou-lhe o enterro, mas não abdicou da sua razão. Afinal, a verdade tem sempre três lados, e a ele já pouco lhe importava qual o certo, se o seu, se o dela, se o outro, mar onde só em aflição se navega à bolina.
Do funeral foi direito a uns branquinhos na Ti Constança, depois na Tasca do Jagoz, depois na Perdiz Branca, onde deixara a motorizada. Com a mão de Deus à pendura, lá chegou a casa. Adormeceu sentado num mocho, meio encostado à parede da cozinha, com os pés encharcados de sopa e tinto, entre os cacos de uma malga e de uma garrafa partidas. Daí em diante, nunca mais curou a bebedice. De capelinha em capelinha, aos tombos ou aos esses na martirizada motorizada, tornou-se popular em todas as redondezas do Lugar dos Moinhos, onde nunca alguém arriscara abrir uma taberna, pequena e escura que fosse.
Acarinhado ou alvo de troça, todas as noites tentava o regresso. Mais de uma vez cambaleou quilómetros, por não conseguir pôr a trabalhar a fiel companheira. Mas nunca desistiu, pelo menos até dar lume a uma alma penada. É que ele há frios fantasmas fumadores, posterior palavra de Manel Cada Olho. O caso ocorreu por via de uns amigos da onça, sempre prontos para mangar com ele. Dessa feita, vendo-lhe o estado, chegaram-se à motorizada e tiraram-lhe o cachimbo da vela, de modo a que não desse pela marosca. Depois, conhecendo-lhe os passos, encheram um balde com gelo e plantaram-se no escuro dos ciprestes, junto à porta do cemitério.
Ao vê-lo aproximar-se aos palavrões a cada tropeção, um deles mergulhou as mãos no gelo, tirando-as do balde apenas quando deixou de as sentir. Saiu então da sombra, curvado e perguntando:
– Ó amigo, arranja-se aí um cigarrinho e lume?
Por entre os vapores do costume, Cada Olho não estranhou nem a figura esbatida na noite nem o pedido meio cavernoso. Levou as mãos ao bolso do colete, sacou o maço de Definitivos e à terceira tremelicante tentativa estendeu-lhe um cigarro. Mais cambaleio, menos cambaleio, seguiu-se o hesitante fósforo aceso. O outro, de mãos em concha para proteger a chama, roçou-lhe nos seus os dedos roxos:
– Porra, homem! Você tá gelado!
– Pudera, amigo! Tou ali enterrado há dezoito anos, saí agora só pra fumar um cigarrito...
Parece que a resposta lhe sarou de imediato a bebedeira interminável. Dizem que foi só olhos, boca aberta e pernas para que vos quero. Dizem, mas o certo é que no dia seguinte o ouviram a praguejar junto à motorizada, que arrancou logo depois em alta rotação. Não entrou na tasca, e a quem lhe disse bom-dia tartameleou apenas a impressão da alma penada a cravar-lhe tabaco. Ninguém mais o viu. O primo foi dar com ele na cama, sem vida, uma mão na boca atulhada de cigarros e outra, cerrada, amachucando um maço de Definitivos.
Verdade seja dita, certos aqui só os nomes. E a casa nos confins do Lugar dos Moinhos. A vista é a mesma, o comboio ainda apita. Todavia, está toda em ruínas. Silvas, ninho de vespas, armário de roupa grosseira, traças e baratas. Uma televisão a preto e branco perdida no escuro, uma enxada de pontas enferrujada, dependurada numa das traves do tecto do telheiro, mesmo por cima de uma EFS 301M Dunia, cinquenta centímetros cúbicos de cor indefinida, talvez vermelha, junto a uma janela sem vidros, aberta para os eucaliptais. Um tresvario de recordações.

22/04/2009

Sei Que Não Vens...

Sei que não vens, de qualquer forma resolvi preparar-me como se viesses. Assim, ainda que seja totalmente disparatado, sinto-me mais perto de ti. Tomo um duche prolongado, relaxante. Faço depilação integral. Sei que gostas de a sentir lisa e macia. Quero estar perfeita. Por fim saio da banheira, vou até ao quarto. Deito-me sobre a cama. Tenho a pele um pouco seca (é do frio). Sabes como detesto cremes mas vale a pena o esforço. Aplico creme no corpo para ficar com a pele mais macia. Quero agradar-te ainda que saiba que não vais saber que o fiz. Ponho aquele perfume. Observo-me ao espelho; estou gorda! Paciência, não posso fazer nada, pelo menos não hoje. Sei que não te importas mas gostaria de ser mais magra, gostava de ter um corpo, com curvas, mas de músculo e não de celulite. Dentro do possível, não está mal. Há uma coisa que não está bem: o cabelo. Não posso deixar secar o cabelo naturalmente porque vai ficar todo desalinhado. Volto para a casa de banho e seco o cabelo cuidadosamente; ondulado atrás e esticado à frente. Regresso ao quarto e ao espelho. Sim, agora estou preparada para ti, para te receber, para te dar tudo de mim. Sim, sei que não vens. Sei que é parvoíce porque tu nem vais saber que me arranjei para ti. Nem é concebível. Ainda assim, faço-o consciente de que é irracional mas na certeza que estou mais contigo, que faço amor contigo ainda que não o saibas. Ou será que sabes…?
Ai como te amo! Como gosto de te mimar de te fazer feliz. Aí reside a minha maior felicidade, na constatação de que te faço feliz. Aí tudo vale a pena. Toda a dor é recompensada. Todas as lágrimas evaporam pelo calor do teu sorriso. Tu fazes-me tão feliz! Consegues despoletar as minhas gargalhadas como ninguém. Eu rio e rio e esqueço que nem sempre há motivos para rir. Nesses momentos parece que nada nem ninguém pode interferir connosco, com as nossas gargalhadas, com a nossa felicidade. É tão maravilhoso partilhar contigo! Partilhar gargalhadas, sorrisos, beijos, pele, corpo. Partilhar as vitórias, as descobertas, um jogo de futebol, um café, uma paisagem, uma cama, uma cerveja, uma banheira, uma anedota parva, uma fantasia, um livro, uma viagem, uma memória, uma vida!
Esta é agora a minha forma de partilhar contigo.
Após passar algumas horas neste solitário convívio contigo, decidi vestir aquele vestido beige e bordoux, que adoras e ir ao teu encontro. De caminho, apanho um ramo de madressilva.
Subo a colina, passo o grande portão verde e dirijo-me àquela pedra branca e fria, que cobre agora esse corpo que conheço tão bem como o meu próprio. Pouso o ramo de madressilva, fecho os olhos e sinto o calor do teu sorriso.

18/04/2009

A festa

Debaixo de um céu azul fleumático, com a fúria ávida da minha infância, corri em direcção aos limites geográficos que separavam a Azinhaga comprida onde eu vivia e que se estendia ao Quartel Militar da Pontinha.

Num dos bolsos do meu vestido/bibe levava rebuçados brancos, de côco, embrulhados num pequeno quadrado de papel branco e vermelho - cores pavlovnianas, cujo o resultado, era o de alimentar as cáries dos meus dentes de leite.

O meu irmão atrasava a família entretendo-se com o seu arco de uma bicicleta há muito extinta. A minha mãe e os restantes elementos da família vinham afastadas uns cinquenta metros atrás de mim. Todos quisemos ir à festa, mas eu queria chegar primeiro, para ser também, a primeira a ter uma opinião.

A rua acidentada desorientava-me os passos, tinha que me desviar constantemente para contornar as poças de água e lama. Do lado esquerdo havia um chafariz público, onde a água escorria livremente, gratuita para consumos úteis e inúteis. Esta água alimentava uma rua de quase um quilómetro onde, nenhuma planta escolheria tal lugar para nascer sem correr o risco de ser repisada até, não ser mais nada.

Como eu levava alguma vantagem no caminho, fui a primeira a passar pelo o canavial. Por detrás das canas estavam pelo menos duas pessoas que trocavam incompreensíveis gemidos de prazer. Embora eu não compreende-se tal exposição embriagada, era para mim tão banal como passar pelo chafariz, ou talvez, como quem observa mulheres e crianças, carregando jarros de plástico azul cheios de água para dentro dos seus lares, era tão banal como não haver água canalizada.

Sonho muitas vezes com esta Azinhaga. Voltar a ela é como falsear a ideia que tenho da nidificação. No meu sonho é sempre noite, na Azinhaga dos Besouros. Tudo está silencioso, a viela deserta de pessoas está, no entanto, cheia, velada pela névoa e pelo lusco-fusco dos paus de electricidade, que sustentam uma lâmpada tosca e debilitada, que vigiam os meus passos em direcção à loja, para roubar rebuçados de côco.

Atravessámos a estrada para, enfim, nos encontrarmos de frente para o Quartel Militar. Estávamos em Abril, no dia 25 de 1974, a minha mãe fazia anos, mas esse facto foi esquecido por todos os membros da família, mas ela, creio, que nunca nos censurou por isso.

Subitamente, os soldados começaram a elaborar uns estranhos jogos acrobáticos para apanharem os cigarros que o povo, forçosamente, lhes queria oferecer pelas janelas diminutas do quartel - eu também já tinha fumado uma vez, mas sem dúvida, preferia o outro presente, talvez por ser mais atraente e mais colorido: os cravos vermelhos.

A festa estoirou florida de vermelho, dando um enorme ânimo ao acontecimento. As pessoas chegavam fazendo muitas para depois se transformarem num único número. Nós riamos ao querer acompanhar uma ladainha cantada (“O povo unido, jamais será vencido”) de significado para nós alheio. Cada membro da família foi prendado com vários cravos e como éramos quinze pessoas ao todo, decidimos vendê-los. E por fim, acabámos numa pastelaria a comer bolas de Berlim e a beber laranjada.
Recordo que todos gostámos da festa. Creio que a para minha mãe, foi talvez o seu melhor aniversário. Quanto a mim, não mais voltei a encontrar um lugar para surripiar rebuçados de côco.

27/03/2009

Dar o corpo ao manifesto


Longe de ser um corpo sensual, eu tinha no entanto, um corpo perfeito. Perfeito, no que se consideram medidas criteriosas e socialmente aceitáveis. Sempre tentei ter uma relação amigável com o meu corpo, mas só de longe a longe é que experimentávamos uma agradável simbiose.
Até agora ainda não descobri se era o meu corpo que me obedecia ou se era eu quem tinha o papel de decisivo nas acções e nos pensamentos. Achei-me muitas vezes contrita com ele, principalmente nas dores físicas, na doença, ou, quando simplesmente, não me apetecia carregá-lo comigo para todos os lugares. Era sempre assim: se eu queria ver o mundo ou estar com alguém ou apenas estar sozinha, ele estava sempre presente, estóico fingindo que não me conhecia pretendendo que eu me esquecera dele como fardo. Contudo, não poderei negar que neste tempo infinito convívio ele já me proporcionou bons ensejos. Mas ainda assim, continuava a ser fatigante: lavá-lo todos os dias, manter a pele com ph equilibrado e bem oleada para disfarçar as agressões externas a que ele estava permanentemente sujeito. Alimentá-lo, agasalhá-lo com camadas de roupa que me atrapalhavam os pensamentos. Quantas noites, ele não se venceu pela insónia obrigando-me a adormece-lo com chás ou outras drogas. Sempre tentei dar-lhe o que me exigia, mas para ele, tudo era insuficiente. Em resultado castigava-me revelando o meu medo, a fragilidade, a vergonha ou outra expressão de embaraço. Eu combatia-o da forma que podia e sabia, mas verificava que meu combate era inglório por ser desigual.
A minha paciência não era sempre a mesma, por vezes era acometida pela ira e uma vontade tamanha de o ignorar para sempre. Mas reconheço-lhe soberania e inteligência, sendo que, não me resta senão obedecer-lhe para assim não sofrer represálias injustificadas.

Estávamos na época das insónias, fiz como de costume, droguei-o mas sem resultado. Provavelmente porque eu estaria a resistir contra o efeito da droga, enervava-me ter que lhe obedecer neste aspecto. Ele que comprasse a sua droga com o seu próprio dinheiro! Eu não beneficiava nada com estes pensamentos pois tinha a obrigação de o acompanhar em busca da sua própria paz, para consequentemente, ter a minha também.

Era de madrugada, chovia e fazia frio. Quando estávamos na rua eu deixei escapar um certo sorriso irónico por não ser apenas eu a única quem sofria. A minha irritação quando elevada era vingativa e quente ao contrário do que se pensa. Tinha apenas vestido um conjunto de fato de treino amarelo, cor que eu sabia que lhe desagradava. Ignorei-o quando ele ainda hesitou o passo dando a entender que queria voltar a casa para ir buscar o seu casaco castanho de felpa que tanto adorava.
Quando combinámos em sair não foi para ir a uma farmácia, porque sem receita médica ninguém nos venderia droga. O nosso acordo baseava-se numa ida ao The Tavern, uma discoteca/bar que ficava na de west end em Londres.
Quando chegámos fomos bafejados por uma espécie de ar sem ar, uma mistura de transpiração, luzes, cheiros difusos, fumo e vapor oral de centenas de bocas tendo como pasto uma atmosfera viciada.

Eu estava exausta, mas não tinha outra solução senão ajudar terminantemente o meu corpo a cansar-se. Ele quis dançar e beber, e eu, obedeci providenciando-lhe na perfeição uma imagem normal de quem está só. Ele sabia que eu estava contrariada, dizia-me para eu descontrair, deixar-me ir... mas ir para onde? eu apenas aspirava uma cama.
A madrugada avançava e ele sem dar sinais de cansaço. Eu sabia que dali a horas eu é que sofreria com isto tudo: iríamos estar invertidos, ele a desejar uma cama e eu a tentar concentrar-me para executar correctamente o meu trabalho, com tanta bebida era óbvio que se adivinhava uma valente ressaca. Para minha surpresa, ele deixava-me beber alguma água evitando assim uma maior dor de cabeça. Com tanto líquido era inevitável que eu o não carregasse de 5 em 5 minutos para a casa wc.
O acesso ao wc era pitoresco, as portas eram iguais àquelas que vêem nos filmes de cóbois, abriam ou fechavam de par em par. Às vezes era complicado e até perigoso se alguém se cruzasse, podendo entalar os dedos ou mesmo o nariz. Mas esse facto importava mais ao meu corpo do que a mim, eu desfrutava do seu sofrimento como forma de o fazer desistir da bebida.
No wc fomos vedados por uma rapariga ebriamente bem disposta que perguntou se eu procurava alguma coisa. O meu corpo ficou hesitante enquanto eu, lhe respondi que estava à procura de mim mesma. Ela sorriu e disse que eu não estava ali, se estivesse, ela já me teria visto antes. O meu corpo começou a agitar uma das pernas como que a dizer-me que teria de urinar. Eu não queria acompanhá-lo, pois pressenti que a rapariga ainda me veria a ser útil. Dada a insistência da necessidade física, não tive outra alternativa senão ousar e pedir à rapariga que me esperasse por dois rápidos minutos.

Enquanto urinava o meu corpo tinha-me dito que não queria estar parado a falar, apetecia-lhe dançar. Eu calmamente disse-lhe para ele ter paciência e inventei que queria falar um pouco com a rapariga porque suspeitava que ela tinha droga. Ele concordou em manter-se quieto recomendando-me ainda assim, que não me entusiasmasse muito e não o esquecesse, disse-o com um tom de desdém e de ameaça, fazendo-me prometer que eu seria breve na minha vulgar sedução.

Enquanto lavava as mãos, vi pelo espelho que a rapariga continuava a sorrir.
Ao longo da minha existência nunca encontrei suficiente aptidão para falar de nada elevado, ficava-me por perguntar o nome ficando à espera do que sucedesse. Desta vez nem o nome lhe perguntei e ela fez o mesmo. Perguntou, isso sim, porque é que eu tinha uns olhos tão bonitos. O meu corpo reagiu de imediato – este assunto afinal era com ele. A sua questão colocou-me numa armadilha, eu não percebia se a questão era retórica ou não. E ela continuou a dizer que tinham uma cor indizível e eu pensei que ela estaria com alucinações pelo que bebera, mas não dei voz a esse pensamento, apenas respondi com um sorriso agradecendo o elogio. O meu corpo avançou para ela como a comunicar um certo magnetismo, eu não queria ser assim tão atiradiça, mas não conseguia controlar esse movimento. Assim, mais perto dela, verifiquei que também ela tinha olhos bonitos mas não lhe perguntei o porquê. Olhava-me com uma intensidade constrangedora elogiando-me agora a boca, perguntando-me uma vez mais, porque era assim tão bem desenhada e bela. Queria dizer-lhe que tinha resposta para essa pergunta mas era segredo, o meu corpo nunca assumiu aquela vez em que injectou uns miligramas de esticador. O meu corpo dengoso e insinuante chegou-se ainda mais à rapariga e ela que estava ébria mas não disléxica, colocou as mãos no meu corpo. E desta feita, como se não soubesse outro vocabulário, perguntou porque é que tinha um corpo tão aprazível apesar de não chamar à atenção. Este elogio foi tão eloquente quanto a proposta que lhe acabava de fazer: se o meu corpo te agrada, ofereço-to.
Ela inclinou a cabeça para trás mostrando as artérias inchadas do seu pescoço, mas eu não sabia bem o significado desse gesto: se ela estaria a analisar a oferta, ou se estava feliz e aliviada por encontrar um corpo, que com agrado, eu lho dava a troco de nada.
Por fim deu-me a sua morada, disse-me que estava acompanhada e não queria que a vissem sair com outra pessoa, precisava apenas de meia hora para comunicar que se iria embora. Anuí e combinámos encontramo-nos à entrada da sua casa.

Eu e o meu corpo ficámos ainda alguns momentos plantados no wc tentando cada um à sua maneira recompor-nos para nos fazermos ao caminho. Eu não queria dialogar com o meu corpo com receio de o dissuadir a mudar de ideias, e ele fez exactamente o mesmo pois estava cheio de lasciva prometida.
Felizmente que a rapariga morava perto, encontrámos a rua e depois a casa.
A noite de tão longa que ia tinha parado de chover, os degraus de entrada estavam secos e sentámo-nos neles: eu e a figura de fato de treino amarelo. Pelo menos duas meias horas passaram, o meu corpo começava a dar sinais de cansaço enquanto eu fingia adormecer para não lhe revelar o meu plano.
Quando a rapariga chegou pegou na figura amarela adormecida, carregou-a para dentro casa, enquanto eu, no sentido oposto, me esgueirava abandonando-os para finalmente apreciar a etérea liberdade de não possuir um corpo.

23/03/2009

CRÓNICA DE SONO E INSÓNIA

Penitencio-me, outra vez: este é ainda um texto antigo, reformulado só para quebrar o silêncio entretanto aparecido. É verdade que a vida nos atrapalha. Silenciar-nos é que acho que ela nunca conseguirá. Mas a escrita é tramada, outra verdade. Tento para uma próxima a história do Manel Cada Olho, que caberia melhor no tema em causa, se a conseguisse contar.
Abraço a todos.
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CRÓNICA DE SONO E INSÓNIA

Sono. Silêncio húmido. Tédio. Ninguém se passeia pelas sombras da cidade. Nada tuge, nada muge. Repentinos bramidos, trovoada longínqua. Presságios rasgando a luz o horizonte lá no fundo da Maxixe, do outro lado da baía. Breves suspiros de brisa carregam consigo mãos cheias de ar quente, despertando lânguidos suspiros na ramagem das palmeiras, enquanto me perco no meandro dos passos, no fio do pensamento, fantasma sem destino.
Um cão segue-me, fareja-me a meada dos sonhos. Não me teme. Não me liga. O faro sossega-o, fá-lo sentir a indiferença calma que só a confiança mútua gera por vezes, e o instinto assegura-lhe que como ele também sozinho lambo feridas, também enlevado acaricio saudades.
Um cigarro perto do mar. Perante o mar a solidão não se torna tão aguda, tão carcomida. As ondas embalam o abismo do céu, escuras, solidárias, constantes, sugerindo travessias e riscos, alísios e monções, outras paragens, outras viagens. As ondas são um apelo, talvez um grito que se receia e recusa. E a sua espuma, a espuma das ondas e dos dias, desfazendo-se branca na areia suja da praia ou do tempo, multiplica incansavelmente a verdade da terra, o cansaço da cidade.
A cidade. A cidade e os seus apesares. Apesar do enfado e da pouca vontade, da guerra e da pouca sorte, da esperança e da pouca fé ou das idas que se esperam e se não fazem, apesar de tudo e de nada, a cidade não nos priva assim tanto desta vida, deste embaraço.
Volto costas ao xicuembo negro da baía e sento-me na segura certeza de uma das pedras do esquecido cais. Ratos velozes disputam esquivos grãos de milho fugidos de atentas mãos que sôfregas os já haviam catado aquando do último descarregamento, derradeiro matabicho. As baratas deambulam indiferentes, cientes da sua imortalidade. Noutro canto, alguém lança num gesto infindável, num movimento paciente, uma outra vez uma outra linha à água. Num encolher de ombros sem sentido, também eu deito a beata ao mar, na inconsciente repetição do gesto infindável, do movimento paciente do pescador na outra ponta do cais.
Fixo então os olhos nos olhos do coração dela, da cidade tão mansamente entorpecida pelo sono, pelo tempo, perene cuidado. E é ao encará-la assim tão de caras, tão de chofre, que reconheço finalmente que a não possuo toda, que a sinto apenas. Acho que a desvendo. Será que a amo?
Outro cigarro, paciência. Vejo-a, escondida por detrás dos pálidos candeeiros da marginal, envergonhada por estar assim tão apagada. Vejo-a, afinal. Nua e irrequieta no sono. Caniço. Batuques na noite, altas bangas de sura, latas de água e suor, lenha e labirintos, ilusões e panos velhos, mamanas e pilões, coqueiros e mufanas, madalas e estórias, amores furtivos, sonhos fugitivos. Ou de pijama, esparramada entre lençóis e preconceitos. Cimento. Rádio Five no xirico, whisky de candonga, business e trabalhinho, directores e balalaicas, enferrujados carretos, amores furtivos, sonhos fugitivos. Pobre no caniço. No cimento pobre.
Mas atenção! Se a alegria ainda brota no antigo sorriso das mulheres, na roda de luz de um velho xiphefo, é porque na miséria deste agora sem dúvida longo, áspero, a esperança ainda reside decerto nas raízes aqui e ali endurecidas, de tão fundo enterradas na procura da água, na sede da vida.
A beata queima-me a ponta dos dedos no fio das palavras, espigas sem corpo. Largo-a com uma praga que uma rabanada transporta longe, empurrando a réstia de luz, breve a apagando. Um trovão clama bem alto o seu poder. Vibra o cais. Barcos rangem, assustados. Baratas e ratos escapam-se por entre grossas gotas de chuva. O cão abriga-se, rabo encolhido, debaixo de uma pilha de travessas de madeira. O pescador desapareceu por artes mágicas. As linhas retesam-se, assobiando o queixume do vento. Um fio de água arrasta impassível um impotente grão de milho, que cai na escura água do mar. Um rápido clarão deslumbrante acompanha-o, reaviva-lhe a cor de ouro, de suor, de pão, que o milho tem quando maduro na machamba que falta na xima das gentes.
Agiganta-se o temporal. A noite despeja agora uma espessa bátega de água, desabando tumultuosa sobre a terra, a insónia que me arrasa, me desperta. Entontecido, busco refúgio no abrigo ali mesmo onde se apanha o Mutamba, o barco para o outro lado, ali mesmo onde se espera. Um mufana dorme no frio mais cinzento do banco. Encolhido, procura proteger-se da chuva que lhe encharca o futuro. Nas quimeras do sono recria o aconchego do útero da mãe que lhe falta.
No seu sonho não há chuva, não há frio, não faltam machambas de xima. No seu sonho há palavras que se não dizem, frases que não se escrevem. No seu sonho há verdades que se berram alto.
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O Armindo alertou-me, e com razão, para a necessidade de esclarecer alguns dos termos presentes neste texto. Aqui fica, então, um pequeno "glossário":
- Balalaica: fato completo, de tecido leve, normalmente utilizado por burocratas e políticos;
- Banga: festa;
- Caniço: bairro de subúrbio;
- Machamba: horta, terreno cultivado;
- Madala: homem de idade;
- Mamana: senhora, mãe;
- Matabicho: pequeno-almoço;
- Mufana: rapaz, miúdo;
- Sura: bebida alcoólica, feita a partir da seiva do coqueiro;
- Xicuembo: feitiço;
- Xima: prato típico, feito à base de farinha de milho;
- Xiphefo: candeia artesanal
- Xirico: ave pequena; nome da única marca moçambicana de aparelhos de rádio fabricado.