05/10/2012

A casa

A casa está agora despojada de mobílias.
Solares, as paredes puras ainda seguram os sonhos
e as histórias de livros guardados na biblioteca.
Na lareira, os vestígios de carvão
são sinais de Clio, fiando uma Nação.

E QUANDO SE NÃO CONTA

Quando se conta por palavras, alguma coisa se conta.

Por muito pouco que contemos, evitamos pelo menos o silêncio, reduzimos o vazio, tornamo-nos mais próximos de nós e do mundo.


Contar é sempre um ato de fé, um compromisso, uma prova de vida.


Hoje, marquei presença, roubei uma estrela do azul que sei e contei-me aqui.


Disse-me.

28/07/2011

RUBOR DE ANJOS

É como com os gostos. Ou se gosta ou não se gosta. Já os latinos aventavam no seu proverbial saber: De gustibus et coloribus non est disputandum. Assim, portanto, com as cores.

A gente resmunga, resmunga, num daltonismo congénito, mas na hora da verdade “ou é verde ou é vermelho”. E não se pense que seria igualmente perentório dizer-se “ou é preto ou é branco”, que isto é chavão do barato, do género nem é carne nem é peixe.

Cores, exigimos cores, mas vivas, de um cromatismo alentado ou sanguíneo, figurismo de bandeira com acendalhas no regicídio. O José Jorge Letria conta a história quase toda. O Stendhal também andou por esta paleta, mas com demasiado psicologismo à mistura a tender para o negro.

Então e cores de flores, vermelhinhas às braçadas para marcar revoluções singulares de entupir baionetas? Proezas seduzidas de emancipação.

Então e cores de frutos, vermelhos todos antes ou depois de sazonarem? Colorações lascivas em apelo papilar, rubor de anjos.

Então e cores de farpelas despidas em galas de recreação? Olhares meneados em femíneos corpos.

Em síntese, é como com os gostos. Deleitosos, porque vermelhos.

12/07/2011

AQUI HÁ GATO

Que são todos pardos, é o que se diz popularmente dos gatos quando vagabundeiam pela noite espessa.

Nunca percebi porque hão-de ser ou parecer pardos, eu que tanta vez trouxe da loja rebuçados e amêndoas de meio tostão aconchegados num cartucho de papel que tinha este nome, papel pardo, e nunca achei que os meus gatos ou quaisquer outros da vadiagem conseguissem esta tonalidade quando a custo os distinguia na escuridão.

Já agora, e para que conste, era neste papel que a minha mãe escorria os bilharacos, as filhós e as rabanadas em raras e diletas ocasiões de festa, e o papel, no fim, quando o atirávamos para a fogueira, ia pardo ainda e luzidio, de um pardo que se continuava vendo, porque a luz o deixava ver, e não porque tivesse o condão de se lobrigar nas trevas. E como ardia!

Bem sei que este mito com gatos à mistura é só para disfarçar, que são outros os seres, o povo não é parvo, e estes é que são pardacentos e esquivos e não deixam rasto dos infortúnios que causam. De noite como de dia. Gente felina que dá mau nome aos gatos que, a qualquer hora, pardos ou às riscas, nunca são cinzentos.

ESTAÇÃO SEGUNDA

O verão produz milagres. Isto porque é verão, e só por isso, porque todas as estações são boas para maravilhar.

A primavera, porque tem a mania de florir tudo quanto desabrocha e faz bem à visão das manhãs rociadas.

O outono, porque tem a constância das folhas tombando do céu à medida que amarelecem na memória das tardes.

O inverno, porque tem o assombro dos cristais imaculados que agasalham a alma quando ela adormece de costas para a vida.

Mas o verão, agora que é verão, faz prodígios. Fá-los porque tem nos dias longos os braços estendidos e o amor na ponta dos dedos. Fá-los porque tem nas noites luzentes as brancas noites do fogo derramando-se pela madrugada dos corpos.

No campo, na montanha ou nos poros da areia escaldante, o verão consente que os corações se desprendam de maduros e inventem a sesta sequiosa. E sob os ramos de sombra lhe diz “deixemo-nos entrar”.

O conto pode começar, assim, entre assomos cavos e falos no limiar da estação segunda.

12/12/2010

Limiar

«Ver: aos onze anos de idade, perdi o dom de ver. Sobrou-me o dom de ouvir. E de pegar. De intuir e de farejar. Dons outros para o mar enorme dos entendimentos.» (“A voz da mulher do lado”, conto de Paulinho Assunção)


A gente aprende a ver. A gente aprende que ver também se aprende com os olhos que há, com as lanternas que sobram dos outros sentidos.

Nas noites de todos os dias, o silêncio permanece às escuras. O leito é grande, muito grande, excessivamente grande para os poucos metros quadrados da alcova. Como um rio cujas margens se não tocam nunca.

Esta noite, porém, terá uma sorte diferente. Será uma noite polar, e quem lá se acama vai saber o milagre da luz, dos raios de luz que há no alvoroço das mãos.

Ela chega-se. Ele chega-se. Tocam-se ambos na mudez da cegueira.

Com a ponta dos dedos, a gente viaja, a gente navega, a gente perde-se, a gente encontra-se. A gente descobre a orografia da vida, a geografia da alma.

À altura do umbigo, faz-se dia. Limiar. Um pontinho, no tempo dos corpos.