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23/09/2009

Fuga fugaz

Contar uma fuga levou-o, pobre dele, a dirimir sobre o ponto de partida, não propriamente da ou para a fuga, mas para a escrita dela, que tanto podia ser para uma determinada fuga, em concreto, ou para uma qualquer fuga.
Preferiu esta última, incerta, imprecisa, e por isso ilimitada e para ele mais mansa e livre, como devem ser todas as fugas.
Um destes dias, de pena em punho, decidido como quem entra na liça, arriscou uma aventura, e escreveu de olhos cerrados:

Fica comigo, deixa que as palavras te seduzam, e encostados um ao outro admiremos o rio, de mãos desenlaçadas, como na ode do poeta. E descansados de estarmos, que o tempo nos invada e nos enleve. Em breve, verás, seremos longe, como quem se abandona sem querer ou sem saber que o quer. Partamos!

Depois, triste e desenganado, dobrou em quatro o branco que lhe sobrou da vigília, e adormeceu.

14/09/2009

Fuga para a Felicidade

Estava tudo escuro, sentia-me completamente aprisionada, sufocada. A maior das prisões: quando não temos liberdade de olhar, de falar, sequer de pensar. Um dia percebi que poderia ser diferente. Podia fugir, ser livre. Bastava querer.

Enchi-me de coragem, rebentei com as correntes e parti os agrilhões. Corri para a liberdade.

Jurei que não me apanhavam noutra. Dali para o futuro seria totalmente livre, não queria quaisquer amarras. Não é possível ser totalmente livre ao lado de outra pessoa. Mal nos descuidamos, lá vêm as pequenas mentiras para não magoar, não ferir a susceptibilidade de quem está ao nosso lado. Às tantas, as mentiras vão sendo cada vez maiores, só para manter a imagem que a outra pessoa criou. Mas já não somos nós; somos a personagem que mantivemos à custa de pequenas grandes mentiras.

- Quem era ao telefone?

- Era a Ana.

- Mas essa não era aquela que se andava a fazer a ti?! Porque é que lhe atendeste o telefone? Anda outra vez a dar em cima! E tu dás trela.

- Ela só queria saber se lhe posso emprestar um livro, que sabe que eu tenho, para a pesquisa dela para a tese de mestrado.

- Qual livro? Não interessa, era uma desculpa e tu não vês (ou não queres ver). A faculdade não tem biblioteca? É só para falar contigo.

Noutra ocasião:

- Quem era ao telefone?

- Era telemarketing.

Não, não queria isso para mim. Estava certa que nunca poderia ser completamente sincera com alguém com quem partilhasse uma vida, por isso era preferível não partilhar. Ia simplesmente gozar a minha liberdade.

Parti para a vida com a firme determinação de simplesmente a gozar, sem que nada atrapalhasse.

Encontrei uma companheira de fuga. Também ela saída de uma outra caverna. Demos as mãos e decidimos prosseguir lado a lado, dando pistas uma à outra de qual a melhor maneira de gozar a vida em liberdade.

- Está sempre bem contigo própria e irradia essa confiança (elas adoram isso).

De pista em pista, fomos descobrindo que não aguentávamos as mesmas correntes, que tínhamos os mesmos defeitos, que queríamos a mesma liberdade.

Lado a lado, percebemos que ansiávamos o mesmo beijo, a mesma união de corpos, uma comunhão de almas antigas.

Demos novamente as mãos, abraçámos os corações e partimos numa fuga para a felicidade.

01/09/2009

Fugir, ou não fugir?

Isto não é um conto. Respeitando o tema pedido, trata-se apenas de algumas (breves) considerações sobre esse fugidio conceito, a Fuga.

Muito foi já dito e escrito sobre fugas. Há volumes de teorias em volta do tema – a chamada literatura de escape –, onde são escalpelizados até ao mais miúdo detalhe os meios e instrumentos, os estratagemas e truques, o momento mais propício e o mais favorável estado do tempo. Sem embargo de tão momentosos pormenores, um requisito há que avulta no topo da lista, talvez a única condição de facto imprescindível: para uma fuga bem sucedida, é necessário começar por estar preso.

Será um truísmo afirmar que ninguém foge de onde não está, mas não é de modo algum uma irrelevância. O convicto agrilhoado reconhece a inconveniência do seu estado, e a desirabilidade de o alterar para melhor. Numa palavra, fugir. Pois bem, tem o aprisionado cidadão ao seu dispor os convencionais meios para atingir esse objectivo: seja por via da colher escavadora ou do cesto destinado à lavandaria, acabará por se ver do lado de fora.

Tomemos agora, verbi gratia, o guarda que tem a seu cargo o convicto. Também ele está mal onde está, também ele reconhece o desejo e conveniência de mudar, mas ele está do lado de fora. Entra amiúde na prisão, é verdade, mas entra e sai quando quer. Os condenados pertencem à prisão, ele apenas a frequenta, e é por isso que não pode fugir, já foi dito que ninguém foge de onde não está. Os prisioneiros têm ainda outra possibilidade que a ele está vedada, que é a opção de não fugir.

Vi isso numa prisão, mole granítica erigida sobre um monte que eu contemplava de baixo, da liberdade da mesa de esplanada onde me esquecia em libações sem fito. Vi os prisioneiros e não me lembrei que estavam presos, ocorreu-me apenas que estavam lá dentro. Eu podia entrar e sair, eles pertenciam-se. E, ao contrário de mim, podiam fugir.

Desistir de tudo leva-nos a não pertencer a nada, e a rejeitar todas as prisões. Depois disso, não há fuga possível.

Tal como alguns funerais dispensam flores, também o presente texto dispensa comentários. Isto não quer de modo algum dizer que eu não aprecie comentários, ou não os deseje. Simplesmente, não me parece que seja um texto comentável, ou que alguém pudesse desejar comentar.

27/08/2009

Opus 25

A liberdade é um estado de espírito.
Dentro de uma caixa, o desejo de sair quando o mais difícil foi entrar.
Poder sair e não querer ou a sensação de estar preso.
Sentado num sofá, umas mãos postiças agarrando as barras de ferro de uma janela encaixada numa parede de contraplacado rebocado a estuque envelhecido numa patine de inscrições de prisioneiros desgastados. Ilusão perfeita - para quadro surrealista, falta o céu verde. Um alçapão no fundo do palco.
Fuga de Bach em ré maior e, nas costas, uma praia a perder de vista e um sol cansado.
Toneladas de areia como um deserto infindo.
Fugir de quê? De um mêdo? De uma limitação imposta?
O cárcere como libertação ou a prisão em espaço amplo escandalosamente aberto.
Uma fuga para a frente, um preenchimento sempre, sempre descontente.
Um passo seguindo outro e outro rodeando uma coluna. Um passo seguindo outro deixando para trás um desconforto. Poderia ter começado assim:
.................................................................................................................................
Um dia, ele veio ter comigo e contou-me que tinha um túnel quase acabado.
O buraco foi feito e o ludíbrio dos guardas, perfeito.
Na noite da fuga, á saída, no meio de um canavial, confessou-me:
- Com um pouco de sorte chegaremos ao mar ou à estrada. E aí logo se verá.
Encontrando-me do lado de fora dos muros olhando para este quarto crescente, juro-te que não voltarei atrás.
- Ainda bem que assim falas, pois é agora nesta encruzilhada que terei de contar-te um segredo:
“Os cães, os helicópteros, todos os GPS do mundo se unirão para nos barrar a escapada. É uma luta da tua inteligência contra a dos outros. Os meios dão-lhes vantagem e até o tempo, se, inicialmente, por surpresa, joga a nosso favor, rapidamente como grande meretriz travestida se coloca do lado deles e se, só por um grande acaso de sorte acumulada, com a dose certa de desânimo, desgosto e desmotivação do lado perseguidor, essa grande puta voltar para o nosso lado, aí a vantagem chegará encorpada e crescida a clépsidra revelar-se-á aumentada a distância entre ti e o teu desconforto. Ouve bem, portanto, o que te vou dizer:
O meu bisavô ao erguer a sua casa em Cinfães, no início do século passado, guardou um tesouro no interior da estrutura. O seu único filho nunca quis derrubar as paredes do solar que tinha herdado. Por sua vez, o meu pai ouviu este mesmo segredo à hora da morte do meu avô e tratou de o passar, muito antes de se finar, a mim e ao meu irmão que foi morto, por uma mina anti-carro, na guerra do ultramar. Por respeito a seu pai e seu avô fez de igual maneira e o solar continuou preservado.
Eu nunca precisei até agora e os deuses proveram-me com talento suficiente para passar sem ter que levantar uma pedra.
Por isso, e por paga da confiança que mereci nesta fuga que partilhaste sem querer nada em troca, vou descrever-te qual a rua, número da porta e qual o muro a derrubar.
Separamo-nos aqui, mas aquele de nós que tiver a sorte de chegar a Cinfães deverá usar o passaporte para a liberdade. Meio passaporte em ouro chegará para dar duas voltas à Terra e se eu chegar primeiro encontrarás a tua parte neste local...
E eu poderia ter ouvido o resto da conversa passada no meio de um canavial à beira do rio, onde tinha ido pescar nessa noite, à luz de uma lua pouco crescida, não fora o ladrar dos cães ao longe.