03/12/2010

Um tempinho

Subi ao sonho como à montanha.


Do cimo do sonho a paisagem é quase sempre mais desafogada e mais etérea, como na gávea de uma caravela. As nuvens tocam-se com os dedos e a alma cola-se ao céu como uma estrela-do-mar.


Do alto da serrania avisto o oceano ou a ilusão dele no horizonte. Não diviso as ondas nem a praia de areia espelhada, mas adivinho a escuma que emerge e sucumbe nas margens do olhar. Era capaz de jurar que todo aquele branco é de neve e que a brisa que corre é de natal, só porque é dezembro.


As falésias de outrora volvem-se sombras de campo. Quimeras.


Desço agora pelo acordar do sonho à montanha, atravesso o fim de tarde. Um geodésico vale com renas à solta e no sopé um trenó ao abandono. É o que resta de um pontinho no tempo.


Um tempinho de luz.

02/12/2010

No pontinho do tempo

Queridos contistas

Afinal, ainda correm pepitas no rio

Correm no curso das águas

Quais pontinhos reverberando no espaço

À espera que alguém as recolha

E as eleve acima das névoas...

E fica o desafio: até fins de Dezembro um conto "Um pontinho no tempo".

09/11/2010

Dentro de mim

Chove. Chove muito. Chove muito lá fora. Lá fora de mim, o temporal ameaça.

Das arribas da Galiza à capital pode ser um saltinho.

Bem lançado o alerta amarelo por quem sabe de alertas e de tempos. E de finanças e de contas públicas e de dívidas soberanas.


O amarelo faz sentido. Talvez por isso o verão de S. Martinho se arrisque a não ser verão nenhum, mas o outono que é. O outono das nossas dificuldades, o outono que arrefece ao ritmo do frio que se anuncia.


Há quem sinta já a fome. A fome das castanhas que tardam. E a fome a sério que as brasas não matam.


Chove. Chove muito. Lá fora, sobretudo. E o inverno, que não tarda, promete durar vários orçamentos.


Dentro de mim, só vergonha. Um temporal de vergonha que ameaça arrasar.

Dentro de mim.

18/02/2010

You Have No Mail

Graças às novas tecnologias, já é possível reunir todas as formas de comunicação num simples dispositivo de bolso. Na palma da nossa mão juntamos a voz e o texto, o Messenger e o Gtalk, o mail e a internet… tantas formas de ouvir o silêncio…

Quando chegou, encontrou a casa vazia. Isso já era normal, a casa estava vazia desde que ela partira. Não, isto não é inteiramente verdade: a casa estava vazia muito antes disso, estivera vazia desde que ela deixara de lá estar, embora continuasse a habitá-la. Mas agora a situação resolvera-se, e ela habitava outra casa qualquer, pouco interessava qual, nada interessava onde. Depois de tantos anos em vão, a casa estava finalmente vazia.

Melhor assim, pensou, antes esta verdade de uma casa efectivamente vazia, do que viver a ficção de uma família que não existia já, de uma relação que há tanto tempo deixara de o ser, isso se alguma vez tivesse chegado a sê-lo. Pela força do hábito, consultou o ecrã do telemóvel, que não tinha mensagens. Com um encolher de ombros, tirou do frigorífico uma refeição já preparada.

O telemóvel andava com manias nestes últimos dias, e esquecia-se de verificar o mail, talvez fosse melhor forçar a ligação. Fê-lo mecanicamente, sem saber que correio esperava receber, ou quem de resto lhe escreveria, e não constituiu grande surpresa que nada viesse em retorno. Não deixou todavia de consultar amiúde o diminuto ecrã enquanto comia o que quer que fosse que retirara do frigorífico, nem sabia bem o quê. Não que isso importasse realmente.

A casa estava realmente vazia, oca de gente e espíritos. Mesmo o fantasma que um dia fantasiara por entre aquelas paredes tinha partido para outras paragens, deixando apenas uma vaga saudade da sua não-existência. Disparate, pensou, um fantasma não é companhia, e de resto os fantasmas não existem. Consultou de novo o telemóvel, sem que qualquer novidade lhe viesse alterar a existência.

Num desespero de vazio enviou umas quantas mensagens escolhidas, bem como um ou dois mails. Nada de muito óbvio, nada que explicitamente convocasse uma resposta que estava ciente que não viria. Publicou ainda um post recôndito, e permitiu-se fingir que não estava à espera de nenhum comentário. Verificou novamente o telemóvel antes de se deitar. Como sempre, nada!

O fantasma que um dia habitara a sua casa apareceu nessa noite, mas vinha apenas buscar algumas coisas que deixara esquecidas, e não se demorou.

17/02/2010

Vergonha(s)

Arrasto ainda na memória aquela tirada que tantas vezes me arremessavam sem mais nem porquê, era eu miúdo de escola ou pouco mais. Bastava que me negasse (enfim, que me desculpasse) a cumprir um ou outro mandado com o sábio argumento de que tinha “vergonha” – como ter de ir a casa da Tia Rita, da Tia Saudade ou do Ti Domingos levar um recado, ou então ir à loja do Salgado ou do Salvador ou do Fernando Simões ou da Irene Mona comprar um punhado de qualquer coisa –, e zás, lá tinha que ouvir um «Vergonha é roubar!».


É claro que deveria haver outras más acções igualmente vergonhosas para além de subtrair bens alheios, mas esta era sem dúvida uma das mais sérias lá por casa, sobretudo para a boa formação de uma criança como eu, que, na altura, não pensava noutras mais ousadas, como agora conheço e são, afinal, muito comuns em gente adulta.


Também aprendi desde cedo que “Quem tem vergonha, passa fome” – variante de outros ditos que nos dias de hoje são apanágio de alguns autarcas mais temerários –, e que por isso era preciso por vezes passar a perna aos outros colegas-putos da escola e da vizinhança, que a esperteza era o escape para quem aspirava igualmente abrir bem e cedo os olhinhos, como os coelhos.


Porém, quando se abria demasiado pronto a pestana, o responso era logo “Quem não tem vergonha todo o mundo é seu”. E isto dava para os dois lados, ora como elogio, ora como reprimenda, que uma coisa era arriscar, outra ultrapassar os limites do recomendável.


O que eu então não suspeitava, catraio ainda, é que a flexão em número, para além da quantidade, podia alterar em muito a qualidade, e para melhor. De vergonha para vergonhas era um salto gigantesco, um salto de nos fazer corar. Esta foi, reconheço, uma das muitas bondades que a escola me facultou, a de desocultar os mistérios da gramática. E a de ler, sem vergonha, coisas muito bonitas, de vergonhas modeladas.


Foi o caso de Camões, de Os Lusíadas, de um Canto quase todo espraiado por idílicos campos com assediantes vergonhas à solta, ou o caso de Pêro Vaz de Caminha, da sua Carta do Achamento da Terra de Vera Cruz, de certas decorosas passagens. Desta última jóia, repescamos estas:


“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.”


“Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até ao quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo ela sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma.”


“Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha.”


E se suspeitas houvesse nestas cândidas leituras, um carnaval bastaria, destes que nos chegam de terras do “achamento”, para nos convencer das generosas vergonhas que por ali abundam, em bundas e peitorais atributos, e que, de tão apetecíveis, não há vergonha que nos valha. Vergonha, mesmo, é não vê-las!

03/02/2010

Umas férias de tudo

Esta poderia ser a história do homem que era transparente, mas creio que, como história, terá de ficar para outra altura. Esse deixava passar quase tudo ou tudo passava por ele, sem que sequer o vissem. Oposto do homem transparente era um meu amigo, niilista.


Um dia reparou que eu ficava muito tempo a fazer nada e interpelou-me perguntando se eu estaria disposto a trabalhar para ele.

- Trabalhar para ti, nem penses, mas em sociedade aceito.

Ele concordou com os termos da minha proposta e começámos logo a fazer nada os dois.

As pessoas passavam e admiradas tornavam a passar e nada. Nós ali, sempre ali. Aquele local era óptimo para fazer nada. Carradas de nada, de sol a sol, e a plena satisfação do dever cumprido.

Ao fim do dia, mal nos levantávamos e como boa sociedade, combinávamos quase sempre ir tomar uns copos, discutindo se mudaríamos de local no dia seguinte, apreciando o filão que tínhamos deitado a baixo, adivinhando as suas potencialidades.

Calma tarde, os copos que nos puseram em frente, no balcão a que nos tínhamos encostado, permaneceram vazios e aquela sensação de workaholic instalou-se-nos de tal modo que, quando a casa fechou, não apetecia sair de lá. Excelente mina, nem sei se ficámos a marcar território ou se zarpamos dali para outro lado, o certo é que à mesma hora do dia seguinte lá estávamos encostados ao balcão em frente a dois copos igualmente vazios e foi um começo de um ritual a perpetuar-se.

Enquanto fazíamos nada, as ideias iam e vinham como os transeuntes de todos os locais onde nos estabelecíamos. Uma delas apareceu, sentou-se connosco e foi-se instalando:

- E se, com toneladas de nada recolhidas, nos puséssemos a vendê-las?

Foi assim que nos começámos a dedicar de corpo e alma ao ramo comercial.

Por tudo e por nada, sobretudo por nada, lá estávamos nós a vender.

E vendíamos, vendíamos. É certo que nada vendíamos mas era uma boa sensação. Vender nada tornou-se uma razão de vida e em franca expansão.

O êxito foi tal que passámos a exportar.

Já tínhamos vários clientes para lá da fronteira quando decidimos abrir franchisings por todo o lado. E aquilo é que era, não havia mãos a medir.

A propósito de fronteiras, até tenho uma boa para vos contar.

No início, quando o negócio ainda era artesanal, internacionalizar a coisa ia dando para o torto. Estava eu tentando atravessar a fronteira para expandir o mercado quando um guarda- fiscal mais teimoso perguntou:

- O que é que leva aí?

É óbvio que estão mesmo a imaginar a minha resposta:

-Nada.

Pois, nem queiram saber, fui inteiramente revistado da cabeça aos pés e quanto mais se davam conta que o que eu transportava era nada, mais se punham a espiolhar. Até lavagem ao estômago me fizeram, o que foi um pouco doloroso pois eu nada comia desde há uns dias para ir bem carregadinho.

- Este nada tem – deixemo-lo passar - disse o menos teimoso.

Até que lhes atirei:

- Se tivessem acreditado que eu nada tinha comigo escusávamos de estar aqui a perder tempo.

E lá segui eu a fazer nada para a terra dos outros.

Uns anitos mais e tornou-se uma praga.

Havia nada por todo o lado, cansado de fazer nada e de ver nada após cada esquina dobrada tentei fazer umas férias de tudo.

29/01/2010

Sonhos sobrantes

A vida bem pode ser isto mesmo: espaço entre nada e nada, uma caminhada, breve ou longa, em simulacro. Uma estrada cujo início desconhecemos, por não termos memória capaz, uma estrada cuja curva não evitamos por não a divisarmos. O poeta sabia disto como poucos, e afirmou-o, tendo nele apenas todos os sonhos do mundo.
E embora a gente não acredite nas palavras, ou faça por não acreditar totalmente nelas, acaba por admitir um bocadinho, às escondidas, que alguma verdade há-de haver em haver mistério.


Os passos que palmilho pela
fímbria da praia
por entre gestos inusitados que
me desvelam os segredos
apagam-se breves e
mudos

os anseios que alindo pela
fúria das águas
por entre vagas quiméricas que
me ateiam a sede
somem-se doídos e
mansos

os caminhos que cruzo e
sei
nunca me trazem de volta nem
nada


Se ao menos sobrassem os sonhos…

21/01/2010

O prometido

Íamos no nono dia

Do nono mês

Era o nono da fila

Em demanda do tesouro

Nove vezes prometido

Ninguém sabe quem é

Ninguém sabe onde mora

Um dia

(dizem)

virá

O nono no riso

E o nono de muito siso…

16/01/2010

O Nono Corredor

Eram nove corredores. Apenas isso, nove bocas rasgando de breu as paredes rugosas da caverna, nove túneis de mistério, promessa e ameaça. O nono, tinham-me antes avisado, era de todos o mais tenebroso, um horror sem nome que a todo o custo urgia esquivar. Experimentei então o primeiro dos túneis, mas tinha dragões.

O segundo era um caminho aprazível, passagem luminosa e acetinada, mas que em cada curva estreitava, até que me foi por fim impossível prosseguir. Retornei sobre os meus passos, e tentei o terceiro corredor, escura cova de cuja humidade pingavam morcegos viscosos, que se agarravam às minhas roupas com garras pequeninas e invejosas. O quarto túnel era um lamaçal, onde cedo desisti de patinhar.

A quinta passagem foi promessa logo atraiçoada às primeiras curvas, e a sexta desiludiu sem quase chegar a prometer. Enveredei então pelo sétimo túnel, que era longuíssimo. Era também o mais variado de todos os corredores, e tanto atravessava lanços resplandecentes de risonha claridade, como logo mergulhava em extensas léguas de escuridão, a escuridão de um crepúsculo sujo e mal apagado. A cada volta do caminho ia encontrando larguezas que alegravam o coração, para na esquina seguinte me roçar em paredes que se estreitavam, no desejo maldoso de me tolher a passagem. Mas prossegui, e acabei finalmente por avistar a luz, a famosa luz ao fundo do túnel.

Parecia-me familiar, aquela luz, e a suspeita que insidiosa me foi possuindo, enquanto a luz crescia para mim, acabou por se resignar à indesmentível confirmação: a saída do sétimo túnel era simplesmente a entrada do oitavo, e eu estava de novo na caverna. Restava-me o nono.

Hesitei, presa de um receio sem nome, o receio de quem não sabe ainda que coisa recear. O nono túnel, bem me lembrava de mo terem dito, é de todos o mais terrível, um pesadelo mais negro que as piores fantasias que possas até aí ter experimentado. Mas não via que outra coisa podia fazer, em semelhantes circunstâncias, e entrei no nono corredor.

Era o mais bonito de todos, e não houve volta que me não deslumbrasse, nem trecho onde me não detivesse em contemplação. Esquecera já os túneis que passara antes, esquecera o horror e o medo, esquecera tudo menos a expectativa do que traria cada nova curva.

Tudo me voltou de chofre à memória quando dobrei a última esquina do túnel. E com a memória, chegou igualmente a compreensão de que a jornada findara. Os avisos eram verdadeiros, não havia exagero nos augúrios. A verdadeira essência do terror, o bloco de gelo em que a alma por destino último se encolhe, estavam ali, puros e sem disfarce, após a última esquina. O nono túnel terminava numa parede fria, lisa e inamovível.

12/01/2010

O meu irmão

- O meu irmão, em tempos, fazia esta avenida, cruzando as dez ruas que a atravessam, em cinquenta e sete segundos.


- Não acredito. Impossível.

- Testemunhado por bem mais de uma dezena de assistentes. Na altura, ele angariava admiradores a um ritmo quase tão alucinante quanto a velocidade com que atravessava essas ruas.

As apostas faziam-se sempre por volta da meia-noite, na esplanada do Arcada, por entre o arrumar das cadeiras e o varrer do chão, enquanto se emborcava as últimas cervejas. Nunca zarpava antes das três e meia que era quando o camião do lixo descia o último troço da alameda e quando a noite arrefecida amainava o fragor do movimento. Até lá, conversava-se acerca de tudo que pudesse ter uma ligação a desportos motorizados, mas sobretudo com ênfase na dinâmica dos motores e nas preparações das máquinas.

Mal o camião curvava na décima rua para a praça e o barulho se sumia no sorvedouro do silêncio nocturno, instalava-se um certo zunido residual.

Era a altura exacta que ele escolhia, no meio de um dramatismo previamente estudado, para saltar através da janela aberta do carro. Pendurava as mãos no tejadilho, num salto acrobático que fazia lembrar os forcados pegadores de touros quando saltam para a arena – dizia que era como os pilotos das corridas Nascar. Calçava um par de luvas de dedos cortados, em pele fina de uma extravagante cor laranja, - dizia que era para dar sorte - lançava um sorriso desafiador e depois arrancava deixando muita borracha transformada em fumo e uns guinchos que perduravam na memória, muito depois de ter cruzado a décima rua.

Invariavelmente, todas as terceiras sextas-feiras o fazia. Até que, numa noite, houve um corte no sistema eléctrico, no nono cruzamento e os semáforos entraram em laranja intermitente. Ele teria que ceder prioridade a quem se apresentasse pela direita e dessa vez o camião do leite descia a rua com toda a confiança pois tinha a prioridade, apesar dos semáforos laranja.

Da precisa cor das luvas de dedos cortados que o leiteiro logo vislumbrou por entre os ferros retorcidos.

29/12/2009

E o nono, Nuno?

Foi a primeira vez que privei com alguém vindo do arquipélago da Madeira. Andava na Faculdade, e para aí no terceiro ou quarto ano, se a memória me não atraiçoa, calhou-me numa ou duas cadeiras uma colega que vinha da ilha com o mesmo nome. Rapariga bem-disposta e com réplica sempre pronta, tinha igualmente uma capacidade extraordinária para se integrar numa qualquer equipa recém-formada e para partilhar tarefas e responsabilidades.

Mas o que mais me agradava nela era aquele modo particular de falar, aquele jeito de ditongar algumas vogais acentuadas ou de palatalizar o /l/ em alguns contextos ou, ainda, como nos ensinavam os trabalhos científicos, de vocalizar ou semivocalizar o –s final quando seguido de consoante sonora ou de fricativa surda.

Havia, naquela pronúncia, um certo encantamento, um toque exótico requintado que espontaneamente a trouxe para um grupo de trabalho de que eu fazia parte, eu e mais um colega e uma outra colega. Um bando de quatro, duas e dois, que se deu muito bem e trabalhou com bons resultados.

Já não sei em que altura dos nossos encontros e discussões de ofício se falou de um fruto característico do arquipélago madeirense, desconhecido de todos, menos da colega daí nativa. Convém sublinhar que nesses tempos idos ainda a globalização não era o que é hoje, e os mercados e frutarias não tinham o colorido que agora ostentam – uns cachos de bananas, um ou outro ananás, uns quantos raros maracujás, umas romãs e uns dióspiros e por aqui se ficava o ramalhete com cheiro tropical.

A colega, perante a nossa ignorância, prometeu trazer-nos da sua ilha da Madeira uma meia dúzia de exemplares daquele raro fruto, para que o mirássemos e degustássemos.

Por alturas de Dezembro, a nossa madeirense, que dera um saltinho à casa natal, no Funchal, presenteou-nos com o tal fruto: redondo e não muito volumoso (embora os haja grandes), com casca lisa (embora a haja rugosa), semente preta e uma polpa esbranquiçada e doce. Passou no teste.

Ficámos todos a saber o que eram as tão afamadas anonas e a conhecê-las por dentro. A minha colega madeirense tinha razão em fazer-lhes publicidade, tão longe estavam de nós e do nosso palato. Não sei porquê, mas ainda hoje quando as vejo, as anonas, me lembro da colega; e quando me lembro da colega me vêm à memória as anonas. Como são imprevisíveis os caminhos do desejo!

Ah, e o nono no meio de tudo isto? De um a dez, é só contar. Quase classificação máxima. O Nuno que o confirme, contando…