30 de Nov de 2009
A porta é uma saída pela qual se entra
Elena, uma jovem mulher igual a tantos pobres, não teve outra solução senão a de se render à mendicidade para alimentar a família.
Na rua, Elena tentou várias vezes esticar a mão nua para que nela depositassem algum dinheiro, mas esta táctica nunca resultou, na sua mão apenas caíam propostas obscenas. E compreendia-se porquê, Elena possuía uma beleza fora do comum.
Como se calcula, era-lhe muito difícil conviver com a sua situação baixa, ter que necessitar e ter de se submeter, e por tudo isto, decidiu fazer-se à vida de pedinte à moda antiga: bater porta a porta, abrir o saco dizendo apenas dê-me alguma coisinha. Por vezes o saco até se abria para receber nele pão, enquanto outras, um tenha paciência – como se pode pedir paciência quando a necessidade nos grita silenciosamente… com mais pão.
Tendo aprendido que a paciência não é tanto uma virtude mas uma mágoa que contraria o espírito e o corpo, Elena continuou de porta a porta até que uma delas estava identificada com um nome – algo invulgar na sua cultura –, perante o rótulo colado na porta hesitou em bater nela por considerar que poderia ser uma empresa. Mas o destino, sempre indomável, obrigou-a a dizer truz-truz com os nós dos dedos.
Desculpe senhor, esta casa é uma empresa ou uma casa particular? Depende, respondeu Maslow. Pois… Disse ela acanhadamente. Pode ajudar-me com alguma comida, dinheiro, roupas…? Entre, entre, convidou Maslow.
Que encanto de rapariga, será que ela aceitará que lhe ofereça um banho…? Tenho a certeza que realçaria ainda mais a sua beleza. Maslow calou o convite e dirigiu-se à cozinha recolhendo alguns alimentos cozinhados no dia anterior para doar à miséria. Mas, o problema da coisa dar, é que esta pressupõe sempre uma troca – nem que seja um obrigado.
Maslow queria beijá-la apesar da ténue imundície de Elena. Ele surgiu da porta da cozinha sem utensílios à vista e verteu-lhe no saco os restos de comida de que já não necessitava. Obrigada, obrigada, agradeceu Elena.
A porta pela qual entrara era logo dois passos atrás dela, mas ambos ficaram a olhar-se como se o tempo tivesse parado – com um olhar comum, sobre o nada. Maslow, com os anos, deixou de pedir beijos, mas tal não significava que não necessitasse deles, apenas se esqueceu como se pediam.
Uma vez mais, agradeço muitíssimo a sua ajuda, disse Elena e virou-se para a porta. Olhe… não sabe que as portas não são saídas? Sei, sei, disse ela. Sei que servem para entrar e para sair. Oh, que inocência a sua… Ela não lhe prestou muita atenção e lançou a mão ao trinco, puxou-o à direita. E sem qualquer suspiro, Elena, desde o seu mais fino cabelo, transforma-se numa estátua de sal. Maslow, por sua vez, perante uma tão delicada e translúcida imagem, ajoelha-se diante da sua inofensiva imobilidade e com uma agitada excitação, começou a lambe-la enquanto lhe dizia, obrigado, obrigado.
28 de Nov de 2009
O Jantar do Blog
terminou mais um encontro do nosso blog. Mais um sucesso! Ao invés do anterior, desta vez participaram quatro membros femininos (aliás, todos), estanto os membros masculinos dignamente representados pelo Armindo.
Desda vez podemos afirmar que o jantar foi óptimo, incluindo o próprio repasto. Diversão também não faltou, sendo que três dos elementos (esta vossa humilde secretária incluida), foram para a farra até estas horas...
Esperamos com anseadade o jantar em que conseguiremos reunir todo o grupo.
Até à próxima!
Um Abraço
26 de Nov de 2009
Jantar do Blog (Update)
Rua Rodrigues Faria nº 21,
1300-501 Lisboa,
O restaurante fica em Alcântara, por trás da esquadra do Calvário. Para garantir que ninguém se perde, fica aqui este mapa com a localização exacta.
A todos os que estarão presentes, renovo os meus votos de um excelente jantar literário.
22 de Nov de 2009
Porta sem casa
Há muitos anos, quando a gente miúda crescia e tinha muita sorte, e alguma queda para os livros, ia para a cidade.
Eu era ainda catraio, e apesar de não ser assim muito dado às leituras, que havia coisas mais importantes para dar sumiço ao pouco dinheiro, tive muita sorte, sobretudo porque, ao contrário de muitos amigos meus da aldeia, tinha um tio velho, daqueles da cidade, que era ou tinha sido inspector da educação, um tio muito influente e muito bondoso que achava que uma criança, ainda mais sendo da família, devia estudar muito para ser grande, como muitos outros grandes que havia na parentela. E os meus pais, numa humilde obediência a que se juntava algum orgulho, mandaram-me para a cidade para aprender a ser grande e entendido.
É claro que fui. Durante alguns anos fui sempre, sozinho e de camioneta, para o novo mundo que aos poucos me foi sendo familiar e cada vez mais pequeno, quase como a minha aldeia, mas isso foi só mais tarde, quando dali fui para a capital, e agora para o caso pouco interessa. O que agora importa é que eu ia e vinha, diariamente, e regressado a casa, deixada a mala carregada com livros e tudo, e mudada a roupa limpa por outra de trabalho, comia qualquer coisa à pressa e ala para o campo ou para o monte, ou para o monte ou para o campo, dependia das estações e do que se buscava na terra, que o pessoal por lá andava, a maior parte do tempo o dia inteiro, e eu não era nenhum fidalgo, como me lembrava o meu avô.
Mas o que me tornava grande mesmo, depois que comecei a ir para a cidade, era eu chegar à aldeia lá para as duas e meia ou três da tarde, correr rua acima, empurrar a porta ou o portão do alpendre, galgar o pátio enxotando as galinhas, ir direitinho ao lugar onde se escondia a chave de casa e depois, como dono de uma mansão, abrir a porta de entrada e entrar. Aquilo era tudo meu, e eu tinha uma chave, e uma porta para abrir sem ninguém dentro que me estorvasse.
Esse alpendre ainda hoje existe, também o pátio e também uma casa, mas já não há galinhas à solta nem mãos que lhes dêem comida ou boca que as chame pelos nomes. Quando ainda lá vou, por ir, à casa da minha aldeia, sei de cor o lugar da chave, mas não há ninguém no seu interior que me queira estorvar a passagem, só porque agora, simplesmente, a porta deixou de ter a minha casa dentro.
21 de Nov de 2009
Portas, para que vos quero?
A fábrica tivera todas as condições para triunfar, e isso não fora fruto de um acaso fortuito. Pelo contrário, a área de negócio fora cuidadosamente escolhida com a intenção de assegurar o sucesso. O produto tinha procura, caramba, toda a gente precisava de portas, estava ali um mercado garantido. E mais do que garantido, era um mercado exclusivo, pois nenhuma outra empresa fabricava portas em toda aquela região. E no entanto, eis que se viam falidos. O sócio principal, que se comprazia em ostentar o título de Presidente da Companhia, jurou não descansar antes de descobrir o que causara a lamentável derrocada, e partiu em demanda dos enigmáticos factos.
Um primeiro vislumbre da verdade atingiu-o assim que entrou numa aldeia, e percorreu com um olhar lento e inquisitivo a fileira de casas sem porta que se perfilavam ao longo da rua principal. Não era que se desse o caso de não terem essas casas nenhuma entrada, pois que todas ostentavam a convencional abertura rectangular, emoldurada de ombreiras, mas que nenhuma porta fechava. Ao longo de toda a rua, simpáticas vivendas e modestas choupanas escancaravam o seu interior a quem quer que passasse.
O Presidente deteve-se na contemplação de um desses interiores, notando a mobília de razoável qualidade, a mesa posta para o almoço que se aproximava já, a televisão de bom tamanho, sintonizada num canal popular. Preparava-se para observar mais detidamente uma pintura que lhe captara a atenção, quando recuou com embaraçada alacridade ante o proprietário da casa em questão, que irrompendo de algum recanto interior lhe vinha dirigir a palavra.
Os fragmentários pedidos de circunstanciais desculpas foram atalhados pela bonomia do dono da casa, que sorridente de gosto, quase de ansiedade, lhe rogava satisfizesse sem peias a sua curiosidade, que entrasse mesmo, para melhor apreciar cada pormenor, e deles dizer de sua justiça. O Presidente velou o melhor que conseguiu uma agradecida recusa, mas tentou ainda assim vender-lhe uma porta, ou pelo menos a ideia de porta.
− Uma porta?, espantou-se o outro. Homessa, e para que quereria eu uma porta? Não é que me desse realmente muito trabalho ter uma porta, teria apenas de me lembrar de a fechar quando estivesse dentro e quando saísse, de a abrir quando quisesse passar, e de trazer comigo a chave, para não ficar na rua. Mas o que teria eu a ganhar com uma porta?
− O que teria a ganhar? Bem, suponho que ganharia privacidade, e também segurança. O tipo de coisas que as pessoas pretendem, sabe, quando compram uma porta. Veja a sua casa, por exemplo: está sentado à mesa a jantar, sente-se aborrecido e desabafa com a sua família; passa um desconhecido e vê o que o senhor janta, ouve a sua queixa, inteira-se da sua vida. Isso é coisa que lhe pareça bem?
− Honestamente não lhe sei dizer se me parece bem ou mal, acho que teria de esperar até que tal coisa realmente acontecesse, mas desconfio que ficaria à espera até às calendas gregas. O que de facto se passa aqui, a cada dia e todos os dias, é que ninguém liga às portas abertas, nem está realmente interessado em atravessá-las, ou sequer espreitar lá para dentro. As pessoas passam por casas abertas e olham em frente, encontram tudo à vista mas não querem saber. Suspeito mesmo que se alguém se desse ao trabalho de colocar o recheio da sua casa na via pública, toda a gente iria apenas passar como se a rua estivesse vazia. Ninguém se interessa, essa é que é a verdade, e não se precisam portas se não há quem as queira atravessar.
O Presidente agradeceu e partiu para fora desta história, sentindo-se um pouco mais sábio e bastante mais velho. A fábrica permaneceu encerrada, e a falência veio eventualmente a concretizar-se. Um curto parágrafo num jornal referiu ter a empresa encerrado as suas portas, o que não deixa de constituir uma imprecisão. A própria empresa havia já em tempos reconhecido a inutilidade das portas, tendo por decisão superior prescindido inteiramente das mesmas. A fábrica lá ficou escancarada, retendo no seu interior maquinaria e segredos tecnológicos e muitas outras coisas de inegável interesse, mas ninguém se deu ao trabalho de ir lá ver o que estava à vista de todos.
18 de Nov de 2009
SORRY, AMIGOS...
DURBAN POISON
A impotência de dizer
surpreende-nos na inquietação
do dia a dia,
e por isso não há tempo a perder.
Se os homens se rebolam frenéticos
na confusão das esquinas,
a vida acontece com certeza
longe das conversas de café,
e por isso não há tempo a perder.
Se as palavras se enrendam indefesas
na teia das circunstâncias,
o melhor mesmo é caminhar
no silêncio das dúvidas,
ao abrigo das certezas dos outros.
Por isso, não há tempo a perder.
E se sentimos que apontam a dedo
o berro do bêbado que a plenos pulmões
rasga a noite na vaidade de ser livre,
o melhor mesmo é gritar como ele
e nunca trocar o sonho
e o veneno
e a vida
por um pedaço de carne bem comportado.
Porque o tempo passa
e não há tempo a perder.
Força aí. A 27 não vou poder estar.
17 de Nov de 2009
Nunca mais te quero ver
E quando ela se fechou, um silêncio oco do tamanho de um caixão ecoou persistente como um diapasão vibrando em ondas subsónicas.
A mesma sensação residual entóptica de quando olhamos para o sol e em seguida fechamos os olhos, só que agora aplicada ao som ou à ausência dele. Ainda assim densa e intragável revoluteando, marcando uma presença incontornável, numa dor permanente.
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( - Nunca mais te quero ver)
Desenroscou o frasco que fez aparecer do fundo da mala e derramou sobre os seus próprios olhos.
Como num ritual acabado sentiu-se que tudo tinha sido dito.
Nem um ai, nem uma explicação, como um absurdo plenamente assumido apenas: nada mais.
Virou as costas e saíu.
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( - Espera )
- Não insistas, porque quando eu disser que não mais te quero ver, assim acontecerá.
- Não saias por essa porta, preciso de ti.
A chantagem emocional a crescer, daninha, na máxima força, como um vulcão prestes a rebentar.
- Nada mais temos a dizer um ao outo.
- Ainda não. Há muito por discutir. O que eu fiz pode ser reparado...
- Nunca mais te quero ver.
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( E agora uma mão no trinco da porta sublinhava uma iminente fuga)
- Uma vez que o dizes, reparo que só esta porta me separa deste momento sufocante e do nojo que é a tua presença.
- Tenho maneira de te explicar o que aconteceu.
- Nada há a explicar quando a evidência se derrama com tanta precisão.
- Espera...
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A porta contemplara tudo, como uma barreira de gelo, entre um presente calcinado e um futuro evaporado.
O que acontecera era por demais incompreensível, até para quem assistia.
- És horrendo...
- O que fiz não tem perdão, é certo...
E agora uma mão no trinco da porta sublinhava uma iminente fuga.
8 de Nov de 2009
Porta
trago à porta
abandonada
a personalidade.
Desobrigada, embora o adeus estivesse há muito exonerado,
desencaixilho, com a antecedência de uma parteira que nunca pariu,
o enferrujado ferrolho desse prodígio-instante.
Mergulho o rosto imóvel nessa fresta
e ao respirar no intervalo dessa inauguração, antes de envelhecer,
desenho um outro começo, sem metáforas ou topografias,
uma aurora no rasgão do sem tempo ou memória.
Comprazo-me no frio desse orifício,
demoro-me
alongo o calendário da despedida à medida cega em que embalo a hidropisia,
acrescento os meridianos da sentença prescrita,
e logo a seguir, nessa homilia incontaminada da viagem
sobreponho as feridas do nascimento sem remendos
e, ao corrigir os delírios da confusão mental num só golpe de dança,
lembra-me o corpo
com pressão e gravidade
que, à revelia, ganhou uma senha mensal
para essa mesma ombreira triunfal.
Digo-lhe, não sem alguma irascibilidade,
e sem rosto (que estava ocupado em ser livre, ainda que preso nesse férreo hiato)
que para expiar a identidade,
é mister abdicar do esqueleto, sepultar a carne e atirar fora a densidade.
Pensara (ainda de cabeça atravessada na travessia): agora sim principio o anonimato!
Insatisfeito com a recusa, esgrime o corpo um arremesso contra parte de si
sem acordes lúgubres
seguiu as vozes que de fora gritavam que para ser montanha intacta
importa mais jugular o ardil, o embuço nessa incólume passagem.
Testemunha objectiva de fora de mim,
afastara-me em anúncio vagaroso,
e, do lado direito do só-corpo-que-se-queria-eterizar,
mirava o metálico desejo daquele se anular.
Do lado esquerdo da só-cabeça-sem-corpo-que-corpo-não-te-avisto,
esboçara-se, ainda que com algum esforço, um tácito pacto de renúncia arredada
e aquela em vão se lançou para essa outra morada
onde presa ainda não se emancipara.
De frente, a personalidade desprotegida,
sem medo da queda ou da salvação,
esquivou-se, sem desculpas ou demoras,
por esse atalho espontâneo da perpétua perdição.
Decidi, desde então, receber por inteiro todo o corpo,
procrastinar a mente e abrir o embude dessa porta-coração.
25 de Out de 2009
Jantar do blog
Muito se tem falado acerca de um novo jantar do blog, e é já tempo de passar da fala à acção. O tempo urge, estando já à porta a estação festiva, que de uso não consente disponibilidade suficiente para estes extras. Assim sendo, proponho que se estabeleça já uma data. Gostaria de ter apresentado a proposta sob a forma de uma sondagem, mas as variáveis são muitas, e nem o fim de semana de 49 horas me consentiu tempo bastante para escrever o código necessário. Proponho assim que cada um se pronuncie, na caixa de comentários deste post, sobre as seguintes datas: 13 de Novembro, 20 de Novembro, 27 de Novembro, 4 de Dezembro. Todas as datas são sextas-feiras. Excluí o 6 de Novembro por me ser pessoalmente impossível, mas será obviamente difícil chegar a uma data que seja aceitável para todos. Se 6 de Novembro for a melhor data para os restantes, então, by all means, seja essa a escolha.
Clarificando, o que espero disto são comentários na seguinte forma: “não posso em A, estou disponível em B, C e D. Prefiro C, e entre B e D, é melhor B”. Julgo que estão a ver a ideia.
Fico a aguardar as vossas mais que prezadas respostas.
21 de Out de 2009
O penhasco
O homem, atordoado, abriu os olhos e, lentamente, levantou-se e caminhou na direcção do penedo.
19 de Out de 2009
0º 55’ 10’’N 29º20' 33''W
No meio da neblina (neblina rasando a água) náufrago, cinquenta anos de idade, pés em bolhas, demasiado tempo de imersão, sentir um golpe na coxa como um rasgão, a incerteza a deixar-nos em pânico. Cheguei a pensar em esqualos, esses bichos (selachimorpha) que aparecem em águas quentes quando e onde menos se espera. Nada disso, pelo menos na hora, encontro adiado.
Quando nos encontramos a boiar há pelo menos um dia e uma noite, a esperança por um fio, deverá parecer um sonho, ainda que sangrento sonho, encontrar zona rochosa onde encalhar.
O mistério do esbranquiçado nevoeiro a atrapalhar. Sentado em cima de uma rocha negra sangrando copiosamente da perna, algures no centro de nenhures no meio de névoas densas onde raio apareceu o penhasco? Do fundo do mar? Sim, como todas as ilhas. Primeiro uma agulha erguendo-se das profundezas ao longo de dois, três quilómetros, para o raio de um náufrago ali ir bater arrastado à deriva por uma corrente qualquer a partir do seu azarado afundanço fruto de uma inesperada tempestade tropical desencadeada dois dias antes.
O silêncio quebrado pelos ruídos são os das pequenas ondas num splash splash peganhento e constante, os gritos de algumas andorinhas-do-mar ou cagarras esforçando-se por lutar por um lugar no penhasco.
Lembro-me entretanto do conto “A toca” do escritor Franz Kafka que tão bem retrata os medos e o seu processo nascente embora a terra mole escavada pelo animal não dê para analogia com este mar assente em águas mornas.
E que poderei contar em cima de um penhasco?
Contar que me encontrem.
Contar os dias.
Contar o guano dos pássaros por metro quadrado? Difícil. Nem à pazada, mas isso seria um contar que cheira mal.
Posso contar com uma insolação quando o nevoeiro passar, com frio durante uma noite chuvosa e com impaciência durante o princípio do longo tempo que prevejo aqui ficar.
Um penhasco, apesar de terra firme, não deixa de ser uma prisão desconfortável com água a toda a volta e, como devem imaginar, não se vê passar os comboios nem ao longe.
Não será Alcatraz, mas a pena prevê-se mais dura. A expectativa resume-se: apanhaste perpétua, se fazes favor sobrevive, aguenta até ao fim.
Encontrar a zona de sombra do penhasco, subir para recolher a água da chuva, lutar com as aves nidificantes, roubar-lhes os ovos, espreitar pelo meio do nevoeiro tentando vislumbrar horizontes, procurar um Sexta-feira qualquer sabendo que não virá e mesmo inventá-lo na sua definitiva ausência para enganar o tempo. Envolver os peixes para ter algum- parco- alimento. Nadar para manter a forma. Imaginar o testamento que gostaria de ter deixado escrito. Esperar. Não desesperar.
5 de Out de 2009
Parado em queda livre.
Dá jeito por vezes falar de penhascos, ou até escrever qualquer coisa sobre eles, mas isso não os faz existir. Nenhum penhasco existe, como não existe o frio ou a escuridão. O frio é só a ausência de calor, a escuridão não passa da ausência de luz, e um penhasco é apenas a ausência de algo a que nos possamos agarrar, de um solo onde possamos assentar a nossa própria existência. Podemos verificar se a quantidade de calor é excessiva ou insuficiente, discutir se a luz é escassa ou se é demais, e constatar se estamos bem seguros ou em desequilíbrio. Mas o vazio não se contabiliza, e sobre o vácuo nada há a dizer.
O homem chegou ao fim da estrada e caiu no penhasco. Melhor dizendo, caiu nessa não existência onde nada havia, fosse luz ou calor ou um mundo que o pudesse segurar. A queda foi longa e vazia, e também ele foi deixando de existir.
Não soube se chegou a tocar o fundo, nem sequer se haveria esse fundo, ou em que estado ele próprio lá chegaria. O grande nada que é o penhasco continuou a existir, vazio como sempre. O nada não ocupa espaço, e ele também já não.
30 de Set de 2009
Uma poética, quase
Diz um dicionário, um qualquer tirado à sorte, que o rigor para o caso pouco importa, tratar-se de um grande rochedo escarpado.
E que tem sinónimos como fraga, penedo, penha, rocha e, como atrás se disse, rochedo.
E que, para quem tenha falta de mestria, este vocábulo pode rimar pelo menos com carrasco, chavasco, chiasco, churrasco, damasco, filharasco, frasco, gimnoasco, pardavasco, pinasco, ravasco, rebiasco, tabasco, vasco e verbasco.
E mais, que tem por anagrama penachos.
O que a gente aprende com o cheiro a terra e a aridez da pedra! O que a gente deslinda com o magnetismo da palavra!
Penhasco.
Do penhasco da infância já pouco subsiste. Vergam-se agora as asas e o horizonte se tolhe, do penhasco aquém.
Além, porém, como no haikai de Anibal Beça, anuncia-se a luz, como quem renasce:
“Brilha mais ereto
o penhasco sob o sol:
ah o verão fértil.”
27 de Set de 2009
Fuga em do maior
23 de Set de 2009
Fuga fugaz
Preferiu esta última, incerta, imprecisa, e por isso ilimitada e para ele mais mansa e livre, como devem ser todas as fugas.
Um destes dias, de pena em punho, decidido como quem entra na liça, arriscou uma aventura, e escreveu de olhos cerrados:
Fica comigo, deixa que as palavras te seduzam, e encostados um ao outro admiremos o rio, de mãos desenlaçadas, como na ode do poeta. E descansados de estarmos, que o tempo nos invada e nos enleve. Em breve, verás, seremos longe, como quem se abandona sem querer ou sem saber que o quer. Partamos!
Depois, triste e desenganado, dobrou em quatro o branco que lhe sobrou da vigília, e adormeceu.
14 de Set de 2009
Fuga para a Felicidade
Estava tudo escuro, sentia-me completamente aprisionada, sufocada. A maior das prisões: quando não temos liberdade de olhar, de falar, sequer de pensar. Um dia percebi que poderia ser diferente. Podia fugir, ser livre. Bastava querer.
Enchi-me de coragem, rebentei com as correntes e parti os agrilhões. Corri para a liberdade.
Jurei que não me apanhavam noutra. Dali para o futuro seria totalmente livre, não queria quaisquer amarras. Não é possível ser totalmente livre ao lado de outra pessoa. Mal nos descuidamos, lá vêm as pequenas mentiras para não magoar, não ferir a susceptibilidade de quem está ao nosso lado. Às tantas, as mentiras vão sendo cada vez maiores, só para manter a imagem que a outra pessoa criou. Mas já não somos nós; somos a personagem que mantivemos à custa de pequenas grandes mentiras.
- Quem era ao telefone?
- Era a Ana.
- Mas essa não era aquela que se andava a fazer a ti?! Porque é que lhe atendeste o telefone? Anda outra vez a dar em cima! E tu dás trela.
- Ela só queria saber se lhe posso emprestar um livro, que sabe que eu tenho, para a pesquisa dela para a tese de mestrado.
- Qual livro? Não interessa, era uma desculpa e tu não vês (ou não queres ver). A faculdade não tem biblioteca? É só para falar contigo.
Noutra ocasião:
- Quem era ao telefone?
- Era telemarketing.
Não, não queria isso para mim. Estava certa que nunca poderia ser completamente sincera com alguém com quem partilhasse uma vida, por isso era preferível não partilhar. Ia simplesmente gozar a minha liberdade.
Parti para a vida com a firme determinação de simplesmente a gozar, sem que nada atrapalhasse.
Encontrei uma companheira de fuga. Também ela saída de uma outra caverna. Demos as mãos e decidimos prosseguir lado a lado, dando pistas uma à outra de qual a melhor maneira de gozar a vida em liberdade.
- Está sempre bem contigo própria e irradia essa confiança (elas adoram isso).
De pista em pista, fomos descobrindo que não aguentávamos as mesmas correntes, que tínhamos os mesmos defeitos, que queríamos a mesma liberdade.
Lado a lado, percebemos que ansiávamos o mesmo beijo, a mesma união de corpos, uma comunhão de almas antigas.
Demos novamente as mãos, abraçámos os corações e partimos numa fuga para a felicidade.
13 de Set de 2009
Medo, eu?!
A hora de me associar à equipa, tardava.
O convite fora-me feito havia muito, insistido, até, pelo Armindo S., amigo e sabedor que é do meu aprazimento por estas coisas da escrita.
O problema é que a minha inclinação – que em questão de palavras também há inclinações (para além das vocações, das inspirações, das declinações e de outras terminações) – é mais para os versos e para os desvarios cronísticos, nada de grande prosa, como os contos (por pequenos que sejam), as novelas ou os romances. Por isso, confesso, o adiamento em dar o passo inaugural.
Confesso também que, recebido o convite, não entendi como aderir, isto é, não ousei vingar a minha ignorância na destreza das novas tecnologias, que isto de entrar num blogue sem ser para o comentar não está assim ao alcance de qualquer um.
Confesso, ainda, que o medo por tudo isto era desmesuradamente maior. Não apenas fazer alguma imbecilidade e encravar o sistema logo à primeira, com as gravosas consequências para o meu indispensável portátil, como ficar preso nas duas ou três linhas iniciais e dali não sair.
Arrastei, portanto, o dito passo, até que, apanhado em casa do meu convidador, fui por ele quase-à-força industriado nesta arte transitiva de postar. Estava cumprido o primitivo feito.
Agora, pois então, havia que partir para o tema da semana, ou para qualquer outro que as regulares sugestões da semana sempre impelem para as boxes.
Hoje, transbordante de coragem, lancei-me ao Medo, só para que o meu amigo Armindo S. não pense que me deixo vencer facilmente. E a prova aqui está, como se lê, neste (des)temido texto, com o devido (des)conto!
12 de Set de 2009
Agora… à noite…
A mãe, sentada na espera do dever, pendia entre pedaços de costura ao colo, enquanto a cinza crescia no lugar das brasas. E eu, numa insegura teimosia, continuava a ler, devorando páginas feitas de estórias inventadas à luz do candeeiro a petróleo. Um quadro que ainda hoje preservo na memória com a nitidez da luz que invade as casas e lança as sombras para trás das portas… um quadro ao qual gostaria de dar forma se tivesse guardado as cores com que decoraste o quintal onde tanto brinquei, enquanto trabalhavas para sustentar a família. Um quadro ao qual acrescentaria fantasias de lareira feitas de sapatinhos e, por cima, os presentes de Natal e a áurea prometida, até que o simples gesto de desembrulhar o tão desejado momento haveria de fazer cair por terra o sonho de uma longa maturação de secretos bichos-de-seda, num carrinho rosa com o bebé chorão que me estava destinado, de cor negra, que tanto me intrigou e me deixou a pensar. Talvez tenha sido esse o meu primeiro dia no mundo dos crescidos.
Lá fora, o rumor intermitente do vento suspendia de interrogação e medo o meu coração que insistia em continuar a ler, na aventura das histórias por contar. Em certos momentos sentia-me transir quase em pânico, mas esperava por ti à lareira e, no dia seguinte, o meu corpo renascia e o sol entrava pela soleira de todas as casas e inundava as frestas mais escusas.
- Pai, foste-te embora tão docemente, tão sem aviso, sem que me pudesse despedir de ti! As silvas apoderaram-se do quintal e já trepam pelo telhado. As árvores ainda resistem, algumas carregadas de fruto e, no fundo da velha arca, recordo um quinhão de nozes que mandaste guardar também para mim.
Agora, à noite, a escuridão estilhaçou as vidraças e empenou o caixilho das janelas, que já tombam de par em par. Uma ave negra entrou pela casa adentro e, com ar de habitante das trevas infernais, pousou nos meus umbrais. Tem os olhos fitos para dentro, com um ar de quem sussurra um sonho de Natal... e, quando lhe faço sinal para se ir, não se cansa de repetir “Nunca mais!”.
1 de Set de 2009
Fugir, ou não fugir?
Muito foi já dito e escrito sobre fugas. Há volumes de teorias em volta do tema – a chamada literatura de escape –, onde são escalpelizados até ao mais miúdo detalhe os meios e instrumentos, os estratagemas e truques, o momento mais propício e o mais favorável estado do tempo. Sem embargo de tão momentosos pormenores, um requisito há que avulta no topo da lista, talvez a única condição de facto imprescindível: para uma fuga bem sucedida, é necessário começar por estar preso.
Será um truísmo afirmar que ninguém foge de onde não está, mas não é de modo algum uma irrelevância. O convicto agrilhoado reconhece a inconveniência do seu estado, e a desirabilidade de o alterar para melhor. Numa palavra, fugir. Pois bem, tem o aprisionado cidadão ao seu dispor os convencionais meios para atingir esse objectivo: seja por via da colher escavadora ou do cesto destinado à lavandaria, acabará por se ver do lado de fora.
Tomemos agora, verbi gratia, o guarda que tem a seu cargo o convicto. Também ele está mal onde está, também ele reconhece o desejo e conveniência de mudar, mas ele está do lado de fora. Entra amiúde na prisão, é verdade, mas entra e sai quando quer. Os condenados pertencem à prisão, ele apenas a frequenta, e é por isso que não pode fugir, já foi dito que ninguém foge de onde não está. Os prisioneiros têm ainda outra possibilidade que a ele está vedada, que é a opção de não fugir.
Vi isso numa prisão, mole granítica erigida sobre um monte que eu contemplava de baixo, da liberdade da mesa de esplanada onde me esquecia em libações sem fito. Vi os prisioneiros e não me lembrei que estavam presos, ocorreu-me apenas que estavam lá dentro. Eu podia entrar e sair, eles pertenciam-se. E, ao contrário de mim, podiam fugir.
Desistir de tudo leva-nos a não pertencer a nada, e a rejeitar todas as prisões. Depois disso, não há fuga possível.
Tal como alguns funerais dispensam flores, também o presente texto dispensa comentários. Isto não quer de modo algum dizer que eu não aprecie comentários, ou não os deseje. Simplesmente, não me parece que seja um texto comentável, ou que alguém pudesse desejar comentar.
27 de Ago de 2009
Opus 25
Dentro de uma caixa, o desejo de sair quando o mais difícil foi entrar.
Poder sair e não querer ou a sensação de estar preso.
Sentado num sofá, umas mãos postiças agarrando as barras de ferro de uma janela encaixada numa parede de contraplacado rebocado a estuque envelhecido numa patine de inscrições de prisioneiros desgastados. Ilusão perfeita - para quadro surrealista, falta o céu verde. Um alçapão no fundo do palco.
Fuga de Bach em ré maior e, nas costas, uma praia a perder de vista e um sol cansado.
Toneladas de areia como um deserto infindo.
Fugir de quê? De um mêdo? De uma limitação imposta?
O cárcere como libertação ou a prisão em espaço amplo escandalosamente aberto.
Uma fuga para a frente, um preenchimento sempre, sempre descontente.
Um passo seguindo outro e outro rodeando uma coluna. Um passo seguindo outro deixando para trás um desconforto. Poderia ter começado assim:
.................................................................................................................................
Um dia, ele veio ter comigo e contou-me que tinha um túnel quase acabado.
O buraco foi feito e o ludíbrio dos guardas, perfeito.
Na noite da fuga, á saída, no meio de um canavial, confessou-me:
- Com um pouco de sorte chegaremos ao mar ou à estrada. E aí logo se verá.
Encontrando-me do lado de fora dos muros olhando para este quarto crescente, juro-te que não voltarei atrás.
- Ainda bem que assim falas, pois é agora nesta encruzilhada que terei de contar-te um segredo:
“Os cães, os helicópteros, todos os GPS do mundo se unirão para nos barrar a escapada. É uma luta da tua inteligência contra a dos outros. Os meios dão-lhes vantagem e até o tempo, se, inicialmente, por surpresa, joga a nosso favor, rapidamente como grande meretriz travestida se coloca do lado deles e se, só por um grande acaso de sorte acumulada, com a dose certa de desânimo, desgosto e desmotivação do lado perseguidor, essa grande puta voltar para o nosso lado, aí a vantagem chegará encorpada e crescida a clépsidra revelar-se-á aumentada a distância entre ti e o teu desconforto. Ouve bem, portanto, o que te vou dizer:
O meu bisavô ao erguer a sua casa em Cinfães, no início do século passado, guardou um tesouro no interior da estrutura. O seu único filho nunca quis derrubar as paredes do solar que tinha herdado. Por sua vez, o meu pai ouviu este mesmo segredo à hora da morte do meu avô e tratou de o passar, muito antes de se finar, a mim e ao meu irmão que foi morto, por uma mina anti-carro, na guerra do ultramar. Por respeito a seu pai e seu avô fez de igual maneira e o solar continuou preservado.
Eu nunca precisei até agora e os deuses proveram-me com talento suficiente para passar sem ter que levantar uma pedra.
Por isso, e por paga da confiança que mereci nesta fuga que partilhaste sem querer nada em troca, vou descrever-te qual a rua, número da porta e qual o muro a derrubar.
Separamo-nos aqui, mas aquele de nós que tiver a sorte de chegar a Cinfães deverá usar o passaporte para a liberdade. Meio passaporte em ouro chegará para dar duas voltas à Terra e se eu chegar primeiro encontrarás a tua parte neste local...
E eu poderia ter ouvido o resto da conversa passada no meio de um canavial à beira do rio, onde tinha ido pescar nessa noite, à luz de uma lua pouco crescida, não fora o ladrar dos cães ao longe.
Medo de escrever
“Para mim deixou de haver homens e mulheres
há simplesmente pessoas.”
Sonhei que me tinha tornado homossexual.
- E isso pega-se? Fica já aí e não te movas.
- Não brinques.
- Conta lá essa experiência terrífica.
- Não a senti como uma experiência terrífica, só como um sonho estranho.
- Conta lá esse pesadelo esquisito.
- Reconheço agora que como toda a virgindade é um processo de passagem.
- Tal como a morte.
- Sim. Tal como a morte.
- Ao menos deu para assustar? E diz lá eras, sempre foste ou passaste a ser?
- Isso pouco importaria, não fora a sensação...
- Que sensação era essa?
- Tudo começou com o telefonema do meu melhor amigo. Alguém que sempre me foi próximo cuja empatia nunca experimentou qualquer desavença, nem desentendimento, nem falta de confiança.
- O sentimento inicial foi de espanto?
- Como quando uma mulher vai parir a primeira vez.
- Como quando se cega sem ser à nascença
- Medo de perder a vida, essa verdadeira porta do desconhecido.
- Medo do lobo mau, sem dúvida.
- Medo de ser naufrago longe da costa.
- Medo de um túnel a estreitar cada vez mais
- Espeleologia sem lanterna.
- Mergulho nocturno em floresta de algas.
- Tenho medo de não conseguir.
- Tenho medo do desconhecido.
- Medo de répteis e eles de mim certamente.
- Tenho medo do escuro
- Medo de ser assaltado
- Medo de alturas
- Gelo fino.
- Selva.
- Medo de ser soterrado
- Sede extrema
- Medo de dobrar uma esquina . A esquina do centro de um grande labirinto.
- Medo de atravessar feno alto na savana
- Medo de atravessar um rio.
- De colocar os pés num pântano.
- Escolha o seu medo não pagará mais por isso.
- Medo de me perder.
- Medo de não dizer a verdade.
- Medo de te perder.
- Medo de me confessar.
- Medo de não poder.
- Tenho medo de ficar doente.
- E medo de envelhecer...
- Medo de transformar um conto noutra coisa sem nome.
17 de Ago de 2009
O Medo do Esquecimento
Restava apenas eu, no cimo da duna, contempla-la. Lembrava outras horas passadas naquela praia e nas redondezas. Haviam sido umas férias maravilhosas, que estavam guardadas de forma indelével na sua memória. Seria assim? Seriam as memórias inesquecíveis? Ainda que se tratem de momentos muito marcantes, não se correrá o risco de essas imagens nos fugirem?
Sim, esse é um dos meus grandes medos. O medo de me esquecer dos momentos mais preciosos que vivi. São os meus pequenos tesouros, aquilo que tenho de mais único na vida.
Por essa razão revejo, revivo intensamente os momentos que vivi e que não quero, de forma alguma, olvidar.
Alguns vêem-no como uma forma de saudosismo; não é. Não pretendo voltar a viver o que vivi, nunca teria a mesma magia. Só não quero perder o que vivi.
Vejo a minha vida como uma colecção de cromos que vou juntando meticulosamente. Cada local, cada momento, cada pessoa, cada emoção especial, constitui um cromo que vou colando na minha caderneta.
Se, por qualquer razão a perder, perco o meu tesouro, a construção da minha identidade - que pânico!
O sol já mergulhou completamente naquele oceano. Levanto-me feliz por ter revivido aqueles momentos, lutando para que se tornem inesquecíveis para mim...
5 de Ago de 2009
Medo de A. (a Z)
«tudo se despedaçou.
O sonho, e o amor que é sempre tão breve.
O mundo dorme sob o vento. Só eu continuo acordado, em vigília.
Se houvesse agora uma catástrofe eu daria por ela.
Levantar-me-ia daqui para encarar a morte,
dizer-lhe que são inutilidades o que arrasta consigo.
Estou gasto. Dei-me sempre mais do que podia
(…) sou um alfabeto e não se se terei tempo para me decifrar.»
Al Berto, O Medo.
Temos que, em primeiro lugar, habituar o olhar. Talvez o melhor seja fechá-lo. Lentamente. Parece que vemos melhor assim, quando olhamos para dentro, sem esforço ou pulcritude, sem o turvar. Vês melhor, também? Olha, de seguida, para o gesto que a pele desenha e a carne devora. Consegues ver? Vá lá, não me digas que tens medo…vá, insta! Desce agora o olhar, degrau a degrau, o que vês por cima? Escuridão? Não! Cai mais um pouco. E agora? Consegues ver melhor o despontar de cada veia, como se se tratasse de uma disposição ou vocação do espírito, inscritas de modo desinteressado na pele? Diz-me se não tens vontade de gizar um mapa, encontrar os pontos cardeais, traçar o norte e adivinhar a aurora de um novo ascendente? Ou então desenhar uma cartografia remota que alvitre todos os passos, não os teus, mas os passos singulares de toda a Humanidade? Ou ainda se não te assoma um desejo de criação, como se ao morderes com arrojo a veia, explodisse, sem pretensões de eixos, um mundo inverso deste, feito da mistura desse crime de sangue e saliva? Já está.
Dá um salto, então. Como é que se salta de olhos fechados, perguntas?!- que parvoíce! como se se tivesse a parir, claro! Com consciência de todas as dores e contracções, como se tudo estivesse despedaçado e o mundo, lá fora, dormisse inane. É o único salto que conheço…Vá lá, não me digas que tens medo? Já está? Agora que conheces o ritmo quente e acelerado da pele, podes percorrer o novo corpo que te habita. Descoincidente. Com um volume e massa distintos certo, embora convirjam em absoluto. Começa. Mergulha. Sem medo. Mais rápido. Mas silenciosamente para que as muitas vidas que aí medram não ancorem a alma. Sim, sei-o. Desce por esse trampolim. Por onde?
Do lado direito desse músculo-motor. Sim, é necessário. Trata-se de encontrar a direcção certa, mesmo com desalinhos. Enfrentá-la como se se contemplasse, de frente, sem pestanejar, a morte e lhe disséssemos que nada disto importa, que são inutilidades o que a alicia. Entendes? Sem medo. Retira a mente ao corpo. Não mintas. Abandona essa península inconsolável. Despovoa-te da miríade de pensamentos que te habitam e principia a jornada. Precipita-te sobre ti próprio. Sofres de vertigens? Perfeito. Mas não te percas na periferia dos sentidos, nada antecipes. Desagua na paisagem árida do esqueleto. Não vês que todos os nossos ossos guardam uma estreita respiração, talvez o último fôlego desse corpo intangível ou resquícios de uma dívida de voo incumprido? Todos abrigam uma paisagem em ruínas que cinzela o rosto com rugas e catedrais, filhos pródigos de um continente que atámos à velocidade devoradora do tempo. Sim, aquiesço. Não há tempo para decifrações, o olhar habitua-se à gravidade etérea dos ossos e não sabemos quantos anos passaram desde o seu cerrar. Tudo é sempre tão breve.
Terminámos. No momento preciso da (o)pressão, ao sentires esse talhe metalino a bulir monotonamente a matéria, alaga os pulmões com todo o ar, como se te tivesses dado ao mundo por inteiro e estivesses gasto. Abraça a forma metálica e fria que espelha a tua ossatura, sustém a respiração por minutos, como se guardasses num baú todos os livros que leste e os quisesses incendiar para que ninguém os violasse, entendes? Respira apenas depois do STOP. Já está. Abre os olhos. Vou acender a luz. Daqui a uma semana podes vir levantar a assombrografia.
2 de Ago de 2009
Estilhaços de VERtigo
VERtigo.
De todas as ruas, aquela era tanto mais velada, quanto cobiçada. O fascínio que a invadia era tanto que o pulsar de cada pegada ou vestígio, olhar ou vislumbre, provocava na restante cidade um estremecimento vestibular, prestidigitador, como se aí se re-velasse a desértica clareira do Ser, como se, de modo imperceptível, fossemos engolidos pelas mandíbulas ferozes de um qualquer predador.
Fruto dessa fome, a rua permanecia, porém, imaculada, pura e ímpar na sua elevada solidão. Magnetizava, por um lado, as atenções dos itinerantes e, por outro, expelia, num movimento de gato a regurgitar bolas de pêlo, os inglórios transeuntes que a tentavam dominar. Até à data, não houvera ninguém que resistisse aos seus labirínticos encantos, nem que escapasse ao seu genuíno sortilégio.
A sua enigmática robustez conduziu a alguns ditos, estes tornaram-se contos que, amiúde, se converteram em mitos. Entre estes conta-se que numa incauta noite, uma mag(n)a mulher lhe houvera, devotamente, consagrado o leite, que escorria vigorosamente do seu desnudo peito, destinado ao amamento do seu único filho. Desfecho dessa entrega total, transformara-se a mulher num caudal espesso e virginal, porção da rua onde todas as aparições, nascenças, origens e inícios aconteciam. Outras vezes, rememora-se a oferenda de uma lágrima, única, vertida por um homem que, ao conceder-lhe a sua musicalidade, renunciou o fragmento mais cristalino da sua temporal intimidade: a eternidade.
VERtigo não fora ainda habitada, contrariando as copiosas visitas que geograficamente a ampliavam. Perguntavam, não poucas vezes incrédulos, como seria possível uma rua animar-se: oscilar sempre que a perscrutavam; tamborilar, embora não ao som de qualquer ritmo ou andar, os gestos que a exaltavam; pulular entre os olores a sândalo e cânfora que, particularmente, a apraziam e até espirrar, já que sofria de hipersensibilidade ao pólen, acarinos e, sobretudo, a sentidos de posse e jugo. Uma das muitas peculiaridades que a perfilava, talvez para combater essa inusitada alergia, era o despretencioso facto de não haver nenhuma esquina que não fosse janela, precedida fisicamente de uma tontura.
Durante o dia, o excesso de movimentação despertava-lhe uma legítima indolência, sobretudo, nos parapeitos do lado esquerdo da alma que, abscôndita e lânguida, espreitava o horizonte com impassibilidade, já que as persianas permaneciam inacessíveis à luz do dia. Esse torpor diurno revestia-lhe as fímbrias, como se se tratasse de um mecanismo de defesa contra todos aqueles olhares insuspeitos e indiligentes que a confundiam com apenas mais um jornadeio turístico, embora apenas de rua se tratasse a sua visível aparência. Porém, pela noite, galgava os céus de andaime em andaime, encarrapitava-se no canto superior direito da estrela do Norte, abria de par em par os olhos atelhados, arranhava, com os seus braços alcatroados, as raízes mais fundas das milenares árvores, farejava, de nariz em fumeiro alteado, todos os presságios e conjecturas e, quase doutrinalmente, (pois era de certo modo empertigada e senhora do seu nariz), giranboleava toda a cidade de coração vidrado, entendam-se desafogadas janelas!
Deste ritual profético, praticado desde os seus tretaruavós, em busca de um estilhaço hereditário que há muito se houvera sumido, emergiu a sua redenção: encontrara, furtivo, junto ao caudal em forma de lágrima que a cingia, um fragmento de mulher, melhor dito, o seu umbigo! A demanda ancestral dessa artéria da cidade havia cessado por fim e com ela todos os despenhamentos e precipícios auto-infligidos se haviam dissipado.
Afinal, qual seria a pretensão dessa estranha união: a de um umbigo a querer ser rua, a da rua a querer ser mulher ou a de uma mulher cujo umbigo era a rua? De entre todos estes estilhaços não são os que vertiginosamente compomos que contam, mas os que vertiginosamente Somos!
1 de Ago de 2009
Sem Medo
Lembro-me como se fosse ontem: a Grande Depressão Americana estava no seu auge, e Franklin Delano Roosevelt gritava ao país, The only thing we have to fear is fear itself. Isto veio naturalmente a deixar uma marca indelével no meu nascimento, trinta anos depois. E através das décadas de amarguras e desapontamentos, coisa a que usualmente se chama estar vivo, sempre acreditei que o FDR tinha bastante razão. Até recentemente.
O medo é uma parte essencial da nossa vida, tal como a ambição, o desejo e o sexo, ou o prazer de regar com imperiais umas amêijoas à Bulhão Pato, sendo esta última menos valorizada numa perspectiva ontológica. Seres humanos que somos, almejamos determinados objectivos, coisa que acaba por ser indistinguível do medo de os não alcançar.
Eu perdi recentemente o medo, e sinto-lhe a falta. Recordo com saudade tempos idos, quando eu queria isto ou aquilo, e me assaltava o medo de ficar aquém, de não ir tão longe quando queria e podia. Agora mudei, e já não quero. Tant mieux, suspeito bem, antes isso que me arriscar a descobrir que também não posso. Em última análise, talvez o FDR estivesse errado.
It just may be that the only thing we have to fear is the lack of fear, and nothing else. Specially, lest we discover there is nothing beyond that, no room for fear or hope.
27 de Jul de 2009
No vazio nada se teme
Um polícia que andava a multar carros na zona contemplou-me e pediu-me os documentos. Informei-o que não os tinha comigo, que o carro era do meu marido, mas que mais tarde, depois dos meus afazeres os apresentaria na esquadra mais próxima. Mas eis que, quando eu ia a entrar para o meu carro, o polícia com ar de louco meteu-se à frente a gritar, que eu só abandonaria o local por cima do seu cadáver.
Fiquei espantadíssima com a sua reacção, mas encontrei firmeza de espírito e disse-lhe que me ia embora, ele que desse seguimento aos trâmites que um processo destes requer. Tentei entrar no carro, mas ele meteu-se à frente da porta vedando-me a entrada. A situação estava a ficar cada vez mais estranha e incoerente. A minha filha começou a chorar e pedi ao estranho homem – que por coincidência se parecia com o meu marido – que ma deixasse levar para casa. Mas o homem sempre aos berros negou-me essa espécie de favor como de algo absurdo se tratasse.
Passados uns cinco minutos, tentei, estranhamente, entrar pela porta de trás do carro, e mais uma vez ele impediu-me a entrada. Tive esperança de poder enganar um louco, subestimando-o. Nesse momento comecei eu a chorar de raiva. Empurrei-o, forçando a entrada do carro e sentei-me ao lado da minha filha, e, numa última tentativa, de o chamar à razão, pedi-lhe que contactasse imediatamente uma patrulha da esquadra.
A sua atitude alterou-se totalmente, ficou mais calmo e num tom informativo disse-me que estava somente a cumprir a lei, pegou no aparelho de comunicação e cheio de orgulho, chamou os agentes da brigada de trânsito ao local.
Enquanto os seus colegas não chegaram, o louco, insistia na apresentação dos documentos, nem que fosse verbalmente – mas eu não entendia o que significava “verbalmente”, mas também não lhe pedi explicações e por fim, adoptei por uma posição silenciosa e fiquei dentro do carro uma eternidade à espera que a brigada chegasse. Entretanto a minha filha não parava de chorar ao mesmo tempo que me dava a conhecer o seu maior receio: que nos prendessem. Tentei acalmá-la com beijos lacrimosos. E quebrando o silêncio com o polícia, pedi-lhe uma vez mais, permissão de a levar a casa para que ela não assistisse à chegada dos outros agentes. Os meus soluços não me deram firmeza à voz, mas eu pouco me importei com esse pormenor e disse-lhe que tanto eu, como a criança, estávamos cheias de medo, já que ele não me subtraía a esse desconforto, que ao menos a poupasse a ela. Ele não se comoveu e acabei por insultá-lo dizendo-lhe que não era bom da cabeça. O doido, na sua inflexibilidade continuava a afirmar que eu não saia dali, ao ponto de se pôr à frente do carro de pernas e braços abertos, desvairado, que tanto causava dó, como um medo sem definição.
*
Na ala Este do Hospital Sonhos Felizes, o meu relatório onírico foi entregue ao terapeuta no serviço de urgência. Por minha parte, gostaria de ter tido a possibilidade de acrescentar mais alguns pormenores, mas o doutor foi peremptório ao informar-me que este não era o departamento indicado para interpretar sonhos. Ao médico não lhe interessava a simbologia onírica mas a sua correcção e portanto, o que tinha lido no relatório bastava-lhe para concluir um diagnóstico e prescrever um tratamento. E nestas condições, se eu ainda estivesse interessada, em poucos minutos daria início à sua tarefa terapêutica.
Deitaram-me e adormeci sem qualquer dificuldade, como se tivesse entrado num jardim de ócio e me tivessem furtado as vontades mais elementares. E daí em diante revejo-me no mesmo sofrimento: o polícia a anotar as matrículas no seu bloco. Neste segundo sonho queria ir-me embora antes da aproximação do louco. Mas o acto de abandonar os sonhos é acordar e creio que o terapeuta pressentiu a minha intenção de despertar e para meu bem, não o permitiu. A minha preocupação fundamental era a minha filha, mas ela já não estava no banco traseiro, havia, isso sim, muito material fotográfico e fotografias dela reveladas.
Agora, o polícia que antes estava louco já não tinha a mesma figura desvairada nem se parecia com o meu marido. Aparentava uma modesta presença perante um outro condutor que discutia com ele por causa de uma multa injusta.
Meia dúzia de metros separavam-me do polícia, os meus poros alargaram-se para esvaírem gemidos através da pele e não da garganta, o débil estímulo da minha mão precipitou-se para o manípulo da porta do carro com a intenção de a abrir e pôr-me em fuga.
Mesmo a dormir, deduzi que o médico me injectava substâncias cujo efeito actuavam para me retirarem a força física e mental. Sentia-me cada vez mais lânguida. E que tal se me baixasse para que o polícia não me visse? Mas não havia espaço para me esconder, o terapeuta conhecia demasiado bem a sua profissão e impediu que me escondesse, colocando quantidades absurdas de rolos fotográficos espalhados por todo o automóvel.
Eu não estava nada satisfeita com o rumo que este sonho estava a adquirir. Se no primeiro experimentei sentimentos medonhos, no segundo, sofri o mestre de todos eles: a angústia. Que me desorientava e paralisava. Nem a vontade frustrada de chorar desaparecia. Que terapia seria esta que não tinha nada de tranquilo? Comecei a ter sérias dificuldades em acreditar que a denominação do hospital – Sonhos Felizes – fosse de facto uma realidade.
Optei por me manter calada quando o polícia, que agora já não evidenciava sinais de loucura, me cumprimentou e solicitou gentilmente que o fotografasse. Disse-me que precisava de tratar de uns documentos e que me tinham recomendado uma boa fotógrafa. Perguntou-me ainda, se o achava apresentável e bem penteado. Eu começava a pensar que o polícia estaria agora mais louco que no primeiro sonho e receei que a qualquer momento ele endoidecesse definitivamente. Olhei-o e concordei fotografá-lo. Mas, surpreendentemente, quando voltei a retirar a objectiva do meu olho transpirado, o polícia tinha mudado de fisionomia.
O homem diferente era um outro polícia que se apresentou como chefe da brigada de trânsito. Nem me atrevi a colocar qualquer questão ao novo homem que surgiu por encanto, e, silenciosamente, questionei-me se eu ainda fazia parte desta bizarrice.
O chefe, no início tinha um aspecto indignado e perguntava – onde está o meu homem, onde está o meu homem? Neste momento percebi que eu não falava, não por medo, mas porque o doutor me havia retirado essa faculdade. E na falta de voz, apontei para a máquina fotográfica para que o chefe adivinhasse o que lhe queria transmitir. Mas ele não entendeu. Pediu desculpas umas atrás de outras, repetindo a dobrar cada frase – olhe que nem todos os polícias são iguais, olhe que nem todos os polícias são iguais – e mais duas vezes – pode, se quiser apresentar queixa, e aconselhou-me a sair dali sem demoras, mas antes, pediu-me o favor de o fotografar.
E assim fiz, submissa, tal como nos sonhos: orientei a objectiva, enquadrei a figura do chefe na mira, alinhei as coordenadas e a luminosidade, pressionei o botão do lado direito, a máquina disparou e o chefe desapareceu.
21 de Jul de 2009
Estilhaço de asno
2- cada um dos fragmentos ou lascas a que fica reduzido o vidro, a madeira, a pedra, após impacto violento ou explosão.
3- pedaço ou lasca de qualquer coisa; estilha ou farpa.
António Houaiss
Ninguém diz “estilhaço de asno” ou “ela era um grande estilhaço”. “Pedaço de” ou “grande lasca” já podem dizer.
Notícia de primeira página:
“Ao dealbar do dia de hoje, foram encontrados, na linha de Cascais, junto à estação de Santos, fragmentos de um corpo trucidado, até ao momento de identidade desconhecida. Pareciam estilhaços de uma explosão numa área de cerca de cem metros quadrados. ”
Nesta época neo-barroca, tão bem diagnosticada por Lipovetsky, onde tudo se pode conglomerar ou desagregar e onde toda e qualquer unidade pode ficar comprometida, desmembrada ou até perdida em favor de toda e qualquer corja de estilhaços resta-nos distribuir farpas ao jeito de estilhas e seja o que Deus ou os homens quiserem que, a mim, já tanto se me dá. E como dizia a minha mãezinha: a este rapaz tanto se lhe dá que o rio corra para juzante ou para montante. Outro sinal dos tempos: a geração da indiferença.
Quando nos contaram, em segredo, as razões para “aviar” aquele corpo ficámos espantados com tão absurda determinação.
Ao ouvirmos tal, inclinámo-nos para a denúncia de semelhante caso. Infelizmente o tempo não corria a nosso favor e menos ainda a favor da vítima.
Foi descoberto um manuscrito número 143 no espólio de Ricardo Reis, num baú encontrado ao começo da Rua do Salitre. Estava misturado com cânfora e com uma garrafa de Barca Velha e, dito deste modo, não há como experimentar uma brisa vespertina para as bandas do Mar da Palha. Ali, na boca do Cais do Sodré, salpicado de crepúsculo e de ruídos diversos, de cheiros de especiarias e azedos retardados.
No fragor da refrega, ouvia-se de modo sincopado como num motor cansado:
- Dá-lhe para que não se levante.
- Dá-lhe outra vez...
- Dá-lhe para que não se levante.
- Dá-lhe outra vez ...
A um ritmo deste não se levantaria nem que o despertador tocasse cem vezes ou que passasse um tsunami chegadinho de um sismo de grau oito.
- Há sacos de batata que enfardam menos.
- Ainda lhe aviava mais mas estou a ficar exausto.
Exausto de “aviar” ele há cada cansaço.
O rosto do homem era uma papa ensanguentada e permanecia inanimado.
- Estilhaço de asno, está quase a ficar dia, é hora de o puxarmos ali para o meio da linha.
Fragmento de notícia de última página-
O manuscrito 143 do espólio de Ricardo Reis, recentemente encontrado num baú no início da Rua do Salitre, terminava com uma frase enigmática:
- Estilhaço de asno, está quase a ficar dia, é hora de o puxarmos ali para o meio da linha.
17 de Jul de 2009
Estilhaços de Uma Vida
Ela levantava-se, amiúde, e assomava à janela aberta, por onde entrava um ar cálido, naquela noite de estio.
O relógio de parede batia as dez da noite. A mulher, à janela, espreitava em todas as direcções e tornava a sentar-se. Outras vezes dirigia-se à mesa, retocava a disposição dos guardanapos ou das velas. Sentava-se novamente com um olhar de pesar.
Passava já das vinte e três horas quando ouviu a chave na porta. Ergueu-se de imediato e ajeitou o vestido, já um pouco amarrotado.
Ele entrou torpe na sala. Fato desalinhado, gravata laça ao lado e exalando um odor pestilento.
- Olá... o jantar ainda não esta na mesa?
- Boa noite. Está pronto, deixei-o no forno para não arrefecer. demoraste...
- Alguém tem de trabalhar cá em casa, já que tu não fazes nada.
- Eu trabalho - retorquiu ela numa voz sumida.
- Passas oito horas por dia a engatar gajos no escritório. Ou pensas que eu não sei?
- Deixa-te dessas coisas - disse num tom de suplica. Respirou fundo, forçou-se a um sorriso e prosseguiu - sabes que dia e hoje?
- Mais um dia como os outros, em que chego a casa e estas sentada na sala.
Ela tentou ignorar o comentário, embora sentisse as pernas a tremer.
- Fazemos vinte anos de casados. Preparei um jantar especial.
- Aprendeste a cozinhar ao fim de vinte anos?! O que e que há para comemorar? Aturar-te há este tempo todo? Andares metida com todos? Seres a maior vaca do bairro?
- Pára! Não aguento mais! Eu nunca andei com ninguém, há vinte anos que te sou fiel e que aturo as tuas bebedeiras e os teus insultos.
- Insultos?! Sua vaca de merda! - e desferiu-lhe um murro no olho direito, deitando-a ao chão.
- Desculpa, não faças isso, por favor!
- Não faço isso o que? Sua cabra. Levanta-te e vai buscar o jantar.
Ela levantou-se do chão, quase sem equilíbrio e foi a cozinha. Voltou com um tabuleiro que continha carne assada.
- Isso tem aspecto de seco. Deve estar uma merda (para não variar).
- Está pronto há mais de três horas, acabou por secar no forno.
- Não fazes nada que preste! - dizendo isto deu um pontapé na mão direita da mulher, fazer voar o tabuleiro.
Agarrou-a pelos longos cabelos já grisalhos e atirou-a contra a parede.
- Por favor, pára! Peço desculpa. Vou fazer-te outra coisa para jantares.
As lágrimas rolavam sobre as faces feridas. Na sua mente passavam imagens de agressões anteriores, das vezes que tinha acabado no hospital, dizendo que caíra das escadas.
- Fazeres outra coisa para quê? Seria outra merda! Tu não sabes fazer nada!
- Então deixa-me ir embora… - suplicava em surdina, encolhendo-se num canto da sala.
- Isso querias tu, sua puta! Para poderes andar com quem quisesses. Já te disse que se não fores minha não serás de mais ninguém! – dizendo isto, desferiu-lhe dois pontapés nas costas. Levantou-a por um braço e arremessou-a contra a cristaleira que caiu sobre ela, juntamente com uma chuva de estilhaços de vidro que mais não eram que os estilhaços da sua própria vida.
Não foi de mais ninguém… Foi apenas dele… aquela vida que ele estilhaçou até a transformar em pó.
13 de Jul de 2009
Estilhaços à la minuta
À mesa sentava-se um homem trivial, esboçado em linhas de certo modo rectangulares. Um primeiro relance não revelaria senão um vulgar trabalhador de colarinho branco, nó de gravata a encabeçar um fato completo, onde relevava contudo alguma porção da medida áurea de Fibonacci no corte rectangular dos ombros. A raiz quadrada de dois espreitava dissimuladamente por trás da aparente racionalidade da sua figura, e escorriam gráficos hiperbólicos das curvas correctas do seu nariz. Tudo considerado, é bem possível que Euclides não desdenhasse escrever um teorema inteiramente dedicado àquele homem, mas seria sempre um teorema banal.
O telemóvel escolheu uma obscura canção dos anos setenta como forma de estilhaçar o silêncio, projectando a mão do homem num movimento irreflectido, convulsão que desinquietou o maço de cigarros, tilintou o molho de chaves, lançou por fim o copo onde restava um fundo de cerveja numa parábola solta e larga, para a qual o recipiente não fora jamais desenhado. Oblívio a esta sucessão de eventos, o homem premiu o botão e atendeu a chamada.
Era do emprego, e era grave. De uma tal gravidade, aliás, que aquele já não era sequer o seu emprego, nem alguma vez voltaria a sê-lo. Aturdido, sufocado, o homem escutou de dentro da sua gravata a voz irritante que falava de sinergias e ópticas de gestão e racionalização de eficácia, e possivelmente também de ananases. Em pleno ar, o copo descrevia uma reviravolta sobre si próprio, enquanto convergia para o irrecusável destino.
A conversa era inútil, sendo o seu desfecho tão inevitável como a queda do copo. Nada disso bastou para deter a copiosa prolixidade da voz, que tergiversava agora sobre paradigmas. O copo, que batera esquinado e ressaltara, partia novamente em voo.
Uma nova oportunidade, insistia a voz, um recomeço e uma chance de fazer diferente a sua vida, essa vida que ninguém lhe perguntara se queria mudar. O copo fez um novo ressalto, sob o olhar embasbacado dos poucos circunstantes. Enquanto descrevia a curva final, a voz entreteve-se a infectar a conversa com o optimismo gratuito de Richard Bach e Saint-Exupéry. Maquinalmente, sem tomar sentido no que escutava, o homem foi concordando com tudo, e considerou provável que deus abrisse uma janela sempre que fechava uma porta, apreciou a perda do sol que lhe revelava as estrelas, e tentou ver com o coração a vil iniquidade que os olhos lhe haviam já revelado.
Depois caiu em si, num rompante que tinha a força espontânea de uma explosão, e despedaçou o telemóvel sobre os estilhaços do copo que tentara voar e falhara, exactamente como ele. Com admirável circunspecção, pagou a sua conta e saiu do café. É argumentável, mas duvidoso em extremo, que tenha alguém compreendido a mentira da frase anterior, onde se diz que ele saiu do café. Deixando de lado as conveniências, a verdade é que a porta se abriu num ranger fatigado, e dela irromperam estilhaços de uma existência agora finda.
O processo foi todavia pacífico e, como tantas coisas importantes, acabou por passar inteiramente despercebido.
9 de Jul de 2009
Com estilhaços brincando
23 de Jun de 2009
A foto esmaecida
- Era a minha avó – dissera ela.
“Um crime hediondo perpetrado em condições insólitas.” – trazia o jornal a abrir.
O dia tinha chegado ao fim e a chuva não conseguira lavar a imagem do sangue seco nas lages e nos mosaicos da saída para o quintal onde dias antes tudo acontecera.
As sebes altas, aquele feitio introvertido e as habituais ausências prolongadas inibiram a vizinhança de inquirirem muito tempo antes. Teve que ser o intenso odor a denunciar a trágica ocorrência. A raiva permanecia à solta.
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A fotografia estava tão esmaecida que quase nada se notava, por isso, foi com acentuada precisão do olhar que reparei no bebé ao colo daquela mulher idosa que sorria.
Um olhar de amor, proveniente de um passado tão remoto que ficou preso no tempo profundo onde as memórias lutam com a infância para permanecerem indemnes, era dirigido a quem lhe tirou a fotografia e não a mim.
O amor que distribuiu foi sempre o Amor, primeiro de filha, depois de mulher, e a seguir a imagem naquele anúncio tatuado no soldado que foi à guerra e que tendo conseguido voltar lhe deu um neto, portanto também amor de mãe e por fim o amor a mim, esse sublime amor que pude experimentar antes de se sumir numa fotografia sépia ou num quadro feito de brancos, ou na memória desses objectos e pelo meio muitas dores e angústias, incertezas até ao confronto último preparando a ausência que, desde então, sempre me veio doendo.
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Sentados na esplanada virada ao mar, quem observava veria um casal a espalhar lágrimas num jornal aberto sobre a mesa ao ritmo das vagas que salpicavam as vidraças.
Algo tinha nascido duas semanas atrás ou estava a nascer de cada vez que os olhares se cruzavam e tão diferentes podem ser dois olhos ou dois pares.
Duas semanas atrás riam-se quando se cruzaram com os meus e riam-se quando, ao mesmo tempo, nos voltámos para trás e riam-se quando corri para eles para perguntar de quem eram os olhos que se riam assim para mim. Tinha sido tudo tão rápido.
Agora molhavam o papel aberto sobre a mesa e até a fotografia sépia que eu tirara da carteira e colocara sobre o jornal.
Duas avós, dois destinos tão diferentes.
Que descendência?
21 de Jun de 2009
Como uma foto
Sinto-te perto, apesar de saber que estás a milhas de distância. Sinto os dias passarem, em rotinas feitas de segredos, como se fora agora o tempo da adolescência. Apetece-me saltar, rir, brincar, gargalhar, com a alegria de uma criança que um dia olhou para ti e soube que eras tu o amigo com quem queria brincar. É dessa certeza que mais parece cósmica que emerge a palavra amo-te, repetida até ao infinito, com a força do sentir vulcânico, ininterrupta, segura, absorvente.
Escrever, talvez seja a minha forma de expulsar a birra e de modelar aquilo que me é distante. Procuro agarrar cada momento que me foge e escrevo, na expectativa de que me leias e sintas a ternura que há dentro de mim. Escrevo ainda para expulsar esta saudade granítica que me liga a ti, onde gotas de água escorrem em estalagmites. Escrevo para me sentir, num esforço de quem quer caminhar pela vida em passos suaves e doces, na inocência de simplesmente existir, sem dor, sorrindo às coisas que me lembram de ti.
Da casa do lado ouço os sons dedilhados de um piano límpido, nostálgico e envolvente. Talvez Chopin, em andamentos nocturnos, fazendo-me recordar os tempos em que, do jardim da casa de férias, escutava os sons que vinham da sala, quando ensaiavas novas composições para o concerto anual no Coliseu. Agora na casa nova, longe de ti, todas as manhãs acordo cedo e vou até ao terraço. Ali, sento-me no conforto da paisagem que me lembra os tempos antigos, quando eu era criança e me imaginava correr pelas ruas da aldeia, ora saltitando à beira do meu avô, que se dirigia à horta como quem caminha pelos segredos de um mapa, na senda do tesouro em mistérios guardado, ora chapinhando nas poças de água gelada, nas manhãs de Inverno, a caminho da escola. Ao lado, uma casa velha, em ruínas, lembra-me um álbum de fotografias durante décadas atirado para as águas furtadas de uma casa desabitada. Uma ameixoeira trepa pelo telhado da casa, carregada de ameixas vermelhas. As ervas e as silvas apoderaram-se da casa. Bandos de pássaros vão debicando as ameixas amadurecidas. Se ao menos eu conseguisse apanhar uma ameixa e tomar-lhe o sabor… Ao longe, o horizonte lembra-me de ti. É sempre assim. Há um lugar e um tempo onde estou sempre contigo, caminhando de mão dada, na hora crepuscular. É esta imagem que me persegue e que um dia hei-de buscar, ali, junto ao mar.
Desculpem, amigos
FEIRA
Olho para tudo na feira da ladra dos anos. Por entre setecentos euros de óculos, alto na miopia do galo, em passo de corrida vejo tudo nu na basílica do futuro.
Só no lume do convento perdido me sou, mas lento a ti me faço. No écran de teu sorriso esfuma-se fome de mim, uma ânsia de nada sem troca aparente, brilho do resto, o costume.
A vila atrás, a vida à frente. Alhos e pó, sangue de muitos ratos e pombos a saldo.
Outros momentos. Lixo no adro real de todos os santos, cruzes canhoto na mó saloia.
Abraço
16 de Jun de 2009
A Foto
Se essa cor seria vista por alguém, acaso as fotografias lhe consentissem espaço para tanto, era coisa que ficava ainda por determinar. Não parece com efeito provável que uma pouca de tinta mural, por melhor que a houvessem aplicado, lograsse fazer ouvir o seu brilho por entre aquela sinfonia clamorosa de luz e imagens. Havia ali paisagens e grupos de gente, e prados e praias e mares, e árvores altas como montanhas, montanhas nevadas como sorvetes, e sorvetes mais vibrantes que uma árvore viva de seiva, derretendo com alegria brincalhona nas mãos das crianças que brincavam nos prados e nas praias. Eu próprio aparecia em muitas das fotografias.
Percorri a sala banhado num riso divertido, riso que era muito mais prazer que escárnio. Ria-me no gozo de contemplar toda aquela beleza, as praias batidas de marés cálidas onde eu corria à beira-mar, as sombras de arvoredos a que me acolhia com grupos de bons amigos, os sóis poentes que doiravam de sonhos os nossos repousos vespertinos; e ria-me da sombra ingénua que ali me mandara, na busca ridícula de uma foto entre milhares de fotos. Mas o riso morreu-me na garganta, e secou-me na alma, quando de súbito a vi. Um engano era impensável, não podia haver confusão. Aquela é que era, sem dúvida – a foto!
Era medonha, a foto. Em volta dela, deixava-se afinal ver um pedaço de estuque bilioso e carcomido, quase como se as restantes imagens fizessem questão de se afastar, e de se demarcar daquele lastimável documento, que semelhava um qualquer género de aterro infecto. Eu não aparecia naquela foto.
A desolação é uma coisa suportável, e tem até uma certa estética. Um ermo pedregoso, áspero amontoado de rochedos que sofrem a rapina de três ou quatro arbustos esquálidos, mal presos pelas garras finas das raízes à superfície ingratamente rugosa, sob os pesados agoiros de um céu tempestuoso – isso é desolador, e não deixa todavia de ter a sua graça; a foto não era desoladora – era uma lixeira.
Nada do que as outras exibiam lhe faltava a ela; tinha também os seus arvoredos, arvoredos mesquinhos e vis; os seus prados barrentos, viscosos; as suas praias onde um mar fétido batia um areal cor de alcatrão e cor de escarro; e tudo isto esverdecia sob a luz suja de um sol pusilânime, enfiado da vergonha de não alcançar pelo menos a serenidade forte de um luar franco e claro. Era cinzenta, aquela foto, e eu não figurava nela.
Ou será que figurava? Aquele monturo que desfeava o lado esquerdo tinha decerto uma impertinência familiar, como familiarmente corcovava a árvore de ramagens obscenas, e quem sabe se não era em mim que o esverdinhado sol agoniava o seu brilho baço? Examinei então mais detidamente as fotos que em redor rebrilhavam, e nelas atentei no meu avatar.
Não era eu! Parecia-se muito comigo, o sacana, mas não era eu. Não sei bem que coisa tinha diferente de mim, e se o soubesse, de resto, ele seria talvez eu. Mas eu não era aquele, eu era o infame que na foto ominosa agachava junto ao monturo de tons gangrenados, e tentava fingir que não trazia um capuz cinzento.
Nem nas acções nos assemelhávamos: o outro fazia rir enquanto eu fazia uma via sacra, fazia de conta quando eu fazia pena, fazia pensar quando eu fazia tenções de abjurar todo o pensamento e razão, fazia planos quando eu só ambicionava fazer tijolo. Fazia de resto um bonito efeito, naquelas fotografias bonitas e vivazes, mas nenhuma delas era o meu retrato. Em toda a galeria multicor, eu só aparecia naquele ratinhado pedaço de papel de fotógrafo, aquela foto cinzenta de pó. Não era foto que se emoldurasse, coisa que felizmente ninguém se lembrara de fazer.
Saí da sala pensativo, ou pelo menos tentei fazê-lo. Mas isso de pouco adiantou, que mais havia para pensar?
13 de Jun de 2009
Primeira Reunião dos Contistas
Os contistas masculinos (honra lhes seja feita) foram os únicos a chegar pontualmente. Ficaram, no entanto, decepcionados por a contista, ora subscritora, ter reservado a mesa no interior do restaurante e não na esplanada. Em virtude dessa falha, durante toda a noite houve diversas saídas à explanada para matar o vício.
Estavam, portanto, presentes os contistas Nuno, Armindo, Adriano e Guiomar (embora atrasada). A contista Margarida era a única ausência confirmada; a contista Sofia tinha avisado que chegaria mais tarde e a contista Rosa deve um percalço com a sua viatura que a reteve em terras distantes.
Foi muito curioso finalmente associar caras aos nomes e à escrita que já conhecíamos. O Nuno teimou que o Adriano era o Armindo e que o Armindo era o Adriano... Certo é que todos nos imaginávamos diferentes.
O jantar correu maravilhosamente (à excepção da comida) mas isso era o menos importante. O vinho foi muito bem escolhido. O humor esteve presente, em doses muito mais generosas que as de comida.
Foi tomada a primeira deliberação do grupo, ficando decidido dar um passo mais além... (não vou revelar tudo aqui).
Depois de sermos convidados a sair e enquanto decidíamos o que faríamos a seguir, a contista Sofia deu sinal de vida e ainda se juntou aos restantes contistas, num ambiente irlandês, com mais uma proposta de um outro passo, diferente do anteriormente deliberado, mas também, desde logo, aceite por unanimidade.
Ficamos a aguardar o desenrolar dos novos projectos.
Nada mais havendo a deliberar (ou os compromissos para a manhã seguinte assim o ditaram) deu-se por encerrada a primeira reunião dos contistas, pela uma hora da madrugada, da qual se lavrou a presente acta.
12 de Jun de 2009
A Foto
No entanto, quando ela a olhava, não via o sol deitar-se docemente sobre o mar, mas o outro lado da câmara. Voltava a sentir o olhar apaixonado daquele ser maravilhoso que se sentava à sua frente no momento em que tirou a fotografia. Recordava aquele dia passado em terras longínquas, cheio de risos, de paixão, de felicidade!
Tinham partido de manhã, num comboio cheio de pessoas que falavam uma língua totalmente desconhecida. Por muito que quisessem passar despercebidos, eram obviamente turistas, com hábitos e uma cultura totalmente diferentes.
Calcorrearam ruas e praças, sentiram os aromas da comida que fumegava em bancas de rua. Foram visitar o monumento mais famoso da cidade; imponente, revelador de uma cidade renascida. Uma autentica Fénix!
Decidiram rumar ao extremo da cidade, já praticamente arredores, para uma refeição num restaurante famoso pelo seu peixe.
Apanharam um táxi, coisa que pareceria normal. Revelou-se a corrida (e foi mesmo uma corrida) de táxi mais louca que podiam imaginar. Pelo caminho deram um encontrão a uma rapariga que passava à beira da estrada, derrubaram uma banca de fruta e fizeram diversas tangentes a outras viaturas, que parecia mesmo que iam ser secantes. Quando finalmente a viatura parou, as pernas tremiam sobre o chão que, embora firma, parecia fugir-lhes debaixo dos pés.
Tomaram a refeição no referido restaurante, numa esplanada sobre a praia, onde os banhistas tinham hábitos muito diferentes dos seus.
Assistiram, então àquele pôr-do-sol maravilhoso, que ficou eternizado pela máquina fotográfica.
De regresso passaram por alfarrabistas, onde compraram um livro de recordação. Embarcaram no comboio e brincaram e riram de forma perfeitamente inadequada para aquelas paragens.
Naqueles dez por quinze centímetros cabiam todas as sensações daquele dia; todos os acontecimentos passados com uma pessoa muito especial, num dia diferente de todos os outros que já vivera.
11 de Jun de 2009
O que farias se te saísse o euromilhões?
- Oh pá, nem sei. A primeira coisa era mandar o coirão do meu patrão à merda. Nunca mais fazia ponta de corno na vida!
- Eu não, antes de mais, pedia o divórcio.
- Por quê? Já agora, não me digas que continuavas a trabalhar?
- Divorciava-me para me ver livre da bruxa da minha sogra e da aprendiza dela, a filha.
- Se ela é assim tão má, a tua mulher, porque não te divorcias agora?
- ‘Tás louco?! A vivenda é da velha, o dinheiro é da filha e sempre tenho uma empregada que lava e cozinha.
- Quem, a tua mulher?
- Não pá, uma sopeira, mesmo.
- Então mas se o dinheiro é da filha, não é teu também?
- É uma forreta. Só porque já tinha umas massas largas antes de casar comigo, exigiu casar com separação de bens.
- Mas tu não tinhas nada?
- O mesmo que tenho agora, zero! E ainda me atira à cara que eu não contribuo com nada para a casa. Eu que, desgraçado de mim, estou desempregado há cinco anos…
- Mas não arranjaste nada em tanto tempo?
- Eu não… Só me aparecem trabalhos que não valem um chavelho. Ou são trabalhos boçais ou não pagam mais de mil euritos, nada de minimamente razoável…
- Tenho ideia que ela tinha uma empresa, não podias trabalhar lá?
- E tem. Ainda pensei nisso, mas ‘tás a ver, isto estar vinte e quatro horas por dia com a patroa (e aí era mesmo patroa) é muito mau. Ainda assim, considerei seriamente a hipótese, mas tu queres acreditar que ela me queria pôr a mim, o marido da patroa, a entrar às nove da manhã e a picar o ponto, como os outros empregados?
- Até era um bom exemplo…
- Bom exemplo?! Como é que eles me iriam respeitar? Ela nem me quis arranjar uma secretária?
- Então, queria que trabalhasses de pé?
- Não é dessas. Uma secretária para me assessorar.
- Mas que função irias ter?
- Sei lá, isso nem chegou a ser discutido. O marido da patroa tem de ter uma secretária (jeitosa). Não achas que tenho razão?
- Bem… enfim…
- Afinal, além de te despedires, o que fazias se te saísse o euromilhões?
- Olha, não sei, mas para já, o melhor é voltar para o trabalho, porque a minha mulher não é aprendiza de bruxa.
18 de Mai de 2009
Entrevista
- Pode, sim.
- Quantos anos tem?
Assim de supetão como um soco no estômago, sem tempo para respirar nem sentido do sensato. Não é pergunta que se faça a uma diva numa entrevista à queima-roupa.
- É claro que uma pessoa, sobretudo a uma dama…
(O equilíbrio tentava restabelecer-se após a surpresa, demonstrando uma delicada maneira de estar.)
- …de um certo estrato social. Aliás, uma senhora, quando toda a sua vida se pautou por efeitos que levam a reunir um conjunto de eventos numa sequência toda ela desenvolvida desde tenra infância até idade adulta sem nunca lhe ter sido imputado o menor…
- Mas…
-...é óbvio que sabendo de antemão, ou tendo em sua posse elementos demasiado preciosos, os quais serão o garante de uma estabilidade estrutural acordada entre o tecido familiar e o leque sócio – económico onde se insere e evolui, pode, em ocasiões extremas, anular toda e qualquer veleidade…
- Eu gostaria de…
-…enquanto que , por sua vez, o contexto inapelável de onde provém, pode – efectivamente – conjugar, numa simulação imparcial, as duas vertentes de uma análise…
- Ei, se não se importa…
-…positiva cujo cerne incluirá, caso não incomode, a leitura global e o simulacro experimental de uma tese…
- Deixe-me só…
-…uma vez abordada de modo frontal esta problemática e a tentativa subsequente conseguirá, através da retórica, anular apenas a convicção perturbadora de um animado debate onde evoluem determinadas opiniões sensacionalistas que por maior progresso aparente manifestado não convencem quem delas se aproxima meticulosamente…
- Permita-me o reparo…
-…por confirmar fica, - se entretanto não puder haver prova contrária - a habitual inferência relativamente a casos semelhantes ou cuja aparência pode induzir um tratamento todo ele apontando para tal…
- Será que custa assim tanto…
-…por sua vez, dada a natureza e enquadramento do assunto, levar-nos-á, se conseguirmos não nos atrasar, a poder concluir, sem margem para dúvidas, colocando de parte toda e qualquer hipótese, por mais remota que fosse…
- Desculpe, mas a perante essa sua barreira terei que me retirar.
- Qual era, mesmo, a pergunta?
A saudade
As anacrónicas saudades de colheitas em terras arrendadas ao terço, exploração de subsistência em leiras de vizinhos e das tradicionais desfolhadas da eira comunitária na cobiçosa e vã tentativa de encontrar o milho rei, porque hoje, nem as eiras conservam seus tijolos, (ruínas de outras eras) com fartura de ervas daninhas numa conquista férrea aos interstícios, abençoada força da Natureza, garante do dia que há-de vir.
Levantar de madrugada e caminhar cinco quilómetros atravessando a estrada municipal (a única alcatroada à época, sinal evidente da sua importância) e deitar-me nela olhando as estrelas com uma claridade e nitidez na Via Láctea nunca mais vistas, sempre com a sensação de um carro a chegar aumentando a adrenalina e depois seguir os passos dos avós correndo para os apanhar. Chegar e vê-los a começar a apanhar o grão ou o feijão ou varejar azeitona e sentir o cheiro de juncos em terra arenosa como um arquipélago insalubre onde crescia relva boa para rebolar e onde a imagem da roupa acabada de lavar com sabão azul e branco estendida a secar ao sol permanecia por toda uma vida.
Fogueiras de Junho ardendo em grossos madeiros com faúlhas pelos ares, os saltos e todas as aventuras com o cheiro a fumo na roupa vestindo como ciganos, as histórias de outras eras e os cantos. Não fora o Giacometti e nem me recordaria sequer deles, tal como de Dodós esquecidos na racha de um tempo passado a flutuar na cabeça de um saudoso velhote. Canto chão arrastado até ao arrepio de uma memória instalada em frasquinhos.
Avô adaptado ao tecnológico e veloz século vinte e um, entertainer de crianças curiosas, em nicho de mercado como senhor de suíças cristalizado e embalado em vácuo para ressuscitar um lustre mais adiante, cheirando a naftalina e aparentando recantos embebidos em brometo de prata. Histórias do tempo em que os avós eram verdadeiros dinossauros de contar, cujas rugas cresciam na razão directa da aparição do riso efectivo em soalheiros fins de tarde com aquela bola no horizonte lembrando uma toranja suculenta a enfiar-se lentamente no chão da lonjura. E ainda dizem que a saudade é um fado. Quantas vezes depois disso a bola mergulhou. Os avós já desapareceram e eu tomei o lugar de um deles. Olhando este fim de tarde, medito com os olhos colados na linha do horizonte e os risos de netos e crianças da sua idade, lembrando sábados à tarde, dançando nos cabos dos telefones e das catenárias dos comboios.
- Avô ajuda-me com este jogo da Play Station .
- Diz lá Pedro, se eu souber… olha que no meu tempo os brinquedos faziam-me correr mais.
-Mas eu corro, avô.
E digo para dentro: é certo que as casas com rodas eram em muito menor número, rapaz, que culpa tens tu?
A verdade
- Verdade?
- É claro que verdade, verdadinha, a cem por cento não é mas…
- Mas o quê? Queres enfiar o barrete a quem? Se não é verdade a cem por cento…
- Hoje em dia, verdades a cem por cento são uma raridade. Espera-se um dia radioso de sol desavergonhado e vai-se ver aparecem nuvens, aguaceiros e um indivíduo constipa-se. Espera-se uma virgem e na melhor das hipóteses aparece com bigode ou com uma pré-rodagem digna de um fórmula um.
- Hoje em dia já nem se espera uma virgem, a não ser que se seja radical muçulmano e se reclame à porta do céu as sete virgens a que se teve direito por ter explodido em sintonia com judeus de preferência norte-americanos. Talvez nem se espere. É mesmo preferível não esperar, não venha aí um Godot de pacotilha que nos faça desesperar.
-Um Godot de pacotilha em formato de verdade, quem diria…
- A paciência de um agrimensor à espera de atendimento no sopé de um monte com castelo em cima, deveras altaneiro, sujeito ao capricho de senhores, isso sim.
- A verdade escondida num envelope de curiosidade.
- O que é afinal a verdade?
- É um estado circunstancial que nos pode levar ao desespero.
-Desvendar a verdade – um toque de magia; uma experiência poderosa que pode desembocar no espanto ou na raiva, na justiça ou na ignomínia, no alívio ou na inquietação.
- A luta, anos a fio, com a ilusão do Pai Natal para acabar de modo inglório na descoberta da fraude. Será isso a verdade a que temos direito?
-Ou enfrentar o nó górdio da dúvida: –Todos os portugueses são mentirosos.
-Na verdade…
- Cada político sabe perfeitamente o que é a verdade, pelo menos a sua verdade, e desloca-se geralmente nesse limbo que calca os dois mundos de modo a não lhe poderem invocar inverdades.
- E a verdade do comerciante…Na idade média escurecia a sua loggia para que o cliente carregasse mais fruta podre, hoje ilumina com neons para que o barulho das luzes disfarce a mercadoria.
-Queres comprar a minha verdade?
- Eu? Gostaria de deixar de ser filósofo mas não sei fazer outra coisa. Não posso comprar a verdade, posso é persegui-la até onde ela resista, como água a fugir entre os dedos de uma mão a fechar-se. Contar o quê?
17 de Mai de 2009
A Pergunta.
Percival não é em si próprio um nome comum, e nunca foi, no caso dele, desprovido de significado. Ernesto revia-se realmente naquele nome, pela boa razão que, tal como o brumoso cavaleiro das lendas arturianas, honra e flor de Camelot, também ele empenhara a sua vida no altar de uma porfiada demanda. Se Sir Percival buscava o santo cálice, Percival, mais modestamente, buscava uma resposta. Se acaso o inquirissem sobre tal assunto, diria antes que buscava a resposta, querendo com isso na realidade dizer, A Resposta.
O que tal resposta poderia ser, foi coisa que sempre variou. Ainda jovem, especulou sobre a vida e a morte, sobre a sublimidade da condição humana, sobre as humanas iniquidades. Mais maduro e experimentado, meditou largamente a ordem social, e as possíveis formas de atingir nesta uma posição lucrativamente predominante. Depois de também isto falhar, e nem sequer com estrondo que se notasse, passou a empenhar-se por inteiro na busca do amor, procurando com os românticos arroubos consagrados pelo estilo uma cara-metade, que por inclinação pessoal preferia feminina, e que lhe proporcionasse a almejada resposta. Ficou por esta altura claro para toda a gente que a resposta ambicionada era, muito simplesmente, “Sim”.
Mas até uma reposta de tal simplicidade pode ser difícil de encontrar. Pareceu então a Percival que o mundo todo se resumia a um imenso mar de Nãos de todas as espécies e feitios, tais como os Nãos tipo carapau de corrida, que se esgueiram antes que de os podermos agarrar e discutir alternativas; os do tipo tubarão, que é melhor aceitar e fugir para longe, sem lhes dar tempo a elaborarem mais mordentes argumentos; os do género baleia, esmagadores; aqueles que são como estrelas do mar, apontando sempre em várias direcções ao mesmo tempo; os búzios, que depois de recusarem se fecham na concha; e as pescadinhas de rabo-na-boca, que dispensam mais descrições, quem é que não passou já por coisas dessas? O desejado Sim, pelo seu lado, era aparentemente a mítica sereia daqueles tempestuosos oceanos.
Mas até as sereias se deixam encontrar, se as procurarmos com suficiente afinco. Que o diga o sublime Odisseus, poderoso guerreiro que só a elas se rendeu, e parece que fez até questão disso; que o diga Percival, quando um dia achou nas turvas águas de um bar acanhado e fumarento a sua ninfa, aquela que plenamente lhe ofereceu o Sim. Passados uns tempos, casaram-se.
Não foram todavia felizes. O nosso Percival, honra lhe seja feita, deu o melhor que tinha para dar, mas aquele Sim que o lançou nos braços da sereia não parece, pura e simplesmente, ser capaz de levar a empresa mais avante. Ficou por esclarecer, ao que tudo indica, a que coisa deu ela o seu Sim, visto que agora não parecem capazes de se entender na mais pequena ninharia. Se ele quer comer ela quer dormir, se pretende beber ela prefere fumar, o branco que ele escolhe devia sempre ser preto – diz ela, e também diz o contrário -, e a discordância tornou-se a única coisa em que ambos concordam. Mas ela disse Sim, e nisso não mentiu – a prova, à vista de todos, é que continuam casados.
O meu amigo Percival, casado, encornado e acomodado, não abandonou todavia a demanda. Cavaleiro sans peur et sans reproche, contra tudo e contra todos, mudou apenas muito ligeiramente o objectivo da sua busca. Na moderna versão de si mesmo, não procura mais a resposta, quanto mais não seja porque já a encontrou. Muito pelo contrário, resumindo aqui a sucessão dos eventos, tudo o que Percival encontrou foi a resposta, e muita gente diria que não era pouca coisa, caramba! Mas ele é que não se satisfaz. A fazer fé no que contam, emprega agora os seus dias na busca “da pergunta”, certo como está que o desconhecimento desta esteve sempre na origem de todos os seus males.
E quem sabe se não terá razão?
6 de Mai de 2009
Saudade de Nós
Todos os dias recordo, com dolorosa nitidez, aquela eternidade tão breve em que juntos fomos felizes. O momento, de tão fugaz, não teve sequer o tempo de começar a acontecer, e permanece todavia a parte mais viva deste meu presente sempre pretérito, vida sem futuro perfeito à vista, e mal conjugada na pessoa errada.
Uma das memórias mais belas, de entre as muitas que guardo, é o contentamento sereno e risonho daquele dia passado no campo, à época em que tinhamos a casinha junto ao rio. Que dizes tu, meu amor, que não houve casinha nenhuma, nem jamais te quedaste à beira de um rio, vendo a meu lado os peixinhos de todas as cores? Talvez tenhas razão. Deves ter razão, isso decerto nunca aconteceu, ou não seriam tantas as minhas recordações desse dia, nem tão claras. Tivesse de facto acontecido, e seriam talvez menores as saudades.
De tudo conversámos nessa tarde, ou de quase tudo, que sempre uma coisa ou outra se cala, mesmo quando voamos nas asas do sonho. Lembro-me que corremos alegres até junto da nossa casa, e nos estirámos num relvado perfeito, vendo juntos o céu às avessas, e escolhendo nuvens que depois levámos connosco.
Estavas cansada quando comigo vieste para o quarto, esse quarto cuja perda sempre choro, e que veramente nunca existiu. Suavemente, para não perturbar a magia daquele dia assombrado, deitei-te na cama ampla (aquela velha cama de nogueira, recordas-te, que tinha o dossel alto como um leito real? Como um leito de princesa, disse-te eu). Acariciei-te o rosto e tu sorriste, depois bocejaste, e sorriste de novo, numa hesitação de quem a um tempo deseja dormir e despertar. Abri então uma caixa de rendilhados relevos, aquela velha caixa de música que vivia na poeira da cómoda antiga. A cristalina melodia de embalar encheu de suavidade o quarto, e tu adormeceste a sorrir.
Ainda hoje revivo esse dia em que não fomos, imerso nesta imensa saudade de ser-me. Mas agora a noite cai, e há que pôr de lado a minha vida. Há coisas para dizer, coisas para fazer. Com um esforço consciente, expurgo-me de toda a saudade, e fico preparado para enfrentar as ninharias da vida dita real. Estou vazio; estou pronto. Não posso contudo evitar, bem no fundo desse vácuo que agora sou, uma ponta de saudade pelo dia de amanhã.
2 de Mai de 2009
A Verdade do Amor
Sim, também eu acordei sorrindo, de facto estamos a passar uns dias maravilhosos. Não há pressas, constrangimentos, preocupações de não chamar a atenção dos outros ou de se ser vista por quem não devia.
Vêm-me, então, à memória os aspectos mais dolorosos da nossa relação, todos os momentos que me fazem não querer estar a seu lado. Como seria tão mais fácil se tivesse escolhido outro tipo de pessoa, com a qual pudesse andar livremente na rua, a quem pudesse dar a mão, ou beijar se me apetecesse.
Volto a olhá-la, a respiração suave revela a paz em que repousa. Porquê esta ligação tão forte? O que nos liga que e me faz enfrentar tudo isto? É este sorriso quase pueril? Essa forma de se entregar como uma criança pequena, que procura consolo no colo da mãe? Ou a alegria que me faz sentir, que despoleta o meu sorriso, o meu riso, como ninguém. Será a forma como me toca, como explora o meu corpo, despertando todos os sentidos, fazendo-me voar para outros mundos?
Mas também me lembro de outros momentos, daqueles em que me sinto a sufocar, em que nada parece ser razão para ficar, para continuar por aquele caminho sinuoso. Somos tão diferentes… Continuo a não entender o que nos une…
Abre os olhos lentamente. Espreguiça-se como uma gata. Olha-me e o seu rosto abre-se num enorme sorriso.
- Bom dia, meu amor. – diz, acariciando-me o rosto.
Como pode dedicar-me assim tanto afecto, uma quase veneração, quando eu sei que chego a ser pérfida quando discutimos?
Beijo-lhe o rosto. Sinto o seu aroma quente. Inebriam-se os sentidos. Um calor invade-me o coração.
Há verdades que não se explicam, constatam-se apenas. Não podemos procurar encontrar razões naquilo que não é racional.
A verdade do amor reside aí, é irracional e absoluto, não se compadece com conveniências ou opções correctas. É, simplesmente, sem escolha, sem razões, com toda a força que existe cá dentro.
30 de Abr de 2009
Saudade(s)
A divisória encontrava-se envolta em fumo denso e, como habitualmente, a noite demorava a nascer. O olhar dos transeuntes, inundado desse vapor branco, cegara, não pela noite que tardava, mas pelas profusas horas que teimavam em existir.
A claridade assumia um peso excessivo que, lentamente, trabalhava as pálpebras da cidade. Os ruídos, poucos, avocavam um som metálico e áspero. Os ouvidos da turbamulta contraíam a gravidade da procura do sentido. De fora, cada esquina adquiria um outro perfil, sempre sem sombra. As casas, ígneas línguas que lambiam a alabastrina cidade, tornavam-se pequenos refúgios ao longo das simétricas alamedas desarvoradas. Indistintamente, no cimo de uma outra alfama por definir, uma janela interrompia o horizonte lácteo. Dessa janela para dentro, esse mundo submergia.
Sal descia, voluptuosa, os degraus salomónicos de uma divisória enfumada que servia de antecâmara a essa janela, cujo condão (embora ninguém o soubesse) era perspectivar o inesgotado do Sonho. Descia-os como se, num só passo, transpusesse essa alba crepitação que a todos, sub-repticiamente, tumulava. [Sal] voltara a existir, mas sem nome. Essa luz clarão, do-no-mundo-e-fora-do-mundo, que esculpia o precipício da meia-noite, trouxera-lhe o ansiado indício.
Sempre amara o lado abstruso da realidade, enquanto cada partícula de luz a atravessava como uma convulsão. Prezara os cheiros subterrâneos, no labor minucioso de reconhecer todas as estações. Porém, jamais reclamara o Sol interino que faltava àquela cidade. Agora, incitara a sua súbita transformação: clandestina, em horas de alucinação, moveu-se para fora das vidraças, para fora de si própria. Nesse limiar mágico do voo, e de corpo todo rasgado, redesenhou as mitologias, sem a ilusão de as ter criado. Jorrou, oscilante, das estrelas outros compassos e diversas geometrias. No asfalto da sua pele, cintilaram amanheceres ferozes que rompiam o céu ácido da memória. A cidade ecoava noite.
Hoje pouco resta desse percurso, desse mar, desse Sal.
Ela passaria à frente de si própria. Silêncio.
Era noite, jubilosamente noite.
Em todos os outros, essa amnésia que não cuida saber dos auspícios da existência, alagava os fogos por atear, as cerimónias sacrais que não podiam ser verdadeiras, anestesiava os peitos nus dos poemas, não obstante a procura contínua de uma qualquer convicção que remanescia nos caudais da memória. Submetiam-se a essa nova vida, obedecendo às normas, aceitando todos os nomes, vozes e deuses. Todos se encontravam nesse estado encoberto e miasmático. Rumo ao centro da cidade, já não sabiam se perseguiam ou fugiam de algo. Aproximaram-se. Adentraram um espaço ou vórtice espesso e leitoso onde o Tempo, jazendo, respirava. Foram engolidos, sem interrupção. Perderam-se irremediavelmente nas armadilhas da nostalgia. Foram corrompidos pela medúsicas teias da melancolia.
Era noite, pesarosamente noite.
Apenas Sal se salvou. Apenas ela encontrou o fio de Ariadne nesse labirinto incompreensível chamado Saudade.
Confesso: há contravenenos que nos deixam absolutos, plenos. Antídotos brancos, de brilho insondável, que nos alumiam o Caminho, inflamam o espírito e erigem o Ver.
28 de Abr de 2009
E será verdade?
Ninguém caminha alegre para o seu divórcio, coisa talvez mais explicável que a alegria que tanto se usa por ocasião do matrimónio. Sendo ambos processos civis, o segundo reveste uma mais óbvia componente legal, mormente se é litigioso. E as componentes legais são coisas que, com toda a franqueza, acagaçam um bocado...
“Juro perante Deus que hei-de dizer toda a verdade e só a verdade”. Mesmo a republicanamente instituída possibilidade de delegar na sua própria honra o arcaico papel desse Deus lhe suscitava algumas questões – se já em tempos imemoriais havia descrido inteiramente deste último, acontecia-lhe por outro lado ser justamente o naufrágio da primeira aquilo que o trazia a cortes.
Fosse como fosse, era um juramento bonito. Até mesmo profundo, acabou por meditar, profundo e solene. Justamente a frase perfeita, a bacorada ideal a preceder este holocausto, a definição de mim próprio pela via judicial, o sacrifício destes tantos anos da minha vida no altar das circunstâncias. Seja então a verdade. Toda a verdade, e só a verdade, e assim me assista a graça desse estranho deus, que via de regra não tem mesmo graça nenhuma.
(O meu diabinho ainda coaxou um protesto em relação a “toda a verdade”, mas calei-o com um pano encharcado nas ventas, que isto de diabinhos é coisa que não requer senão firmeza. O juiz martelou afirmativamente o meu compromisso, e teve início a batalha pela verdade.)
O subsequente decorrer do processo acabou todavia por confirmar em todos os pontos a perspectiva cínica do diabinho, pois essa verdade total nem no próprio céu se usou jamais, sob razão maior de ser pelo menos um contrasenso. Estivesse aqui o velho Pôncio Pilatos, e seguro seria que o ouvissemos inquirir do magistrado, “Mas de que raio é que estás para aí a falar, com essa conversa de Verdade, e logo Toda, assim de uma vez, não querias mais nada. Toma”. (Não será muito bíblica a terminologia, mas é pelo menos plausível).
Ninguém mentiu, naquela sessão em que não ouvi nunca toda a verdade. Estava desde o início seguro que a não ouviria, nem que o meritíssimo estendesse as audiências pelos vinte e tantos anos que essa verdade durou, sobrevivendo quantas vezes à custa de umas quantas mentiras, não digo aqui se muitas ou se poucas, que não quero entrar por aí. Mas nem com esses anos todos lá iriamos, que as coisas gastam sempre mais tempo a relatar do que aquele que gastaram a acontecer.
Muita questão de facto foi ali debatida: quem pôs os cornos a quem, ou seja, questionando de forma mais técnica, se a requerida assistência foi devidamente prestada, os deveres cumpridos, ou pelo contrário negligenciada a paternidade, todas essas clausulas do contrato em apreço. Dito de outro modo, quem pôs os cornos a quem.
É um pormenor que sempre se exagera, esse dos cornos. Ora veja-se, dá um esperançoso casal início a um jubiloso matrimónio, que em devido tempo celebra sob a égide da vaca sagrada, tida em grande apreço por múltiplas culturas; orbita o mundo umas quantas vezes e, quando mal se precatam, porfia cada um dos nubentes no dissimulado esforço de enfeitar o parceiro com os adornos com que se exibia o esposo da dita bovina. Chegam por fim a vias de facto, e é mais certo que nascer o sol à direita de quem está virado para Braga, que o pomo da discórdia será a frondosa medida da armação que cada um dedicou à cara-metade. Ora, mesmo o boi, que sob o mais nobre apodo de toiro é corrido nas arenas, tem o discernimento de vislumbrar que o seu problema de bandarilhas decorre sobretudo do toureiro, e não do metal com que os ferros foram feitos. Mas a inteligência de um boi não está ao alcance de todos.
Também nós revolteamos sobre esse ponto, confesso-o. Acabámos por concluir que ninguém encornara o parceiro, medida talvez insalubre do que fomos nós dois.
Inquietei-me, confesso, com certas perguntas que poderiam muito bem ter sido feitas, perguntas de cuja resposta não me posso gabar.. Mas não, nenhuma dessas me foi inquirida, e a coisa veio a acabar na sentença, o que me têm dito ser frequente, nisto de tribunais.
A pancada do martelo, ao que parecia, fazia de nós duas pessoas apartadas, convivendo contudo em algo que dava pelo nome legalistico-abstruso de paternidade partilhada, forma jurídica de explicar que a Martinha era minha em certas ocasiões, da mãe em outras, de si própria vez nenhuma.
Saí do moderno edificio a pensar naquilo da verdade. É que eu vivi-a, essa verdade, e ela não esteve presente naquele tribunal, nem vejo como poderia ter estado. A Verdade é coisa fugidia, bem sabemos, e acaba por ser consensual que cada um tenha a sua. Nós lá nos safámos com o melhor arremedo que cada um podia arranjar, e a coisa por sorte não descambou. Mas a Martinha é que vai ter de viver com isso, não somos nós.
Não, nós apenas teremos de viver connosco, com a nossa realidade que aquele tribunal arranjou maneira de definir, por mais impossível que parecesse a tarefa. Com uma verdade de totalidade discutivel, mas que está decretada e transitou em julgado, sendo portanto para cumprir. Não sei mesmo se não seremos nós os mais traumatizados por tudo o que se passou.
Mas não, isso é um disparate. Nós somos adultos, e os adultos não se traumatizam. E essa é que é a verdade.
23 de Abr de 2009
VERDADE SEJA DITA
O Manel Cada Olho, porém, era homem de palavra. Coisa assumida, coisa garantida. Teve foi a infelicidade de ficar pelo beiço, logo que encarou a Panca d’Ares. Moça do centro da vila, embora residente na Rua do Poço, em casa de telha vã junto ao muro da Quinta do Saloio, não era fruta de se deixar colher por um qualquer. Dizia-se até que nem sequer do ramo alguma vez tombaria. Mas o Cada Olho, perdido de amores desde a feira dos alhos, não deu o braço a torcer diante dos amigos e do diz-se por aí. Qual galã de fotonovela, tanto lhe rondou os ares e as missas ao domingo que acabou por levar a água do poço à sua horta. A Panca d’Ares tombou do ramo, perdida de madura e de pé contra o muro do Saloio, num final de tarde e folhas douradas a rodopiar ao lusco-fusco, regressava ela de rezar as vésperas.
Não foi muito repetida, a aventura. Em sabendo que o Benfica deixara de jogar em casa, Manel Cada Olho cuidou de todos os trapinhos, sem dar azo a murmuração. Desmaiada de cores, salvo no negro dos olhos e cabelos escorridos, a mulher era um anjo, a seu ver e amar simples. Contudo, a Panca d’Ares saíra à falecida mãe. Herdara-lhe o sobrenome, o hábito, o sangue e os humores. Saia preta plissada e camisinha branca, de casa para a igreja. Ou saia preta comprida e camisinha roxa, da procissão para a Rua do Poço. Acresce, ainda, que tal como à progenitora sucedera três vezes, também a si e logo à primeira lhe aconteceu a desgraça de não conseguir levar a bom termo a gravidez. Perdido o rebento, que na sua convicta devoção a Sto. António seria rapaz e futuro franciscano, embrenhou-se de vez num esconso sentimento de culpa, que Cada Olho, então ainda de poucos copos, mas muitos calos e leiras, desistiu de entender.
Passaram-se meses e meses de velas acesas, com cada vez mais santos nas paredes e cantos da casa, de S. Teotónio à Rainha Santa Isabel e da Beata Sancha de Portugal e irmãs ao então também Beato Nuno, passando por um longínquo S. Torcato e quase todos os lá de fora, mais venerados. O todo era completado de esmolas e terços e vigílias e ainda o jejum à sexta e a catequese ao sábado. Sem calor, Cada Olho esmoreceu. Eram distantes, os fins de tarde e as folhas douradas a cantarem vésperas. Uma feira de Sto. André trouxe-lhe, em boa hora, bom negócio e melhor bebedeira inicial. Vendeu a leira, desceu à casa de telha vã habitada de incenso e imagens, deixou metade do lucro no altarzinho de Nossa Senhora das Dores, subiu de novo ao largo, apalavrou uma motorizada vermelho berrante, entrou na Perdiz Branca e acabou a noite numa das bermas da Rua do Poço. Quando o fresco da madrugada e os galos o acordaram, seguiu em direcção ao Canal e à oficina do Ti Adelino. Com o sol ainda à sua esquerda, já rolava estrada fora e aos ziguezagues, sabe-se lá para onde.
Não foi longe. Ficou-se pelos confins do Lugar dos Moinhos, em casa térrea cedida por um primo, com vista para eucaliptais e apito de comboio de quando em vez. Trocou a lavoura pela talocha e a colher de trolha e só voltou à terra anos após, ao saber que a mulher se havia finado como uma virgem, sentada num banco corrido da sacristia, de terço nas mãos. Nem um santinho lhe testemunhara o passamento. Fora-se sozinha, agarrada à sua crença. O Manel Cada Olho custeou-lhe o enterro, mas não abdicou da sua razão. Afinal, a verdade tem sempre três lados, e a ele já pouco lhe importava qual o certo, se o seu, se o dela, se o outro, mar onde só em aflição se navega à bolina.
Do funeral foi direito a uns branquinhos na Ti Constança, depois na Tasca do Jagoz, depois na Perdiz Branca, onde deixara a motorizada. Com a mão de Deus à pendura, lá chegou a casa. Adormeceu sentado num mocho, meio encostado à parede da cozinha, com os pés encharcados de sopa e tinto, entre os cacos de uma malga e de uma garrafa partidas. Daí em diante, nunca mais curou a bebedice. De capelinha em capelinha, aos tombos ou aos esses na martirizada motorizada, tornou-se popular em todas as redondezas do Lugar dos Moinhos, onde nunca alguém arriscara abrir uma taberna, pequena e escura que fosse.
Acarinhado ou alvo de troça, todas as noites tentava o regresso. Mais de uma vez cambaleou quilómetros, por não conseguir pôr a trabalhar a fiel companheira. Mas nunca desistiu, pelo menos até dar lume a uma alma penada. É que ele há frios fantasmas fumadores, posterior palavra de Manel Cada Olho. O caso ocorreu por via de uns amigos da onça, sempre prontos para mangar com ele. Dessa feita, vendo-lhe o estado, chegaram-se à motorizada e tiraram-lhe o cachimbo da vela, de modo a que não desse pela marosca. Depois, conhecendo-lhe os passos, encheram um balde com gelo e plantaram-se no escuro dos ciprestes, junto à porta do cemitério.
Ao vê-lo aproximar-se aos palavrões a cada tropeção, um deles mergulhou as mãos no gelo, tirando-as do balde apenas quando deixou de as sentir. Saiu então da sombra, curvado e perguntando:
– Ó amigo, arranja-se aí um cigarrinho e lume?
Por entre os vapores do costume, Cada Olho não estranhou nem a figura esbatida na noite nem o pedido meio cavernoso. Levou as mãos ao bolso do colete, sacou o maço de Definitivos e à terceira tremelicante tentativa estendeu-lhe um cigarro. Mais cambaleio, menos cambaleio, seguiu-se o hesitante fósforo aceso. O outro, de mãos em concha para proteger a chama, roçou-lhe nos seus os dedos roxos:
– Porra, homem! Você tá gelado!
– Pudera, amigo! Tou ali enterrado há dezoito anos, saí agora só pra fumar um cigarrito...
Parece que a resposta lhe sarou de imediato a bebedeira interminável. Dizem que foi só olhos, boca aberta e pernas para que vos quero. Dizem, mas o certo é que no dia seguinte o ouviram a praguejar junto à motorizada, que arrancou logo depois em alta rotação. Não entrou na tasca, e a quem lhe disse bom-dia tartameleou apenas a impressão da alma penada a cravar-lhe tabaco. Ninguém mais o viu. O primo foi dar com ele na cama, sem vida, uma mão na boca atulhada de cigarros e outra, cerrada, amachucando um maço de Definitivos.
Verdade seja dita, certos aqui só os nomes. E a casa nos confins do Lugar dos Moinhos. A vista é a mesma, o comboio ainda apita. Todavia, está toda em ruínas. Silvas, ninho de vespas, armário de roupa grosseira, traças e baratas. Uma televisão a preto e branco perdida no escuro, uma enxada de pontas enferrujada, dependurada numa das traves do tecto do telheiro, mesmo por cima de uma EFS 301M Dunia, cinquenta centímetros cúbicos de cor indefinida, talvez vermelha, junto a uma janela sem vidros, aberta para os eucaliptais. Um tresvario de recordações.
22 de Abr de 2009
Sei Que Não Vens...
Ai como te amo! Como gosto de te mimar de te fazer feliz. Aí reside a minha maior felicidade, na constatação de que te faço feliz. Aí tudo vale a pena. Toda a dor é recompensada. Todas as lágrimas evaporam pelo calor do teu sorriso. Tu fazes-me tão feliz! Consegues despoletar as minhas gargalhadas como ninguém. Eu rio e rio e esqueço que nem sempre há motivos para rir. Nesses momentos parece que nada nem ninguém pode interferir connosco, com as nossas gargalhadas, com a nossa felicidade. É tão maravilhoso partilhar contigo! Partilhar gargalhadas, sorrisos, beijos, pele, corpo. Partilhar as vitórias, as descobertas, um jogo de futebol, um café, uma paisagem, uma cama, uma cerveja, uma banheira, uma anedota parva, uma fantasia, um livro, uma viagem, uma memória, uma vida!
Esta é agora a minha forma de partilhar contigo.
Após passar algumas horas neste solitário convívio contigo, decidi vestir aquele vestido beige e bordoux, que adoras e ir ao teu encontro. De caminho, apanho um ramo de madressilva.
Subo a colina, passo o grande portão verde e dirijo-me àquela pedra branca e fria, que cobre agora esse corpo que conheço tão bem como o meu próprio. Pouso o ramo de madressilva, fecho os olhos e sinto o calor do teu sorriso.
18 de Abr de 2009
A festa
Num dos bolsos do meu vestido/bibe levava rebuçados brancos, de côco, embrulhados num pequeno quadrado de papel branco e vermelho - cores pavlovnianas, cujo o resultado, era o de alimentar as cáries dos meus dentes de leite.
O meu irmão atrasava a família entretendo-se com o seu arco de uma bicicleta há muito extinta. A minha mãe e os restantes elementos da família vinham afastadas uns cinquenta metros atrás de mim. Todos quisemos ir à festa, mas eu queria chegar primeiro, para ser também, a primeira a ter uma opinião.
A rua acidentada desorientava-me os passos, tinha que me desviar constantemente para contornar as poças de água e lama. Do lado esquerdo havia um chafariz público, onde a água escorria livremente, gratuita para consumos úteis e inúteis. Esta água alimentava uma rua de quase um quilómetro onde, nenhuma planta escolheria tal lugar para nascer sem correr o risco de ser repisada até, não ser mais nada.
Como eu levava alguma vantagem no caminho, fui a primeira a passar pelo o canavial. Por detrás das canas estavam pelo menos duas pessoas que trocavam incompreensíveis gemidos de prazer. Embora eu não compreende-se tal exposição embriagada, era para mim tão banal como passar pelo chafariz, ou talvez, como quem observa mulheres e crianças, carregando jarros de plástico azul cheios de água para dentro dos seus lares, era tão banal como não haver água canalizada.
Sonho muitas vezes com esta Azinhaga. Voltar a ela é como falsear a ideia que tenho da nidificação. No meu sonho é sempre noite, na Azinhaga dos Besouros. Tudo está silencioso, a viela deserta de pessoas está, no entanto, cheia, velada pela névoa e pelo lusco-fusco dos paus de electricidade, que sustentam uma lâmpada tosca e debilitada, que vigiam os meus passos em direcção à loja, para roubar rebuçados de côco.
Atravessámos a estrada para, enfim, nos encontrarmos de frente para o Quartel Militar. Estávamos em Abril, no dia 25 de 1974, a minha mãe fazia anos, mas esse facto foi esquecido por todos os membros da família, mas ela, creio, que nunca nos censurou por isso.
Subitamente, os soldados começaram a elaborar uns estranhos jogos acrobáticos para apanharem os cigarros que o povo, forçosamente, lhes queria oferecer pelas janelas diminutas do quartel - eu também já tinha fumado uma vez, mas sem dúvida, preferia o outro presente, talvez por ser mais atraente e mais colorido: os cravos vermelhos.
A festa estoirou florida de vermelho, dando um enorme ânimo ao acontecimento. As pessoas chegavam fazendo muitas para depois se transformarem num único número. Nós riamos ao querer acompanhar uma ladainha cantada (“O povo unido, jamais será vencido”) de significado para nós alheio. Cada membro da família foi prendado com vários cravos e como éramos quinze pessoas ao todo, decidimos vendê-los. E por fim, acabámos numa pastelaria a comer bolas de Berlim e a beber laranjada.
Recordo que todos gostámos da festa. Creio que a para minha mãe, foi talvez o seu melhor aniversário. Quanto a mim, não mais voltei a encontrar um lugar para surripiar rebuçados de côco.
27 de Mar de 2009
Dar o corpo ao manifesto
Longe de ser um corpo sensual, eu tinha no entanto, um corpo perfeito. Perfeito, no que se consideram medidas criteriosas e socialmente aceitáveis. Sempre tentei ter uma relação amigável com o meu corpo, mas só de longe a longe é que experimentávamos uma agradável simbiose.
Até agora ainda não descobri se era o meu corpo que me obedecia ou se era eu quem tinha o papel de decisivo nas acções e nos pensamentos. Achei-me muitas vezes contrita com ele, principalmente nas dores físicas, na doença, ou, quando simplesmente, não me apetecia carregá-lo comigo para todos os lugares. Era sempre assim: se eu queria ver o mundo ou estar com alguém ou apenas estar sozinha, ele estava sempre presente, estóico fingindo que não me conhecia pretendendo que eu me esquecera dele como fardo. Contudo, não poderei negar que neste tempo infinito convívio ele já me proporcionou bons ensejos. Mas ainda assim, continuava a ser fatigante: lavá-lo todos os dias, manter a pele com ph equilibrado e bem oleada para disfarçar as agressões externas a que ele estava permanentemente sujeito. Alimentá-lo, agasalhá-lo com camadas de roupa que me atrapalhavam os pensamentos. Quantas noites, ele não se venceu pela insónia obrigando-me a adormece-lo com chás ou outras drogas. Sempre tentei dar-lhe o que me exigia, mas para ele, tudo era insuficiente. Em resultado castigava-me revelando o meu medo, a fragilidade, a vergonha ou outra expressão de embaraço. Eu combatia-o da forma que podia e sabia, mas verificava que meu combate era inglório por ser desigual.
A minha paciência não era sempre a mesma, por vezes era acometida pela ira e uma vontade tamanha de o ignorar para sempre. Mas reconheço-lhe soberania e inteligência, sendo que, não me resta senão obedecer-lhe para assim não sofrer represálias injustificadas.
Estávamos na época das insónias, fiz como de costume, droguei-o mas sem resultado. Provavelmente porque eu estaria a resistir contra o efeito da droga, enervava-me ter que lhe obedecer neste aspecto. Ele que comprasse a sua droga com o seu próprio dinheiro! Eu não beneficiava nada com estes pensamentos pois tinha a obrigação de o acompanhar em busca da sua própria paz, para consequentemente, ter a minha também.
Era de madrugada, chovia e fazia frio. Quando estávamos na rua eu deixei escapar um certo sorriso irónico por não ser apenas eu a única quem sofria. A minha irritação quando elevada era vingativa e quente ao contrário do que se pensa. Tinha apenas vestido um conjunto de fato de treino amarelo, cor que eu sabia que lhe desagradava. Ignorei-o quando ele ainda hesitou o passo dando a entender que queria voltar a casa para ir buscar o seu casaco castanho de felpa que tanto adorava.
Quando combinámos em sair não foi para ir a uma farmácia, porque sem receita médica ninguém nos venderia droga. O nosso acordo baseava-se numa ida ao The Tavern, uma discoteca/bar que ficava na de west end em Londres.
Quando chegámos fomos bafejados por uma espécie de ar sem ar, uma mistura de transpiração, luzes, cheiros difusos, fumo e vapor oral de centenas de bocas tendo como pasto uma atmosfera viciada.
Eu estava exausta, mas não tinha outra solução senão ajudar terminantemente o meu corpo a cansar-se. Ele quis dançar e beber, e eu, obedeci providenciando-lhe na perfeição uma imagem normal de quem está só. Ele sabia que eu estava contrariada, dizia-me para eu descontrair, deixar-me ir... mas ir para onde? eu apenas aspirava uma cama.
A madrugada avançava e ele sem dar sinais de cansaço. Eu sabia que dali a horas eu é que sofreria com isto tudo: iríamos estar invertidos, ele a desejar uma cama e eu a tentar concentrar-me para executar correctamente o meu trabalho, com tanta bebida era óbvio que se adivinhava uma valente ressaca. Para minha surpresa, ele deixava-me beber alguma água evitando assim uma maior dor de cabeça. Com tanto líquido era inevitável que eu o não carregasse de 5 em 5 minutos para a casa wc.
O acesso ao wc era pitoresco, as portas eram iguais àquelas que vêem nos filmes de cóbois, abriam ou fechavam de par em par. Às vezes era complicado e até perigoso se alguém se cruzasse, podendo entalar os dedos ou mesmo o nariz. Mas esse facto importava mais ao meu corpo do que a mim, eu desfrutava do seu sofrimento como forma de o fazer desistir da bebida.
No wc fomos vedados por uma rapariga ebriamente bem disposta que perguntou se eu procurava alguma coisa. O meu corpo ficou hesitante enquanto eu, lhe respondi que estava à procura de mim mesma. Ela sorriu e disse que eu não estava ali, se estivesse, ela já me teria visto antes. O meu corpo começou a agitar uma das pernas como que a dizer-me que teria de urinar. Eu não queria acompanhá-lo, pois pressenti que a rapariga ainda me veria a ser útil. Dada a insistência da necessidade física, não tive outra alternativa senão ousar e pedir à rapariga que me esperasse por dois rápidos minutos.
Enquanto urinava o meu corpo tinha-me dito que não queria estar parado a falar, apetecia-lhe dançar. Eu calmamente disse-lhe para ele ter paciência e inventei que queria falar um pouco com a rapariga porque suspeitava que ela tinha droga. Ele concordou em manter-se quieto recomendando-me ainda assim, que não me entusiasmasse muito e não o esquecesse, disse-o com um tom de desdém e de ameaça, fazendo-me prometer que eu seria breve na minha vulgar sedução.
Enquanto lavava as mãos, vi pelo espelho que a rapariga continuava a sorrir.
Ao longo da minha existência nunca encontrei suficiente aptidão para falar de nada elevado, ficava-me por perguntar o nome ficando à espera do que sucedesse. Desta vez nem o nome lhe perguntei e ela fez o mesmo. Perguntou, isso sim, porque é que eu tinha uns olhos tão bonitos. O meu corpo reagiu de imediato – este assunto afinal era com ele. A sua questão colocou-me numa armadilha, eu não percebia se a questão era retórica ou não. E ela continuou a dizer que tinham uma cor indizível e eu pensei que ela estaria com alucinações pelo que bebera, mas não dei voz a esse pensamento, apenas respondi com um sorriso agradecendo o elogio. O meu corpo avançou para ela como a comunicar um certo magnetismo, eu não queria ser assim tão atiradiça, mas não conseguia controlar esse movimento. Assim, mais perto dela, verifiquei que também ela tinha olhos bonitos mas não lhe perguntei o porquê. Olhava-me com uma intensidade constrangedora elogiando-me agora a boca, perguntando-me uma vez mais, porque era assim tão bem desenhada e bela. Queria dizer-lhe que tinha resposta para essa pergunta mas era segredo, o meu corpo nunca assumiu aquela vez em que injectou uns miligramas de esticador. O meu corpo dengoso e insinuante chegou-se ainda mais à rapariga e ela que estava ébria mas não disléxica, colocou as mãos no meu corpo. E desta feita, como se não soubesse outro vocabulário, perguntou porque é que tinha um corpo tão aprazível apesar de não chamar à atenção. Este elogio foi tão eloquente quanto a proposta que lhe acabava de fazer: se o meu corpo te agrada, ofereço-to.
Ela inclinou a cabeça para trás mostrando as artérias inchadas do seu pescoço, mas eu não sabia bem o significado desse gesto: se ela estaria a analisar a oferta, ou se estava feliz e aliviada por encontrar um corpo, que com agrado, eu lho dava a troco de nada.
Por fim deu-me a sua morada, disse-me que estava acompanhada e não queria que a vissem sair com outra pessoa, precisava apenas de meia hora para comunicar que se iria embora. Anuí e combinámos encontramo-nos à entrada da sua casa.
Eu e o meu corpo ficámos ainda alguns momentos plantados no wc tentando cada um à sua maneira recompor-nos para nos fazermos ao caminho. Eu não queria dialogar com o meu corpo com receio de o dissuadir a mudar de ideias, e ele fez exactamente o mesmo pois estava cheio de lasciva prometida.
Felizmente que a rapariga morava perto, encontrámos a rua e depois a casa.
A noite de tão longa que ia tinha parado de chover, os degraus de entrada estavam secos e sentámo-nos neles: eu e a figura de fato de treino amarelo. Pelo menos duas meias horas passaram, o meu corpo começava a dar sinais de cansaço enquanto eu fingia adormecer para não lhe revelar o meu plano.
Quando a rapariga chegou pegou na figura amarela adormecida, carregou-a para dentro casa, enquanto eu, no sentido oposto, me esgueirava abandonando-os para finalmente apreciar a etérea liberdade de não possuir um corpo.
23 de Mar de 2009
CRÓNICA DE SONO E INSÓNIA
Sono. Silêncio húmido. Tédio. Ninguém se passeia pelas sombras da cidade. Nada tuge, nada muge. Repentinos bramidos, trovoada longínqua. Presságios rasgando a luz o horizonte lá no fundo da Maxixe, do outro lado da baía. Breves suspiros de brisa carregam consigo mãos cheias de ar quente, despertando lânguidos suspiros na ramagem das palmeiras, enquanto me perco no meandro dos passos, no fio do pensamento, fantasma sem destino.
Um cão segue-me, fareja-me a meada dos sonhos. Não me teme. Não me liga. O faro sossega-o, fá-lo sentir a indiferença calma que só a confiança mútua gera por vezes, e o instinto assegura-lhe que como ele também sozinho lambo feridas, também enlevado acaricio saudades.
Um cigarro perto do mar. Perante o mar a solidão não se torna tão aguda, tão carcomida. As ondas embalam o abismo do céu, escuras, solidárias, constantes, sugerindo travessias e riscos, alísios e monções, outras paragens, outras viagens. As ondas são um apelo, talvez um grito que se receia e recusa. E a sua espuma, a espuma das ondas e dos dias, desfazendo-se branca na areia suja da praia ou do tempo, multiplica incansavelmente a verdade da terra, o cansaço da cidade.
A cidade. A cidade e os seus apesares. Apesar do enfado e da pouca vontade, da guerra e da pouca sorte, da esperança e da pouca fé ou das idas que se esperam e se não fazem, apesar de tudo e de nada, a cidade não nos priva assim tanto desta vida, deste embaraço.
Volto costas ao xicuembo negro da baía e sento-me na segura certeza de uma das pedras do esquecido cais. Ratos velozes disputam esquivos grãos de milho fugidos de atentas mãos que sôfregas os já haviam catado aquando do último descarregamento, derradeiro matabicho. As baratas deambulam indiferentes, cientes da sua imortalidade. Noutro canto, alguém lança num gesto infindável, num movimento paciente, uma outra vez uma outra linha à água. Num encolher de ombros sem sentido, também eu deito a beata ao mar, na inconsciente repetição do gesto infindável, do movimento paciente do pescador na outra ponta do cais.
Fixo então os olhos nos olhos do coração dela, da cidade tão mansamente entorpecida pelo sono, pelo tempo, perene cuidado. E é ao encará-la assim tão de caras, tão de chofre, que reconheço finalmente que a não possuo toda, que a sinto apenas. Acho que a desvendo. Será que a amo?
Outro cigarro, paciência. Vejo-a, escondida por detrás dos pálidos candeeiros da marginal, envergonhada por estar assim tão apagada. Vejo-a, afinal. Nua e irrequieta no sono. Caniço. Batuques na noite, altas bangas de sura, latas de água e suor, lenha e labirintos, ilusões e panos velhos, mamanas e pilões, coqueiros e mufanas, madalas e estórias, amores furtivos, sonhos fugitivos. Ou de pijama, esparramada entre lençóis e preconceitos. Cimento. Rádio Five no xirico, whisky de candonga, business e trabalhinho, directores e balalaicas, enferrujados carretos, amores furtivos, sonhos fugitivos. Pobre no caniço. No cimento pobre.
Mas atenção! Se a alegria ainda brota no antigo sorriso das mulheres, na roda de luz de um velho xiphefo, é porque na miséria deste agora sem dúvida longo, áspero, a esperança ainda reside decerto nas raízes aqui e ali endurecidas, de tão fundo enterradas na procura da água, na sede da vida.
A beata queima-me a ponta dos dedos no fio das palavras, espigas sem corpo. Largo-a com uma praga que uma rabanada transporta longe, empurrando a réstia de luz, breve a apagando. Um trovão clama bem alto o seu poder. Vibra o cais. Barcos rangem, assustados. Baratas e ratos escapam-se por entre grossas gotas de chuva. O cão abriga-se, rabo encolhido, debaixo de uma pilha de travessas de madeira. O pescador desapareceu por artes mágicas. As linhas retesam-se, assobiando o queixume do vento. Um fio de água arrasta impassível um impotente grão de milho, que cai na escura água do mar. Um rápido clarão deslumbrante acompanha-o, reaviva-lhe a cor de ouro, de suor, de pão, que o milho tem quando maduro na machamba que falta na xima das gentes.
Agiganta-se o temporal. A noite despeja agora uma espessa bátega de água, desabando tumultuosa sobre a terra, a insónia que me arrasa, me desperta. Entontecido, busco refúgio no abrigo ali mesmo onde se apanha o Mutamba, o barco para o outro lado, ali mesmo onde se espera. Um mufana dorme no frio mais cinzento do banco. Encolhido, procura proteger-se da chuva que lhe encharca o futuro. Nas quimeras do sono recria o aconchego do útero da mãe que lhe falta.
No seu sonho não há chuva, não há frio, não faltam machambas de xima. No seu sonho há palavras que se não dizem, frases que não se escrevem. No seu sonho há verdades que se berram alto.
2 de Mar de 2009
Ao Virar da Esquina
Não se podia dizer que tivesse muitos problemas, que não sabia como resolver a sua situação. A questão era exactamente não ter. Não tinha alguém com quem partilhar aquela solidão ensurdecedora, nem um trabalho particularmente agitado, filhos que lhe dessem preocupações ou uma mãe velhinha e entrevada, de quem tivesse de cuidar.
As cartas+que recebia eram, essencialmente, contas para pagar, ofertas de crédito e outras mensagens publicitárias.
Há muito que mandara retirar o telefone fixo, que só servia para receber chamadas de telemarketing. A sua janela para o mundo era o seu computador, onde, através da internet, comunicava com centenas de desconhecidos, para os quais criava as mais diversas personagens.
Experimentou tudo; ser homem, mulher, médico, bombeiro, engenheiro, cozinheiro, etc. Cada vez que ligava o computador, decidia quem iria ser nesse dia. Poderia depender dos mais diversos factores; de algo que se passara no trabalho, de alguém com quem se tivesse cruzado na rua, de um filme que tivesse visto ou de uma noticia de jornal. Então, passava uns momentos a interiorizar a personagem, traçava mentalmente as linhas gerais da sua personalidade, do seu aspecto físico, da sua história de vida. Mergulhava no seu mundo virtual, já perfeitamente incorporado naquela pessoa que decidira ser. Entrava em salas de conversação, entabulava conversa com alguém que lhe despertasse a atenção ou que me metesse com ele. O tema não era previamente seleccionado, nem a sua opinião sobre um mesmo tema era constante. Não era a sua posição pessoal que transparecia, mas a da personagem que estava ali a representar. Por vezes estabelecia contactos com um teor mais íntimo. Teve mesmo vários relacionamentos, que duraram algum tempo, mas isso coloca-lhe alguns problemas de conflito de personalidade. Se era o engenheiro que inicia a relação, no dia seguinte, não podia ser o padeiro a aparecer. Havia dias em que tentava manter conversas paralelas; o bombeiro falava com uma pessoa, enquanto a bailarina falava com outra. Mas isto acabou por provocar sempre lapsos difíceis de explicar, com o bombeiro a falar do maravilhoso Lago dos Cisnes e a bailarina a referir-se a si própria no masculino.
Uma vez começou a falar com uma professora, trinta e seis anos, alta, cheiinha, mas sem ser gorda, que partilhava os seus gostos melódicos e literários. Nesse dia era o bibliotecário. A conversa foi fluindo sem qualquer dificuldade. Tinha a certeza da sua sinceridade.
As outras personagens foram postas de lado. Todas as noites tinham longas conversas através da internet. Dai passaram para o telemóvel. Como a voz dela era terna... Sentia um certo peso na consciência. Desde a sua primeira conversa, tinha contado varias mentiras; desde a profissão à sua aparência física, passando pela idade. À medida que se foram conhecendo, primeiro pelo computador, depois por telefone, ia-se sentindo pior, especialmente por estar seguro da sinceridade dela. Como quem não quer a coisa, foi-lhe dizendo que tinha engordado uns quilos, que estava um pouco envelhecido para a idade. Ela respondia-lhe que não avaliava as pessoas pela sua aparência, que o valor humano estava na essência. Ganhou coragem, convidou-a para um café. Primeiro, ela mostrou-se reticente, mas acabou por aceitar.
Marcaram encontro numa esplanada. Ela levaria uma revista “cor-de-rosa” na mão e vestiria um casaco vermelho; ele levaria uma rosa vermelha e usaria um fato azul. Estava muito nervoso, não sabia como ela iria reagir. Por certo ficaria decepcionada, pois ele não correspondia ao que tinha dito. Resolveu chegar atrasado, talvez pudesse ficar a vê-la de longe, seria mais fácil aproximar-se depois.
Acabou por se atrasar mais do que pensava, o metro avariou. Já não teve tempo de se posicionar estrategicamente para a observar, porque assim que entrasse na rua, teria logo a esplanada no primeiro prédio.
Ao virar da esquina reconheceu-a imediatamente. Aliás, a esplanada estava praticamente vazia, além dela, estava apenas um sujeito barbudo a ler um jornal. Lá estava a sua mulher misteriosa, casaco vermelho, revista “Maria” ostentada como uma bandeira, uma mini-saia (que quase não se via) amarela, que condizia perfeitamente com o seu cabelo louro oxigenado, com umas consideráveis raízes grisalhas. Umas meias de rede faziam as suas pernas parecerem dois rotis bem fartos, prontos a entrar no forno, encimavam um par de sapatos de salto alto, descascado, de plástico vermelho. O conjunto finalizava numa maquilhagem que juntava uma sombra azul-turquesa com um baton vermelho vivo, que se abria num largo sorriso.
- Leonardo?- Desculpe? Está a falar comigo? Deve estar enganada. Boa tarde.
21 de Fev de 2009
Ao Virar da Esquina.
As grandes questões são importantes na vida, pelo menos para quem se preze de algum pensamento sobre aquilo que o rodeia, mas as pequenas questões são a própria vida, a sua matéria e substância. As grandes questões são a arquitectura da existência, mas os seus tijolos são os meros factos triviais, pequenos nadas que de uso nos surdem ao virar de cada esquina. Também aí se deixam encontrar algumas surpresas, que são considerável matéria-prima na construção diária de nós mesmos. Cada esquina, assim encarada, é um potencial repositório de importantíssimas minúcias e bagatelas, e outro bric-a-brac quotidiano. É que nem tudo nesta vida tem de ser portentoso, que diabo!
A esquina distava talvez umas escassas centenas de metros, e nem assim se deixava vislumbrar. Tenho já calcorreado mais cidades do que poderia nomear numa tarde comprida, todas elas repletas de esquinas, mas nunca cheguei realmente a habituar-me a elas. As esquinas são coisas que assustam, talvez por não serem realmente coisa nenhuma. Se me acontece percorrer uma rua, a esquina que à distância vislumbro não é senão uma quebra de continuidade, uma falha na via por onde sigo, a promessa de um caminho novo, invisível por enquanto. Estuguei o passo na curiosidade de ver o outro lado, no arquejo das surpresas, dos detalhes, de tudo o que não terá jamais um sentido supremo, mas que não deixa ainda assim de nos dar sentido a nós. A esquina estaria talvez a coisa de dez metros.
Ocorreu-me nessa altura, nem sei bem porquê, que talvez houvesse do outro lado um circo. Isso seria belo, um circo com domadores e trapezistas, leões e palhaços, e a promessa de bailarinas com lantejoulas. Mas não, pensou a minha desilusão, o mais certo era ser apenas mais do mesmo, caixotes e bancas de jornais e uma calçada brilhante de sol, estendendo-se a perder de vista.
Acabou por não ser nada disso, como nunca é, não na vida real, pelo menos. Ao virar da esquina, não vi nada de novo, nem sei por que razão me achei a ver o mundo todo de novo. Vi algo normal e espantoso, tão mundano como uma banca de jornais, e que voava mais alto que todos os trapezistas do mundo. Estaquei ao virar da esquina, incapaz de perceber com que justificação continuava o mundo a girar, sem fazer caso de tão quotidiano prodígio. Hesitei, seguir em frente parecia-me fora de questão, virar a esquina era perder o meu caminho, a minha rota, e há quem tenha essas coisas por relevantes.
Ainda me encontro especado nessa esquina, aguardando a resposta que seguramente não virá. Talvez me tenha enganado quando comecei a escrever isto, é bem possível que seja tudo menos banal o que se encontra ao virar da esquina.
É no entanto interessante observar as pessoas que passam apressadas, e entreter-me a contar quantas delas chegam de facto a chocar comigo. Choca sempre muita coisa connosco, quando estamos parados ao virar da esquina. Coisas como aquele autocarro, por exemplo, que tão seguramente desce na minha direcção. Ociosamente, interrogo-me de onde virá, e se terá também dobrado uma esquina.
11 de Fev de 2009
LOGO ALI, AO VIRAR DA DITA
Assim, à distância do tempo, fica apenas a lembrança da velha de negro, vestida de mãos austeras. Uma de duas maleitas a trazia: ou tinha o miúdo virado o bucho ou nele andavam assustadas as lombrigas, infantis achaques provocados fosse pela traquinice de rédea solta fosse porque o pai tinha a mania de o atirar ao alto em bebé, para logo o resguardar no carinho dos braços. Brincadeira, em ambos os casos. Seja como for, certo é que emagrecia a olhos vistos.
Por isso, chegava a visita a cada entardecer, com as mãos calejadas untadas de jeito e azeite morno a massajar-lhe o ventre, mais a ladainha e as folhas de couve aquecidas ou a enxúndia de galinha apertadas em torno dos rins, no sufoco de uma toalha também quente. Choramingava, mas nada feito. A velha forçava-o à deita e virava costas, seguida da sombra solícita da avó. À hora da ceia, era a mãe quem lhe trazia o caldo. E era também comer e dormir, que ali se seguiam à risca as mezinhas da senhora de negro e não seria ele, um fedelho ainda, a virar-lhe a cabeça. Libertava-o do aperto e do cheiro das couves ou da gordura galinácea, entretanto arrefecidas, aconchegava-lhe os cobertores e, findo o Pai-Nosso, dava-lhe a bênção, apagava de um sopro a candeia e saía. Enfim. Com tantos desvelos, se o bucho tinha virado, direito ficou. Ou, se as lombrigas tinha assustadas, calmas ficaram. Recuperou peso e cabeça, virou a página da infância.
Fez-se homem. Contudo, quando de virar se tratava, sempre de pé atrás se deixava ficar. Surgisse ou não o verbo na ponta da língua do mais corriqueiro lugar-comum, logo ao olfacto lhe vinham as mãos da velha a dar-lhe a volta à barriga. Traziam-lhe pele de galinha, esses ditos populares. Arrepiavam-no tanto mais quanto todos, nas suas redondezas, neles insistiam para lhe apontar a dita malvada, a sina que a cada passo lhe virava a vida do avesso. A mulher enganou-o, virou-lhe a honra noutros lençóis. O banco de sempre virou o bico ao prego e negou-lhe o crédito prometido. O melhor amigo virou a casaca e nunca mais o recebeu em casa.
Tempos de crise, coisa antiga, tão velha quanto o buxo virado, as lombrigas aos saltos, as bexigas loucas que também lhe haviam acontecido. O mundo de pernas para o ar logo ali, ao virar da esquina. Mas essa era dita que não aceitava de qualquer jeito. Andou tempos sem fim à volta de ruas, por portas travessas e outras esperanças, à espera vá lá saber-se do quê. Para uns, aguardava-o a felicidade, a surpresa, a solução. Para outros, o azar, a tristeza, o pesadelo. Cansado, quase desistiu, convencido que a cada virar nada se sabe sobre o que pode acontecer.
Resolveu, aí, virar cada esquina no ponto exacto, opção volátil, tomada apenas pela absoluta necessidade de não fugir de nada, nem sequer dos incómodos do passado. A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem, assim, de repente, ao virar da dita, seja ela a esquina do Sardinha, emblemática da terra e cantinho de reformados, ou canto tramado onde decisões se tomam, seja ela o fado de ficarmos sós, a olhar a sorte dos outros, nós, irmãos.
9 de Fev de 2009
A talhadeira
- Quando acabares de almoçar, vais ali, às Fontainhas, à obra do Zé da Paula, e dizes-lhe que vais da minha parte buscar a talhadeira que agora está aqui a fazer falta para o trabalho da parte da tarde. Muito urgente, não te distraias no caminho pois aqui a obra não pode ficar parada.
-Onde é que fica a obra do Zé da Paula?
-Mal entras na rua principal, passas a fonte, fica logo ali, ao virar da esquina.E nada de desculpas. Ele que a devolva pois já a lá tem há demasiado tempo.
O rapazito foi a correr para ir num pé e vir no outro. Nem sabia ele que teria de vir nos dois pés, que o carrego era redobrado. A combinação acertada para afinar aprendizes.A talhadeira – para quem não sabe (e a vítima nunca o sabe) - era uma pedra relativamente pesada dentro de um saco de lona cosido, fechado e sem pegas para que o carrego não fosse uma leve pena. O desconforto era uma constante nos quinhentos e tal metros que decorria o frete.
-Não deixes cair a talhadeira senão pode-se partir e o teu patrão dá cabo de ti. Olha que ela vai inteira, não me ponhas em trabalhos – disse ao despedir-se distribuindo um olhar gozão em torno dos seus homens.
A pé e num sobe e desce em calçada escorregadia, de estranhar era que a talhadeira não se partisse. Lá foi ajoujado na direcção da casa de partida, talhadeira ao ombro, sem quase parar para respirar. Ao chegar – a recompensa – o olhar malandro como máscaras coladas aos rostos num Carnaval serôdio. O riso a rebentar a toda a volta em gargalhadas de cascata num insulto incomensurável até doer lá no fundo.
8 de Fev de 2009
O Consumo
Nunca, até ter conhecido a Elsa, ocorrera a Raul preocupar-se em demasia com a questão das raparigas. Não se quer com isto dizer que não fosse ele apreciador, muito pelo contrário, já que era bem raro encontrá-lo desprovido de uma qualquer companhia feminina, calhando por vezes tratar-se da mesma da véspera, mas mais frequentemente de alguém inteiramente diferente. Não que não fosse selectivo, que nenhuma delas se apresentava de feição a envergonhar o seu acompanhante, mas isso é artigo de que há um vasto mercado, desde que se saiba escolher, e Raul não hesitava em fazer valer as suas mais-valias, passe a aparente redundância. Foi então que lhe aconteceu Elsa.
Elsa era a primeira estrada de dois sentidos que encontrava, a sua primeira transacção a dois, novel especulação que o fascinou, e cedo se desataram a consumir um ao outro. Rapidamente esgotando os dividendos dessas aquisições de impulso que se iam mutuamente perpetrando, decidiram fidelizar-se cada um à oferta do outro, e casaram.
Durou ainda uns sólidos seis meses, aquela maratona desenfreada de consumo, em que a mobília do quarto assistiu a caprichos aquisitivos de bradar ao kama-sutra, numa vertigem de melhor se adquirirem, melhor e sobretudo mais, sempre mais. Peritos não solicitados, gente em todo o caso experimentada nestes mercados matrimoniais, foram alertando para o risco da bancarrota eminente, mas eles pouco caso fizeram de tais avisos, que a fidelização era total, e o apelo de um deles se deixar vislumbrar numa montra vinha sempre a ser a perdição do outro.
Foi de chofre que Raul se capacitou da sua precária situação financeira, corporizada num extracto bancário de frondosas hastes, e percebeu que o pior acontecera: tinha atingido a falência. Naquela balança económica de consumo mútuo, esgotara o seu capital sem ter adquirido tudo o que desejava, porque o tudo é algo por definição impossível de adquirir. Não dispondo o consumidor de recursos à altura da oferta, Elsa partira naturalmente para a exploração de novos mercados.
O novo Raul, divorciado e encornado, embora não necessariamente por essa ordem, é muito menos visto na companhia de raparigas, e consta que dedica grande parte do seu tempo livre a meditar esta questão do consumo. Compreendeu já que isto de mercados é assunto complicado, em que há sempre a certeza de alguém sair a perder. Não é que pretenda parar de consumir, falta-lhe só aprender a arte de evitar ser ele esse alguém.
2 de Fev de 2009
O Sonho.
Dormir, sonhar talvez… Por mais que respeite a conhecida frase do bardo imortal, não estou bem seguro de que ele tivesse razão, pois tenho amiúde observado que existem muitas variantes possíveis: pode-se dormir sem sonhar, ou então sonhar acordado, ou mesmo levar a vida toda a dormir, até que um sonho nos venha despertar. Este que me aconteceu pertence sem dúvida a uma dessas categorias, coisa que deixo para já à amável consideração do leitor. Mas vou contar-vos como foi…
Parecia um dia normal, excepção feita, talvez, à morsa de tons violeta que insistia em roncar exasperadamente para mim. Nem estou bem certo que de uma morsa se tratasse, pelo que pude depreender, observando a basta cabeleira, seria talvez um golfinho, mas um que fosse bastante peludo. Um esforço de concentração levou-me a perceber que era afinal a minha chefe, entusiasticamente embalada numa questão profissional que, tanto quanto pude depreender, versava um importante aspecto relativo aos dedos dos pés das amêijoas. Mas posso ter percebido mal.
A ranhura oblonga da minha realidade subjectiva abriu-se com um súbito espirro, deixando entrar meia dose de feijoada de chocos, aos quais me lembrei de chamar um almoço. A parte da tarde acabou por se prolongar até ao dia seguinte, incluindo contudo um oportuno intervalo para ir a casa dormir, infelizmente seguido de uma manhã repleta de frutas tropicais, em que predominavam as bananas. Tentei então voar, mas a varanda onde me encontrava era baixinha, e pareceu-me também um pouco esparvoada, pelo que optei por voltar a ir almoçar.
Não me recordo, depois disso, do momento em que adormeci, nem sei explicar por que razão, em pleno dia, me lembrei de começar a sonhar. Sei apenas que alguém me disse algo que nunca se diz, algo simples e recheado de sentido, de um daqueles sentidos absurdos por serem tão elementares e evidentes. Nesse disparatado momento, fiz eu próprio sentido, e acordei de pé. Percebi então que estava finalmente a sonhar.
Ainda sonho todos os dias. Não me vou pôr aqui a contar os meus sonhos, basta que vos diga que são sonhos bonitos, e que me agrada sonhá-los. É importante sonhar, pois tudo o que nos liberta do irracional quotidiano é importante. Imagino, por vezes – e isto será talvez disparate – mas ponho-me a imaginar se não seria possível passar a vida inteira assim acordado, a sonhar. Por enquanto, limito-me a viver cada sonho, e depois recordo-os com um sorriso saudoso e reservado, enquanto escuto os roncos sem nexo das morsas de cor violeta.
31 de Jan de 2009
A mudança
Certo é que faltam à minha alma penada algumas condições que via de regra se tomam por basilares, como seja a de assombrarem uma vetusta e delapidada mansão, entre cujas paredes terão os seus materiais avatares sofrido as agruras deste mundo, que vez por outra pede meças ao mais elaborado dos infernos. A ideia de eu ter em casa um fantasma era regularmente reduzida à mais ínfima expressão do ridículo pelos amigos da casa, sob razão de me ter eu mudado para cá há coisa de poucos anos, na mesma altura em que foi dada por finda a construção da casa, completa como nós a planeamos, fazendo este “nós” as vezes da unidade familiar, a esposa e os filhos e mais parentes, e até eu cheguei a dizer uma ou outra palavra, não constando embora dos autos que tenha alcançado ser ouvida. Para encurtar de razões, e citando aqui um autor não publicado (que, tal como os espíritos, também os há), não há fantasmas numa casa nova.
Mas há um fantasma na minha casa, e pouco bastam os argumentos anteriormente aduzidos para me tirar desta convicção. A explicação, digo eu para quem me quer ouvir (costuma ser o frigorífico), a explicação está na mudança. Devíamos ter feito uma mudança selectiva, e eu recordo que cheguei a disser isso. Escolher o que queríamos levar, em vez de arrebanhar sofregamente tudo o que não queríamos deixar para trás. As mudanças são momentos de purificação e recomeço, em que se deve trazer do passado aquilo que realmente importa, e alijar o peso morto, tudo o que anda a reboque da nossa vida só por não saber fazer mais nada, e não termos nós a paciência de lho ensinar. Não foi assim essa mudança, do que resultou ficar a casa nova assombrada por um vetusto fantasma.
Mas, volto a repeti-lo, eu nunca tive medo dele. Os fantasmas, dizia eu com uma segurança digna de Voltaire, são apenas projecções de nós próprio, das nossas falhas e insuficiências enquanto pessoas racionais. O meu fantasma, racionalizava eu, mais não era que o espectro dos meus erros passados, dos ainda menos desculpáveis acertos do presente, dos meus traumas, das minhas lutas, de tudo, enfim, que alimentava o meu orgulho e a minha culpa. O meu fantasma nunca me poderia assustar com as suas carantonhas, pois que tinha a minha cara.
Agora estou assustado, é sem rebuço que o confesso. É banal o que me aconteceu, apenas o encontrei esta noite, completo com as suas correntes e esgares e a panóplia de efeitos fantasmagóricos. Preparei um sorriso condescendente, mas o sorriso morreu sob um olhar verde e baço, um olhar de cadáver resignado a ver através de olhos putrefactos, olhos que semelhavam um monte de algas escorrendo de um recife. A cara, repleta de imperdoáveis vícios, alagada de ternuras sem nome, escorria para mim como um bolo de aniversário sobre o qual alastrasse o fogo de velas não contidas, talvez por arder já no inferno o celebrado aniversariante. A cara era hedionda de se ver, e por uma razão suprema: não era a minha cara.
Não era a minha cara. O meu simpático fantasma era de facto uma coisa infernal, um demónio das trevas que mais não queria senão aprazar a minha alma às profundas de lava e carvões e oportunidades desperdiçadas. Tenho a vida hipotecada a um incubo, e com a agravante de se tratar da presente vida, aquela em que eu acredito. E custa-me contudo a crer que isto seja um efeito da mudança, estou mais em que a coisa me teria assombrado, fosse lá onde me encontrasse. Mas não me perdoo por o não ter exorcizado, na altura em que mudei.
Há um fantasma em minha casa. Devo confessar que, pela primeira vez na minha vida, estou bastante assustado.
28 de Jan de 2009
Boa Noite, Amor.
Com tantas palavras, e tão bem rendilhadas como foram estas, manda o senso comum que se ponha a destinatária das mesmas de pé atrás, expressão ainda assim ambígua, pois que sugere estar chegado à frente o outro pé, consabido que é o facto de toda a gente ter dois, salvo no caso de ser coxa, o que também acontece. Nada disto de forma alguma releva no que à potencial cantiga do bandido diz respeito, pelo que seria caso verdadeiramente espantoso que Emília se dignasse aquiescer a convite formulado em tão suspeitosos termos. Emília ponderou brevemente o assunto antes de aceitar o convite, e se há ainda quem se consiga espantar com semelhantes lances, coisa que deveras receio, fica aqui o veemente conselho, dê-se pressa em mudar para outro mundo, o qual dizem por aí que existe, e que será até bem melhor que este. Esta história trata apenas daquele mundo onde nós vivemos, onde coisas destas diariamente acontecem, tão despudoradamente como se fossem possíveis, e onde existe uma esplanada em que Emília se sentou a uma mesa com um desconhecido, e com desenvolta timidez pediu um vodca com gelo.
Um tal começo preclui à partida quaisquer laivos de convencionalidade que acaso intentassem manifestar-se, o que conveio excelentemente àquelas duas almas, em quem tais manifestações se faziam usualmente distinguir pela ausência. Acabaram por gastar a tarde toda em palavras de ponderosa trivialidade, arrombando o místico lugar-comum com a violência de serem eles próprios, dotados das aspirações mais mesquinhas e das mais transcendentes, e ainda das mais usuais, aquelas em que a mesquinhez se oculta sob um véu de transcendência, a menos que seja justamente o contrário. Tudo debateram sem reserva, esmiuçaram o que é baixo e o que se eleva, o sagrado e o torpe, e por fim o que era apenas ele e o que era apenas ela, o que queriam de si mesmos, o que queriam da vida, o que poderiam querer um do outro.
Foi neste último ponto que esbarraram numa lastimável compatibilidade de gostos. Ele gostava de mulheres. Ela também. Não como uma definição de si própria, como também ele se não definia no simples acto de andar atrás de gajas, nada disso, que ele era muito mais que o marialvismo que casualmente os juntou nesta tarde anódina. Também ela era muito mais do que essa mera preferência, coisa de resto tão trivial como tudo o mais nesta história, só a um imbecil ocorreria definir alguém pelo tipo de outro alguém com quem lhe agrada corporizar a sua intimidade, como se não andássemos pela vida a fazer mais nada. Infelizmente, no entanto, as circunstâncias não permitem de forma alguma excluir a provável existência de imbecis. Não que isso lhes fizesse diferença, não nessa tarde em que o Verão se preparava para começar.
Acabaram por ficar nus, coisa que o clero e demais moralistas de serviço farão a gentileza de perdoar, sob argumento de nada de mais se ter passado, eles é que se passaram, os doidos, e deu-lhes na veneta ir nadar no lago, um lago que convenientemente surde nesta história porque, sejamos francos, é impossível negar qualquer coisa, ainda que seja um conveniente lago, a tão simpáticos tresloucados. Saíram com os sinais do amor todos trocados, que a água fria tende a provocar efeitos opostos no homem e na mulher, mas eles não eram nesse dia uma coisa nem outra, e pouco caso se fez de quem tinha o quê mais pequeno, nem os quê mais espetados. Apreciaram-se enquanto se vestiam, depois de se terem abraçado, tão nus como se usassem roupas. Separaram-se com um sorriso cúmplice, e um irónico aperto de mãos.
Enquanto se afastavam juntos, cada um para o seu lado, houve quem julgasse escutar um breve e abafado murmúrio, Boa noite, amor. Mas ninguém compreendeu bem o que a despedida significava, nem sequer de qual deles o desabafo partiu.
26 de Jan de 2009
TERRA LAVRADA
Desculpem. Ultrapassa largamente o combinado. Mas não pude resistir ao apelo de uma terra que amo.
23 de Jan de 2009
Amores e Amores
- Já viste bem aquilo? – perguntou a mulher indignada.
- O quê?
- Aquelas duas exibicionistas?
O casal, de meia idade, estava sentado numa esplanada, numa tarde estival, e a mulher referia-se a duas outras, que estavam numa mesa próxima, sendo obviamente, também elas um casal. Estavam de mãos dadas e uma delas acariciava a face da outra. Tinham os rostos iluminados pelo sorriso dos amantes e resplandeciam felicidade.
- Olha, conheço uma delas. – afirmou o homem.
- Conheces?! As pessoas com quem tu andas metido. Deve ser naqueles dias em que ficas a fazer serão no banco.
- Não sejas tola! A mais magra é filha do gerente lá do banco.
- Coitado… que desgosto. Já viste bem, ter uma filha assim e que, ainda para mais, anda aí a exibir-se. Que vergonha.
- Tu exageras, não estão a fazer nada de mais.
- Não estão?! Aquilo até devia ser proibido, duas mulheres… Ai virgem santíssima!
- Oh Gabriela, as raparigas só estão de mãos dadas. E olha que o pai gosta muito da namorada da filha.
- Credo! Como é que isso é possível? Ele sabe e gosta?!
- Ele contou-me que teve um grande choque ao início. Eu compreendo, ninguém está à espera que a filha seja assim.
- Deus nos livre e guarde! Ainda bem que as nossas são normais.
- Queres saber ou não? Estás sempre a interromper.
- Conta lá.
- Acho que elas estão juntas já há uns três anos. A outra é enfermeira. A Marisa, a filha do meu gerente, teve um acidente muito grande, no princípio do ano passado. Um condutor bêbado despistou-se e foi contra ela. A rapariga esteve internada seis meses. E a outra, foi de uma dedicação extrema.
- Também era melhor, sendo enfermeira.
- Ela é enfermeira, mas não no hospital onde a Marisa estava. Ia trabalhar e, quando saía, corria para o hospital e ficava lá as noites inteiras (ou os dias, conforme estava de serviço de dia ou de noite). Só ia a casa tomar duche e mudar de roupa. Nunca a largou. E quando ela teve alta, meteu férias para a poder acompanhar na recuperação.
- Olha, não sei se farias isso por mim! – exclamou a mulher.
- Sinceramente, também não sei se faria tanto…
- Realmente, as mulheres têm outra sensibilidade…
- Agora já as defendes?!
- Não estou a defender, mas as mulheres são muito mais dedicadas que os homens; Quando amam, dão mesmo tudo.
- Não te entendo, ainda agora estavas a dizer tão mal…
- Se entendesses é que eu achava estranho. Nunca me entendes. – disse ela irritada – Olha, elas é que têm razão. Pelo menos não aturam homens irritantes e insensíveis como tu!
Encomenda
- Estou, bom dia.
- Bom dia. Pretendo fazer uma encomenda.
- Com certeza. Já é cliente?
- Sou.
- Pode dar-me o seu número de cliente?
- Quatrocentos e cinquenta e sete.
- Já é um cliente antigo… Deixe-me confirmar os dados. Sr. Manuel Teixeira, Rua da Glória, nº5 – 3º, em Gondomar. Correcto?
- Não… O meu nome é Pedro Pais e vivo em Beja.
- Humm… Pode repetir o número de cliente, por favor?
- Quatro, cinco, sete.
- Não compreendo… está correcto, mas corresponde ao Sr. Manuel Teixeira. Tem a certeza que não são os seus dados?
- Tenho. A não ser que saiba algo que eu não sei, o meu nome é Pedro Pais, há quarenta e cinco anos. Quanto a Guimarães, fui lá uma vez, em férias, vai para uns vinte anos.
- Pois… não entendo. Vou pedir-lhe para aguardar só um momento em linha, para eu tentar resolver a situação.
- Eu aguardo.
- Obrigada.
(por favor não desligue, a sua chamada é importante para nós)
- Sr. Pedro Pais, obrigada pelo tempo que esteve a aguardar.
- Não tem de quê. Podemos resolver a situação para eu fazer a encomenda?
- Sim, vamos fazer uma nova ficha de cliente. Diga-me o nome completo, por favor.
- Completo? Mas isso nunca foi preciso.
- Bem, nós exigimos sempre, mas vou abrir uma excepção, já está à espera há tanto tempo.
- Eu agradeço. Pedro Pais.
- Endereço?
- Rua do Castelo, nº5, 7800 Beja.
- Quais são os últimos três dígitos do código postal?
- Não faço ideia.
- Pronto, deixe estar. O seu número de contacto?
- Para que querem vocês o meu numero de contacto?
- É normal, para o caso de haver qualquer problema com a encomenda.
- Eu faço a encomenda, a senhora verifica se tem em stock e envia pelo correio à cobrança. O que é que pode acontecer de errado?
- Por exemplo, se a encomenda nos chegasse devolvida.
- Se eu a deixasse voltar para trás seria porque não a queria e não estaria este tempo todo ao telefone consigo se não quisesse mesmo fazer a encomenda.
- Acho que vou ter problemas com o meu chefe por causa da sua ficha de cliente, mas deixe estar, diga-me então o que pretende encomendar.
- Pretendo um anel para o pénis e um kit de massagem sensual.
- O quê?! Está a gozar comigo??
- Eu?! Estou só a tentar fazer uma encomenda.
- Mas quem é que o senhor julga que eu sou?
- Empregada de uma sexshop.
- Desavergonhado! Herege! Filho do Demo! Está a ligar para a loja bíblica e ainda vem gozar com as pessoas de fé.
Na simetria de um espelho
Na floresta, o vento fazia estragos na copa das árvores e, bem entendido, nos gigantes mais carcomidos pelo tempo e pelo acumular das intempéries.
As verdes e musgosas superfícies atascam a turfa, transformando em húmus a miséria lenta, instalada a um nível rasteiro.
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Gosto de me masturbar, por vezes apago a luz, outras olho-me num grande espelho. Fico em pé, descalça, totalmente excitada e tensa. Acaricio o peito e a barriga levemente, o meu corpo treme.
Estou a ficar velha e na ausência do meu amante, naturalmente, masturbo-me quando sinto necessidade. Desço as calças até ao meio das pernas e levanto a camisola descobrindo os seios. Aos cinquenta e oito anos o orgasmo é ainda o maior prazer físico que existe na vida. Na minha vida. O corpo fica vivo e poderoso depois de vários orgasmos consecutivos. É essa a sensação.
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O voo estava a decorrer tranquilamente sem atribulações nem turbulências e as expectativas de jogadores e apoiantes das equipas concentravam-se, sobretudo, na ilusão de um bom resultado.
A mãe natureza teve um fraquinho pela matéria, pelo menos nesta zona do Universo e deste modo, se quebrou a simetria, introduziu a imperfeição controlada na perfeição e assim permitiu a nossa existência. Provisoriamente.
A tempestade desabou com grande fúria. Os relâmpagos atravessavam o espaço entre as nuvens em forma de grossas colunas cinzentas. A intempérie começava a inquietar todos os passageiros. Pelas vigias o cenário apresentava-se preocupante.
- Senhores passageiros estamos atravessando uma zona de grande turbulência, agradecemos que fixem todos os objectos ainda soltos ao cinto de segurança – não tinha ainda concluído a frase e um poço de ar atirou vertiginosamente, uns duzentos pés abaixo, a aeronave. Corpos saltaram caindo logo após, no meio do corredor e uns gritos soltaram-se de algumas gargantas mais inquietas.
Kiriakov nunca pensou em Sísifo e, no entanto Sísifo havia acorrentado a Morte, tendo com isso desgostado profundamente o deus dos infernos.
Kiriakov apreensivo tentava desviar o olhar das escotilhas onde, no intervalo de “flashes“ potentes piscava uma centelha rubra na asa quase envolta em nevoeiro, no meio da trepidação constante.
Kiriakov desviou também o pensamento e pousou-o mil e duzentos quilómetros atrás sobre a última imagem da amante, deixada em terra, num apartamento recentemente mobilado.
Da porta do quarto tinha-lhe acenado, na direcção do grande espelho que ocupava toda a parede do fundo do quarto, e saíra já atrasado. Disse-lhe: - Até domingo. Ela desejara-lhe sorte para o jogo.
-Bem iremos precisar–respondera-lhe–ou passará a haver mais um treinador no desemprego.
Duas equipas , da mesma cidade, disputando a final de um troféu continental, mil e tantos quilómetros arredadas da sua origem. Um absurdo imenso mas jogo é jogo e as regras são para se cumprir.
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No solo misturadas com toda a sorte de detritos e completamente encharcadas, duas malas, uma das quais, aberta, de onde saíam roupas desportivas e uma fotografia.
-Encontrámos a caixa negra- ouviu-se uma voz.
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Acabou de se secar, após ter tomado um duche retemperador e tocavam-lhe à porta.
Chovia. Vestiu um roupão e dirigiu-se à janela.
Dois homens, à entrada, aguardavam. Um deles trazia algo na mão. Foi abrir.
Apresentaram-lhe sentidos pêsames e aquela sua fotografia ao espelho, onde , no verso, ele tinha anotado a morada do apartamento novo.
Quando lhe voltaram as costas, encostado o corpo ao umbral, reparou que a chuva também brotava forte dos seus olhos.
22 de Jan de 2009
CANNABIS LASCIVA
E sinto-me elanguescido ao sabor das minhas palavras beijando ao de leve a pele dos teus seios, flores intumescidas. Parto em direcção ao sul eterno, sem saudades nem nada disso. Sinto frio ao mesmo tempo que me aproximo, sílabas tacteando-te o ventre, tatuando-me dos sons que dizes, digo, gemendo desmaiando.
Agora sou o teu corpo.
Arqueio-me e desejo-te como nunca o fizeste comigo, terra minha de onde me parto e onde me venho tão amiúde, tão raramente. Nunca soube o que te transporta e me traz neste momento, a não ser agora, minha terra, que te sinto como te sentes minha pátria, meu centro, quando dentro me entras, teu corpo sendo.
Agora sou o teu corpo.
E sei do langor, do estremecimento, do frio que me teu peso ferve os sentidos, eternizando-os a apagá-los como o vento que não ruge ali na rua onde nada tuge ao ritmo das minhas vontades, tuas coxas fechando-me. Submeto-me, claro.
Sou teu corpo.
Mas essa tua minha pele que agora me sou é tão estranha que chego a perguntar-me por que encanto mergulho assim nela, nele, à única metade da noite.
Sou eu? É ele ou ela? Somos nós?
Sou eu, paixão. Sou tu. És eu, frustração que se espraia pela brisa que lá fora nada mexe ou pela noite que se repete ao sabor de ti adormecida, amor, torrão, saloia pátria! Sou eu!
E quem é que com isto se masturba?
E quem é que com isto, nestes momentos de dilúvio, se importa, se dilacera, se perturba?
Acabo-me em ti, e amo-te.
20 de Jan de 2009
Mudar... ou talvez não.
Há uma certa altura na vida em que nos cansamos particularmente de ser quem somos. Ela estava nessa fase. Não havia uma razão, em especial, mas tudo a aborrecia nela própria; a aparência física, a forma de estar, o modo como falava, o local onde vivia, enfim, tudo.
Queria mudar, ser outra. Sabia que era mais provável que lhe saísse o euromilhões do que conseguir transformar-se, no entanto, a ideia não lhe saía da cabeça.
Um dia, ao visitar as suas sobrinhas, crianças de tenra idade, passou um bom bocado a observar a sua caixa de bichos-da-seda. Estavam quase todos nos seus casulos, crisálidas à espera da libertação. Como seria bom se pudesse fazer o mesmo… Fechar-se por uns dias e, depois, surgir esbelta, crisóptera e voar sobre o mundo, irreconhecível e adorada pela sua beleza.
- Tia! Tia! Estás a ouvir?
Só então reparou que as duas crianças clamavam pela sua atenção e que se tinha deixado embalar num sonho infantil e disparatado.
- Sim, queridas, digam.
- Que tens? Estás estranha, hoje. – Disse a mais velha.
- Nada, a tia estava só distraída.
- Queres brincar connosco? Vamos brincar ao Peter Pan.
- Só se eu for a Sininho. – Afirmou rindo, lembrando-se do que pensara momentos antes.
- Mas tu és muito grande para ser a Sininho. – Retorquiu a mais nova.
Engoliu em seco – existe uma idade máxima para sonhar, até as crianças percebem isso, já tinha passado da validade.
Não podia ser! Tinha efectivamente de fazer algo por si própria, já não aguentava aquilo.
No dia seguinte, levantou-se cedo, saiu para as compras. Escolheu roupa de um estilo completamente novo, mais descontraído. Passou pelo cabeleireiro, fez um corte radical e pintou o cabelo de um tom avermelhado. Passou num oculista e comprou uns novos óculos de sol tipo “gata”. Estava tão diferente, com um ar muito mais fresco e leve. Sim, poderia brincar, saltar, correr!
Quando ia a descer a rua, viu ao longe a sua cunhada acompanhada pelas suas sobrinhas. Não a iriam certamente reconhecer. Quando estava a cerca de vinte metros, a mais nova largou a mão da mãe e correu na sua direcção.
- Tia! Tia! Vamos brincar aos cento e um dálmatas! Tu és a Cruela.
“D. Rosa, a sua filha chegou do Brasil”
As duas mensagens chegaram ao Mercado da Ribeira ao mesmo tempo e ambas diziam a mesma coisa: “D. Rosa, a sua filha chegou do Brasil.” D. Rosa recebeu-as com boa qualidade de recepção, nenhuma delas deixava quaisquer dúvidas quanto à sua compreensão. A reacção da senhora foi a de um sentimento imediato de felicidade. E digo “de imediato”, porque D. Rosa reagiu logo após ter lido uma mensagem e ouvido a outra, ambas numa linguagem objectiva e concreta, ou seja, a senhora não perdeu tempo a descodificá-las, já que estas se apresentavam correctas. Claras, portanto.
Desde A. G. Bell, o mundo já conheceu vários meios de comunicação e entre todos eles, hoje o telemóvel é o nosso companheiro de todas as horas.
Actualmente, a comunicação parece estar alterada. Mas apesar desta afirmação, não pretendo aqui expor nenhum raciocínio defendendo as (des) qualidades de bem comunicar através de meios mais ou menos sofisticados, digamos que a comunicação está diferente. No entanto, esta talvez careça de algum sentido crítico em determinadas ocasiões, senão vejamos:
Confesso que a minha sensibilidade tem sido perturbada quando me enviam mensagens escritas para o meu telemóvel do tipo, “oi tas boa k tal kombinarmos komermos alguma koisa hoje a note e kerendo e apetessendo paçamos num sinema kuando kiseres diz kk koisa beijokas”. São mensagens como estas que beliscam a minha alma... que tamanha moda cretina!
Sinto-me coagida a responder, ainda que receei que estas mensagens sejam uma provocação (?): “Olá, desculpa estar a responder três dias depois, mas foi o tempo que levei a compreender a tua mensagem. Para além de escreveres com erros ortográficos, diz-me uma coisa: desde quando é que a letra Kapa faz parte do nosso alfabeto? O jantar parece-me bem, pode ser que aprenda alguma coisa. Até logo.” Passados uns cinco minutos recebo a resposta: “es muita maluka e 1 nova linguagem pra este tipo de komonicação dpois encinote keres?”.
Eu até poderia sorrir com tal versatilidade linguística se isto não me parecesse tão triste. Quando o caso se apresenta com tais incongruências gramaticais, não poderei sentir o contrário de desolação. Parece-me ofensivo que tal linguagem tenha tido o conluio de um elevado número de utilizadores, cuja emissão e recepção deste tipo de linguagem seja aceite com bastante facilidade. As actuais mensagens desrespeitam as regras básicas do português: palavras mal escritas, má construção e formação das ideias e frases, ausência de acentos ortográficos, incorrecta pontuação, supressão frequente de sinais, etc., etc. Tudo em conjunto, convenhamos que por vezes pode ser um autêntico quebra-cabeças.
É isto, chegou finalmente a contaminação declarada à língua portuguesa, a tal ponto que a expõe ao ridículo gratuito. E por mais que me esforce, não consigo deixar de constatar que, apesar da evolução dos meios técnicos, nem por isso se comunica melhor… bem pelo “kontrario”!
19 de Jan de 2009
Quando o telefone toca...
Escusado é dizer que o coração logo lhe ficara uma barata tonta, a bater de uma para outra excitação. Tinha de mudar os lençóis, esconder as cervejas e os cinzeiros, comprar champanhe. Assim que, na noite desse sábado, abriu um e-mail mais prometedor ainda, só não teve um avc, um enfarte do miocárdio ou outra qualquer aguda perturbação fatal, porque pouco antes não resistira a acalmar o entusiasmo, tal como fazia quando, adolescente, se perdia na visão dos seios da Sophia Loren. Enfim. Benditas novas tecnologias. As entrelinhas da mensagem remeteram-no para um estado de graça superior ao de Barack Obama em cerimónia de posse: “Ele vai mesmo para o Norte. A Joana está a passar férias com os avós. Na terça telefono-te, para me ires buscar à estação. Bjinho onde quiseres.” Tinha mesmo de mudar os lençóis, deus dele!
O resto da noite passou-o a aspirar o apartamento até o vizinho de baixo lhe começar a bater com qualquer coisa no tecto. Desfez-se dos cinzeiros, bebeu as cervejas que tinha no frigorífico, preocupou-se depois com o pó e acabou por se deitar no sofá, a lembrar-se de tudo o que havia a fazer. Mudar os lençóis. E levantou-se ainda. Fez a cama de novo, pôs tudo o que era roupa suja a lavar e voltou para a sala e a emissão sobre as aranhas da Amazónia, no National Geographique. O ruído surdo da máquina não o deixou sonhar a sério. Sabia que era por demais distraído e recordou, assustado, aquela vez em que deixara a mãe sozinha numa área de serviço da A8, quando, a caminho da aldeia, parara para abastecer e ela se demorara demais nos lavabos.
Domingo e segunda-feira seguintes esgotaram-se em inúmeros pormenores ínfimos. Distraído como era, viu e reviu tudo até à exaustão, a ponto de quase se esquecer de avisar a empresa da sua ausência nos próximos dias. A justificação adiou-a. Tinha um amigo numa agência funerária, apontou a necessidade na agenda. Depois veria que funeral de tio ou prima o havia impedido de comparecer ao serviço. Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado.
Perto do meio-dia, triimmm... Era o fixo. “Sim?” Do outro lado, um decepcionante silêncio. “Sim?” Nada. Pensou, então, que deveria ter sido um daqueles contactos electrónicos só para ver a que horas o utente atente, para posterior chamada e tentativa de venda agressiva de qualquer semana de férias nos confins de um mundo paradisíaco. Pôs-se à janela, a fumar um cigarro. E foi a vez do toque personalizado do telemóvel. Ao seu derretido “Estouu...”, retorquiu-lhe um tal António Convencido, da NT Comunicações, a perguntar se já conhecia o serviço ultra especial de televisão por cabo... “Não, não conheço, nem me interessa!”. Desligou, respirou fundo, conseguiu até adiar nova cigarrada à janela desconsolada. Estava quase a dormir, quando tocaram os dois aparelhos, quase em simultâneo. Atendeu primeiro o de casa. Era a menina de uma companhia de seguros. No outro, só ouviu uma voz a propor-lhe o mais vantajoso dos cartões de crédito.
Desistiu. Esquecido, ao primeiro disse “Desculpe, estão a ligar-me do telemóvel, aguarde um pouco...” e pousou, devagarinho, o auscultador na mesinha. Ao segundo, calmamente, respondeu também “Tenha paciência, só um momento, vou chamar o meu pai...”, enquanto deixava o aparelho, também ligado, na mesma mesinha sem um grão de pó. Recostou-se, então, a pensar no champanhe gelado e nos lençóis lavados da cama feita de novo. Adormeceu. E sonhou com o Matos Maia, do Rádio Clube dos anos sessenta, a responder “Sim, é do Quando o Telefone Toca, sabe qual é a frase de hoje?”
18 de Jan de 2009
Mal tive tempo de me desviar, tal a presença de um corpo de mulher em movimento, bem pelo dobro do meu, que quase me atropelou.
Ia pedindo para eu esperar um pouco e dissera sempre a correr:
- Já venho, não me demoro mesmo nada. Queira aguardar aí na sala, à direita.
No patamar da escada, enquanto dizia isto, parecia ir tirar o pai da forca. Mal olhei para baixo e já tinha contornado o vão da escada, descendo quatro a quatro os degraus de pedra, ainda pensei que se estatelava, espantada com a agilidade de tal corpo.
Perplexa empurrei a porta semi-encostada, fechei-a atrás de mim e dirigi-me para a minha direita, entrando numa sala de espera decrépita, com uma mesinha ao centro, carregada de revistas velhas como em qualquer sala de espera de um consultório vulgar. Repleta de cadeiras a toda a volta, com uma janela ao fundo, a sala já tinha conhecido melhores dias, sintomas anacrónicos da morfologia apresentada: um esgaçado papel de parede todo em volutas e caracóis dourados, a remeter para barrocos clandestinos. Um candeeiro de pé de latão já ferrugento, imitação desfeiteada de bronze de outras eras ostentando no alto um envergonhado abat-jour verde seco, comido pelas traças nalguns pontos, e com franjas a condizer com o papel de parede. Um relógio de pêndulo cansado espalhando lentos tic-taques e uma mesa com um telefone em cima completavam a decoração da sala.
Pela janela vislumbrava-se uma dupla fila de plátanos, todos eles descamisados, tiritando ao sol de Inverno.
O telefone analógico carregava um cadeado no anel de marcação para impedir qualquer abuso. Recordava-me que já não se via telefones destes há pelo menos uma década. A concorrência das companhias telefónicas privadas tinham exterminado gerações destes telefones. Esta raridade devia estar protegida por qualquer movimento ecológico.
Tocou a campainha. Parecia o som de um filme americano, talvez o Casablanca, ou outro qualquer com detectives. Fui à porta num papel assumido de secretária de um negócio de patrão ausente. Um engano, nada à porta. Pelo intercomunicador ninguém responde. Volto á sala e levanto o auscultador do telefone e também nada se ouve excepto o bip normal. Também o toque já tinha terminado. Volto a sentar-me e pego numa revista mas o olhar prende-se na copa dos plátanos remetendo o pensamento para os últimos eventos na minha vida.
O raio do toque de novo. Volto à porta abrindo-a e novamente o vazio. Rápido ao telefone, nada de novo. Estarei a sofrer alucinações? Bem sei que as recomendações eram bombásticas. A Alice Mota tinha-me contado que esta vidente era poderosíssima, mas tanto poder assim, logo à entrada, até arrepia. Eu nem acredito nestas coisas. Ao que uma pessoa se sujeita após todos os desenganos da ciência encartada de médicos nacionais e estrangeiros. É o desespero, o desespero puro e duro. Eu aqui pelo Humberto, se ele não desaparecer e se se recompuser bem posso passar por este enxovalho.
Que farei eu sem ele? Ai, mal de mim.
TRIMMMMM.TRIMMMMMM.TRIMMMMM
- Está lá?
Será que existe outro telefone?
Era a voz da vidente mas ela ainda não voltou a entrar. Aqui nesta posição daria por ela passar. Ele há coisas...
Finalmente uma chave na porta.
Agora sim era ela.
Todo o esplendor de um volume enquadrado pelo umbral:
- Queira desculpar a minha saída intempestiva mas ninguém me poderia ter substituído nesta tarefa. Este saiu-me pela janela e voou para o terraço do prédio em frente. Tive de agir rápido. Enquanto estão atarantados há boas probabilidades de os recapturar. Este é a primeira vez que foge e teria ainda assim menos pena de o perder. O outro sim é que é um papagaio perfeito. Se ouvisse como ele me imita.
17 de Jan de 2009
A Cumpridora de Sonhos
Nasceu a sorrir, numa pequena vila do Alentejo, com cheiro a alecrim e alfazema, no final da década de trinta, do século passado. Em plena ascensão do regime salazarista, foi educada por um pai com profundas convicções comunistas e uma mãe fervorosa devota católica. Divorciaram-se quando tinha apenas quatro anos, passando a viver com o pai, durante o período escolar, e com a mãe nas férias.
Cresceu entre dois mundos antagónicos, que lhe deram uma panóplia de valores, entre os quais aprendeu a escolher os seus próprios. O pai incutiu-lhe um sonho – a liberdade. Queria-a instruída, culta e independente. Sempre lhe recomendou que não casasse; avisou-a várias vezes que os homens não prestavam (ele bem sabia do que falava).
Ainda assim, casou, da forma mais convencional, com um homem tradicional que tentava mostrar-se liberal. Tiveram duas filhas. Enveredou pela carreira docente, leccionando o verdadeiro amor da sua vida: a língua portuguesa.
No entanto, o sonho continuava por cumprir. Não se tratava da sua liberdade pessoal; de uma forma geral, era a liberdade do seu país e, em particular, a liberdade de ensinar, especialmente de dar à população mais desfavorecida a possibilidade de se poder expressar livremente na sua própria língua. No início da década de setenta, ainda tentou; fez parte de um grupo clandestino de alfabetização que, pouco de pois de começar, foi descoberto pela PIDE e, naturalmente, foi cancelado.
Veio o vinte e cinco de Abril, arregaçou as mangas e deitou mãos à obra, em Trás-os-Montes e no Alentejo, organizou programas de alfabetização e começou a cumprir o seu sonho.
Percebeu, então, que atrás de um sonho vem outro, que torna o anterior mais pequeno. Portugal, país que amava profundamente, não chegava para fazer por ele tudo o que queria. Entretanto, o seu casamento colapsou. Partiu numa cruzada pelo mundo, espalhando a língua portuguesa por três continentes: Guiné-Bissau, Moçambique, Suécia, Marrocos, Angola, Austrália, Timor e França. Foi cumprindo o seu sonho, ensinando a sua língua e o seu país, e sonhando novos sonhos. Reconverteu-se ao catolicismo e reunificou os seus valores de infância. Iniciava sempre só, cada nova etapa, deixava inúmeros amigos, sempre que partia.
Numa curva do destino, cruzou-se com a doença, que a obrigou a cessar a sua actividade profissional. Lutou com bravura, fé e sempre com alegria. Matou dois cancros, o terceiro foi mais forte que ela. Nesse dia, embora já não falasse, ainda sorriu e partiu serenamente embalada no sonho de uma outra vida em que acreditava profundamente. Que cumpra também este!
16 de Jan de 2009
NÃO SE MUDA JÁ COMO SOÍA
Mudara dos bancos da terceira classe para os campos do Monte da Maúcha, pois o velho, pai de muitas e esforçadas contas, julgava ser-lhe, a ele como à filha, mais proveitosa a apanha da azeitona do que o decorar da tabuada. Mudara, depois, de debaixo das saias da mãe para as mãos do seu homem, de rapariga para mulher sem sequer vinte anos ter. Numa enxurrada da vida assim, mudara ainda de esposa só para mãe também, três filhotes a mudarem-lhe de rajada e de pantanas as sossegadas aflições do dia-a-dia. Por último, mudara da pacatez alentejana para a esperteza saloia, então ainda nas margens do bulício suburbano.
“Quem não arrisca não petisca”, dissera-lhe o marido. Levada por semelhante entusiasmo, lançou mãos à vida, procurando não dar cavaco à saudade. Contudo, as coisas só mudaram para efémero melhor quando recuperou a alegria nos olhos da filha mais velha, por uns tempos deixada longe, ao cuidado dos avós. Reunida a família, logo a viu aumentada de dois outros rebentos. A pouco e pouco e sabe-se lá como, foi-se então tecendo uma rodilha de sub-reptícias mudanças em torno de si e de tudo. Não matavam, mas cada uma das linhas de cada hoje a enleava numa moinha de desencanto aceso, tão vivo que a páginas tantas acabou até por mudar de crença, sem se aperceber que as velas da nova religião lhe iam apagando o brilho juvenil. Souberam-no guardar as filhas, depois, mas esse será outro conto, talvez.
Ele era o homem a beber, ele era a filha de alegres olhos malandros a namorar às escondidas, ele era o filho mais novo a fugir. Naquele tempo, já todos se perdiam. Um nos copos, cansado da oficina e do bedum dos sapatos dos outros, a rapariga na miragem do amor, o rapazola na ficção da viagem roubada em consecutivos panfletos de heroína. E foi a galope que o primeiro dissipou o pouco que tinham, a segunda se casou com um magricela de bolsos vazios e o terceiro se viu detido. Num ápice, mudou de esposa, mãe e dona de casa para tudo isso e ainda sogra, mulher-a-dias, costureira e operária numa fábrica de bolos. E passou, religiosamente, a deslocar-se todos os domingos a Lisboa, carregada de sacos de plástico a abarrotar de roupa, tabaco e comida para o filho. Seria mariola e estava preso, mas era seu.
Dado o incómodo do autocarro a horas impossíveis e do caminho a percorrer a pé, única alternativa à roubalheira dos táxis, o genro começou a levá-la de carro. Uma seca, horas ali à espera do fim da visita, com os cafés fechados e as prostitutas do Parque Eduardo VII a assediá-lo. Procurou persuadi-la a trocar o táxi pelo metro. Sempre era mais barato e...
– Metro?! Nem pensar! Sei lá andar de metro! E aquilo está cheio de ladrões. Ná. Nem pensar.
– Ora essa! De metro farto-me eu de andar e nunca vi nada disso. As coisas não mudam assim, D. Maria...
Acabou por se deixar convencer. Afinal, era só mais uma mudança. Da primeira vez, o genro acompanhou-a, para lhe mostrar o que fazer. Nada de muito complicado. É calma, a cidade ao domingo. Comentavam isso no regresso, já com os sacos mais leves, enquanto percorriam o túnel de saída, em Entrecampos, sem ninguém por perto, salvo uma senhora toda bem-posta e de mala a tiracolo, que os precedia desde as bilheteiras. De repente, um encontrão, estardalhaço de roupa suja e tupperwares vazios por terra, mãos na cabeça e gritos aflitos. Um magano qualquer atropelara-os em passo de corrida e, de esticão, roubara a mala à senhora. Galgava agora os degraus, logo desaparecendo num clarão de espanto.
– Estás a ver, estás a ver? Um carteirista! Eu bem te dizia! Tudo muda, ouviste? O metro mudou, é um antro de malandros! Mete na cabeça que tudo muda e já nada muda como era costume.
12 de Jan de 2009
O Peso da Culpa
A menina foi crescendo e aquela saliência acompanhava o desenvolvimento da criança. Era irrequieta, quando algo de errado sucedia, já se sabia de quem era a culpa.
A partir dos três anos, com o aumento das travessuras, a protuberância começou a crescer de modo significativo. Piorou por volta dos cinco, quando se começou a perceber que sofria de enurese nocturna. Claro que não lhe davam denominação tão pomposa, chamando-lhe simplesmente “mijona”. Não se coibindo, aliás, de o fazer frente a quem quer que fosse, para ver se ela ganhava vergonha e deixar de molhar os lençóis todas as noites.
Ninguém parecia perceber o aumento da deformação nas costas da criança, embora se notasse já uma postura ligeiramente curvada.
Ao longo dos anos, foi carregando sobre si toda a culpa que lhe queriam incutir. Já nem era necessário que a culpassem porque, instintivamente chamava a si a responsabilidade de tudo que se passasse ao seu redor e que tivesse uma conotação negativa. A sua deformação aumentava e cada vez ficava mais curvada sob o peso de tudo o que carregava nas suas costas.
Sempre que, num rasgo de revolta, tentava endireitar-se, logo o pai, a mãe ou qualquer outra pessoa tratavam de a pressionar para baixo, de modo a manter a sua postura. Ela resignava-se porque, intimamente, sabia que a culpa era sua.
Durante a adolescência tentou assumir uma certa rebeldia e logo se sentiu mais curvada. Conseguiu alcançar uma solução de compromisso. Sim, faria aquilo que entendesse embora soubesse de antemão que o peso que carregava iria aumentar, tanto porque os outros lhe atirariam esse peso, como porque ela própria se sentia obrigada a carregá-lo.
Assim se fez mulher, foi mãe, já quase dobrada ao meio. Envolviam-na um misto de culpa e medo de não ser capaz de aguentar o seu fardo.
Certo dia, sentando-se num banco do jardim para descansar, chegou-se perto dela um homem, muito velho, de longas barbas brancas, muito hirto, que lhe perguntou:
- Mulher, porque estás tu tão curvada, sendo ainda jovem?
- Porque não aguento o peso da carga que carrego.
- Esse peso não está nas tuas costas, está somente na tua cabeça. Podes libertar-te dele quando quiseres.
- É muito simpático da sua parte, mas não sabe do que fala. Esta é a culpa que carrego por querer ser eu, por não viver de acordo com os parâmetros que os outros traçaram para mim. Não me posso libertar.
- Não te poderias libertar se tivesses escolhido negar-te a ti própria e viveres apenas como os outros esperam. Sê fiel a ti própria e endireita-te.
Naquele momento, a mulher levantou-se, ergueu o tronco lentamente, perante o seu próprio espanto.
Quando estava completamente direita, olhava o seu corpo estupefacta por ter superado as suas próprias limitações e, pela primeira vez, olhou o mundo absolutamente de frente, olhos nos olhos.
10 de Jan de 2009
APOSTE NOS SEUS SONHOS!
Nem pensar. Daria em doido, se apostasse na roda dos sonhos. Já em miúdo tanto voava a bordo do carrinho de rolamentos quanto se via, aterrado, num mundo sem som nem vivalma. Depois, de bigode a despontar, ora sonhava com aquele brilho nos olhos da vizinha mais nova ora se estarrecia envolvido na densa teia de aranha num dos túneis do convento. Duas farripas de barba mais tarde, e era o estremecimento do primeiro beijo ou o arrepio do primeiro exame a sério. Não. Por mais que o incitasse a Santa Casa da Misericórdia, nunca apostaria na lotaria dos sonhos, matéria volátil de mais. Contudo, é verso que o sonho comanda a vida.
E o certo é que se vira disparado desde o alto da Ilha da Madeira, a rasar o passeio nas traseiras dos bombeiros até entrar em derrapagem na curva para a rua da meninice e logo aí descolar, agarrado aos cordões da direcção, rasando o quintal e a mãe a estender a roupa, em direcção às torres da basílica. O galo foi os pombos terem-no forçado a um looping de regresso aos esbracejados berros maternos:
– Desce daí, que dou cabo de ti! Malvado, ainda nos matas aos dois, malandro!
Se assim não tivesse sido, ainda hoje viveria nas nuvens, sem crises, recessões ou pesadelos como os que, noutras febres, o haviam lançado na tal imensidão branca e vazia, paralisado diante da dita aranha no escuro ou, ainda, emudecido até à exaustão no martírio da matemática. Sonhar era tramado, quando o delírio do sarampo ou das bexigas lhe encharcava o sono. E não se tornou mais agradável, só por em adulto ter passado a misturar tudo, numa autobiografia plana e surreal, plena de personagens e histórias enredadas em espaços e tempos distintos, mas cruzados, como se em cada sonho de cada noite diversos castings se processassem em simultâneo.
De uma vez, um amigo, actual empresário de sucesso, injectava-se na casa de banho do Casalinho de Santo António, passava a seringa de vidro ao Mosse e sumia-se. O Mosse, aluno dos tempos de Moçambique, não devia estar ali, naquela primeira casa de todas as ilusões, mas agarrava no objecto com a ponta dos dedos arrepiados pela gota de sangue a pingar da agulha, deitava-o na sanita e recuava, enquanto um magala, conhecido numa reunião dos S.U.V., lhe passava a G-3 com um cravo no cano e puxava o autoclismo. A seringa desaparecia e, também numa voragem inexplicável, já estava sentado na penumbra da Toca da Raposa, a beber imperial e a congeminar a ocupação de uma casa devoluta, com os companheiros de hoje e o entusiasmo da época em que o povo exigia infantários. De outra, em plena savana da Gorongosa, dava uma aula de Cultura Portuguesa a uma das turmas da Universidade de Nantes, quando lhe aparecia a D. Henriqueta, sua professora primária, com uma hiena pela trela e uma palmatória enorme. Ainda lhe esticava o braço direito com a palma da mão virada para cima, mas logo se via numa estalagem do Mont Saint-Michel, a querer festejar o vigésimo ano do seu casamento, embriagado e impotente, com todos os alunos de Português Língua Não Materna a dar-lhe os parabéns em romeno, moldavo, ucraniano, russo e coreano, e a ministra da educação a gritar-lhe impropérios, num repentino hemiciclo meio vazio de deputados a dançar marrabenta.
Não. Assim jamais apostaria na lotaria dos sonhos. Porém, o único eu responsável por semelhante desordem volátil era ele, que cedo se perdera no brilho dos olhos da vizinha mais nova e logo se deixara levar pelo estremecimento do primeiro beijo, uma vez sonhado e tantas outras repetido. E foi assim, a sonhar e amando, que aprendeu a entender-se com a vida, mesmo sem nesta lhe sair, numa só ocasião que fosse, o sonho de um qualquer jackpot de excêntricos.
6 de Jan de 2009
Escritor… por causa de um sonho…
Mas aqui escrevem-se contos, nas asas do sonho de cada um. Por isso, aqui vai:
O busílis deste sonho, procurei-o no mais recôndito de mim. Não obtendo resposta, relembrei os mananciais freudianos e também aí não encontrei qualquer pista. Decidi tomar um café para despertar, na pastelaria mais próxima. Entre a confusão do pequeno-almoço matinal e as primeiras notícias que bruxuleavam de cinza, em corpos soturnos e elanguescidos, a televisão passava as novidades repetidas: o clima descontrolado, transformando Portugal num país tropical, a crise financeira da responsabilidade de ninguém e que todos continuam a ter de pagar, a futebolização e o slogan “forrça Portugal”... o desemprego... a ilusão de que afinal somos é uns esbanjadores e o problema está somente no gastar e não no ganhar... as catacumbas labirínticas da justiça, o negócio das armas... as vítimas da fome e da guerra... a rotina... o grau zero...
2 de Jan de 2009
Se não mudo, entro numa espiral que me irá levar à loucura.
A última que me aconteceu, então…
Ia carregado com duas malas cheias de livros e outros materiais, que necessitava de deixar em casa, antes de me encontrar com a Daniela, uma colega e amiga da faculdade, para ir ao cinema. Tínhamos combinado, logo de manhã, a sessão do início da tarde.
Ao chegar à porta do prédio onde morava com os meus pais e o irmão mais velho, reparei que me tinha esquecido da chave em casa. Devo ter puxado a porta, pois o meu irmão costuma levantar-se ainda mais cedo para ir trabalhar. Os meus pais estavam de viagem em Cabo Verde gozando a sua merecida reforma.
Por ser terça-feira, não encontraria a Vera em casa fazendo as limpezas. Ela só voltaria no dia seguinte.
Como alternativa última, restava-me a humilhação de passar pela empresa onde o meu irmão trabalha e pedir-lhe a sua chave, pois não queria ir carregado para o cinema.
Ainda tinha tempo, por isso, atravessei meia cidade carregado com aquela tralha toda e lá fui ouvir, o mano certinho, chamar-me cabeça de abóbora, em frente dos seus colegas. E ainda tive de lhe prometer que deixava a chave na caixa do correio para ele poder entrar, uma vez que quando chegasse a casa, era mais que provável, o filme ainda não ter terminado. Assistir ao enxovalho, enquanto sorridente ele ia retirando a chave do correio do molho que me entregou, foi pena leve.
Atravessar outra vez metade da grande cidade arrastando como Sísifo aquele carrego.Aaté que finalmente a porta do prédio à vista. O tempo já era escasso.
Felizmente que as caixas do correio ficavam logo à entrada do prédio.
Ele tinha sido tão veemente, que não me saíam do pensamento as suas derradeiras palavras:
- E não te esqueças de me deixar as chaves na caixa do correio, senão, nem sei o que te faço.
Não resisti em fazer-lhe a vontade. Mal cheguei à entrada do prédio ocorreu-me a brilhante ideia:
Antes de mais nada, deixar as chaves na caixa do correio.
- Nem serve para derreter o gelo.
- Se ao menos furasse esta neblina.
- Mas conserva os fungos sem os congelar…
- Esta noite sonhei a coisa mais absurda que se pode imaginar.
- E recordas o sonho todo?
- Sim, tenho um caderno à cabeceira onde registo os meus sonhos, de há uns anos a esta parte.
- Já deves ter um livro enorme.
- Não, eu não sonho com tanta frequência. Embora alguns dessem uns filmes curiosos.
- Pois eu, nunca tive tal hábito de anotar sonhos. De resto, os meus são mais do género pesadelo e isso quanto mais para trás das costas melhor.
- De qualquer modo, é engraçado voltar a recordar imagens que de outro modo se dissolveriam na névoa da memória.
- Em tempos cheguei a conceber que os sonhos teriam a função de apagar as memórias inúteis, já vividas, para dar espaço aos pensamentos que vão chegando a cada novo dia, mas agora até isso já me parece pouco crível. Nem sei o que pensar. Este mistério dos sonhos é primo do grande final.
- Desse que só se sabe quando se viaja ou nem isso. Caso a luz se apague permanentemente.
- Conta lá, então, o teu sonho mais recente.
- Estávamos numa esplanada à beira do deserto. Para começar, a ideia de beira de deserto, já toca o absurdo, como se pudesse haver uma fronteira – daqui para lá é deserto puro – bem delimitada com placas e tudo.
Fazia um calor dos diabos, daquele de estrelar ovos nos tejadilhos dos carros, e tu estavas à minha frente, contemplando a linha do horizonte. Enquanto bebias por uma palhinha um copo de refresco de limão e contavas o teu mais recente pesadelo, rias-te da inverosimilhança:
- Que raio de chuva miudinha, sempre a cair.
- Nem serve para derreter o gelo.
- Se ao menos furasse esta neblina.
- Mas conserva os fungos sem os congelar…
29 de Dez de 2008
Mea Culpa
Não tinha conto nenhum para apresentar que versasse a culpa, talvez por tantos servirem, muitos mais do que poderia aqui contar, ainda que estivesse disposto a fazê-lo, o que de modo algum pretendo ser o caso. Mas comecei a ler outros contos, e admirei-os. Quis comentá-los, e ao mesmo tempo esquivei-me a fazê-lo, porque não valia a pena, porque era óbvio, ou então porque não era. Em jeito de único comentário, digo que não o fiz porque eram bons demais, e todos os comentários que não fossem banais teriam de ser mais altos louvores do que o meu egotismo se sentia, no momento, disposto a permitir. É verdade, todos os escritores são egotistas, como de resto todas as outras pessoas, só que os escritores são obrigados a lidar com isso, faz parte do métier. E olhar para dentro das mais íntimas profundezas da alma, na maior parte dos casos, é como olhar para o fundo de um poço lamacento: causa vertigens, e a imagem é tão putrefacta e desagradável que não vale realmente a pena. Alguns discordarão, direito que sem dúvida lhes concedo, mas não tenho a certeza se esses não estarão, porventura, a olhar para outra alma qualquer, é sabido que há muitas.
Mas isto é um conto, de modo que talvez seja melhor, restringindo-me ao molde, apresentar desde já a história da Luísa. Vocês conhecem decerto a Luísa, a que namorou com a Teresa, e desde já me dispenso de aprofundar a culpa subjacente a esta última frase. A Luísa assumiu essa relação, elas eram a uma da outra, e teriam decerto assumido num altar o seu amor, estivesse porventura tal opção disponível. Não estava, mas era como se fossem casadas, e o Joaquim passava-se completamente com tal coisa.
O Joaquim fora namorado da Luísa numa outra vida, vida que ele se recusava a deixar morrer. Coisa banal, como se vê, mera rejeição de uma relação menos convencional, em que o aspecto inusual não é senão o pretexto que serve às mil maravilhas para o protesto que de qualquer modo não deixaria de existir. A lógica é simples, quero lixar alguém, e o alguém em causa já se expôs à crítica, pois vamos então a isso, todas as pedras são boas para partir vidros, independentemente das razões de quem as atira. Mais não se fez necessário para que o Joaquim arrastasse pela lama o nome da Luísa, sob pretexto de ser lésbica, e outros termos bem menos desculpáveis, mas guerra é guerra, que diabo!
Tanto não lhe bastou, e a coisa acabou num confronto directo, os dois sozinhos, sem ninguém que pudesse intervir, mesmo imaginando que alguém o quereria fazer. Depois desse dia, Luísa perdeu o seu sorriso, e raramente falava, fosse acerca do que fosse. A culpa não terá cabido inteiramente ao Joaquim, antes deveria ser partilhada por muitos, mas é duvidoso que alguém a aceitasse. E muito menos o Joaquim a aceitaria. Caramba, ele apenas fez o que qualquer homem faria, e um homem é um homem, tautologia que parece desculpar muitas imbecilidades.
A vida de Luísa continuou, mais triste, é certo, e sem a alegria de um simples sorriso. Ela poderia até passar por cima de tudo o que aconteceu, talvez conseguisse até lavar-se por dentro, e prosseguir a vida como dantes, fazendo tábua rasa daqueles breves instantes. Mas aquilo que não a larga, o estigma que para sempre a persegue, é a sensação intolerável de que tudo aquilo, a imposição, a violação, foi tudo culpa dela.
A Teresa acabou por deixá-la, compreensivelmente. Ninguém gosta de viver num cemitério. E se procurarmos bem, há sempre alguém disposto a sorrir, ou porque lida melhor com a culpa, ou – mais provavelmente – porque arranjou alguém em quem pôr a culpa. É lixado, concordo, mas garanto-vos que eu não tenho culpa. Palavra de Pinóquio.
27 de Dez de 2008
CULPA DANADA
Levantou-se, pôs-se a caminho, chegou à função. Correu-lhe o dia como de hábito, com assaz de desalento. Em final de jornada, terminou a derradeira tarefa quinze minutos antes do toque. Não o devia ter feito, porém. Graças a tal, nas curvas da estrada se ficou alguém que a elas assim chegou pontual ao previsto. Um quarto de hora mais tarde, e seria o destino a capotar sozinho. Culpa danada. E de nada lhe serviu o genuíno arrependimento. Chegado ao seco fim do desespero, embebedava-se ainda na cicuta do remorso. Perdeu-se, entretanto, ao cabo de muitas tentativas de regresso à rotina. A dado passo, acabou por se ver só, entre farrapos de memória e lixo.
Uma noite, acordou enregelado, numa amálgama de cartões e velhos pesadelos. Havia sombras a vaguear perto de um lume crepitando. Cheirava estranho. Titubeante, levantou-se. Ainda na mente lhe picava a mesma desolação, tenaz como nos olhos o ardor do fumo. Valeram-lhe as palavras:
– Chegue-se aqui, amigo. Na rua, a ressaca é mais fria...
Acocorou-se e esfregou as mãos junto do fogo. Aceitou a navalha no fio, metade de uma cebola, meia lata de atum barato. Pelo gargalo, bebeu de um sorvo o resto de vinho que lhe passaram. Carrascão, o tinto soube-lhe tão azedo quanto a lembrança daquele dia que até ao final lhe correra tão como de costume. Sentiu o aperto no estômago, mais agudo agora, com as voltas e o sabor do atum. Culpa danada. Limpou os lábios com as costas da mão e procurou nos bolsos uma beata. Acendeu-a. Três passas após, já queimava os dedos. Lançou-a à fogueira, enquanto se levantava. As duas sombras entreajudavam-se, empilhando cartões e mantas sem cor. Preparavam-se para dormir, numa paciente engenharia de sobrevivência. Vendo-os, soube que também ali não estaria a sua redenção. E disse, numa voz entorpecida:
– Na rua, mais fria do que a ressaca, só a culpa atravessada no coração...
– Olhe, amigo – respondeu ensonado o mais idoso – se de culpa se trata, tranque portas e aprenda a viver com ela. Nesta vida, culpados somos nós todos de qualquer coisa.
Calou-se, diante de tal resignação. O velho ajeitara uma das paredes do abrigo improvisado a meias, virara costas ao companheiro e, puxando o cobertor desbotado, tinha-se encolhido como um feto, a resmungar entre dentes. O fogo morria. Tinha de sair dali, onde já não havia além. Aquela gente definhava no vulcão da indiferença e a isso se habituara, sem perder humanidade. Outra culpa se lhe colava agora à pele, e um arrepio mostrou-lhe enfim uma luz.
Afinal, não precisava mais do que tinha. A folha da vida é escassa e esgotá-la nas linhas da auto-flagelação não conduz a qualquer lugar impoluto, se é que os há. Avivou a fogueira com a última tábua que restava, despiu o casaco e deixou-o sobre as duas sombras adormecidas. Fugiu de sob o viaduto e correu pela berma da circular, até perder o fôlego. Precisava só de um banho. Amanhecia, quando chegou à porta de casa, horizonte do qual se afastara com a culpa danada. Subiu as escadas, meteu-se no duche e deixou-se estar, até culpado se sentir só do que era, coisa de nada.
No dia seguinte, estava nas curvas da estrada onde alguém antes chegara pontual ao previsto. Deixou-lhe um cravo vermelho e chorou. Num repente, qualquer coisa o amparou. Viu-se calmo, então, a pensar na urgência de arranjar um atestado médico para justificar os dias de ausência à função.
24 de Dez de 2008
FELIZ NATAL
18 de Dez de 2008
13 - Mea Culpa (non est) ou o Vôo de Ícaro
16 de Dez de 2008
12 – Consumo
- Eu quero a Play Station Quatro!
- Compra! Compra! Compra! – gritavam as duas crianças, agarradas à barra da saia da mãe.
- Mãe, eu não posso não ter a Play Station Quatro! Todos os meus amigos já têm, por isso é que já não querem vir brincar comigo. Eu não tenho nada que preste.
A mãe desesperava e maldizia a hora em que os tinha levado consigo ao hipermercado. O local estava absolutamente lotado; tinha demorado mais de uma hora para conseguir estacionar o carro e quando conseguiu ia sendo trucidada por um outro condutor que pretendia o mesmo lugar. Andavam aos encontrões pelo meio da multidão alucinada na busca de presentes de Natal, especialmente brinquedos. Havia caixas rasgadas pelo chão, brinquedos espezinhados, crianças aos gritos (incluídos as suas), pais exasperados, casais a discutir. O ambiente era bastante hostil, embora o fosse em nome do Natal; a festa da família, época de paz, de solidariedade, de mostrar o amor pelo próximo.
Na secção de tecnologia, onde tentava escolher um telemóvel para oferecer ao marido, assistiu à discussão de mais um casal:
- És louco? Não temos dinheiro para comprar um palmtop desses!
- É sempre a mesma conversa quando eu quero comprar uma coisa para mim. Dinheiro para as prendas dos teus pais, da tua irmã, do teu cunhado, dos sobrinhos, etc, arranjas, não é?
- Para a minha família e para a tua, já agora. Mas o que eu vou gastar, com essas prendas todas, não chega ao preço disso. Não temos, mesmo!
- Mas tu não vês que podemos pagar em seis prestações? Ainda para mais, só começamos a pagar em Março.
A mulher ficou uns minutos em silêncio e recomeçou o diálogo num tom completamente diferente:
- Mesmo assim, Zé… Não sei, vai ser mais uma prestação, já estamos tão sobrecarregados. Não podias escolher um modelo mais em conta?
- Lizete, para comprar uma porcaria que não vale nada, não vale a pena. Poupamos cem ou duzentos euros, mas daqui a um ano já está ultrapassado. Este já é um equipamento como deve ser e está em promoção, acredita que está barato.
Lá acabaram por meter o palmtop no carrinho das compras e seguiram.
Ficou parada a ver o casal afastar-se. Ela não era assim, era muito mais comedida, usava o crédito com parcimónia. Não se iria endividar por um equipamento daqueles. Era verdade que já tinha gasto o vencimento e o décimo terceiro mês nas compras de Natal e nuns extras lá para casa. Talvez já tivesse usado o cartão de crédito uma ou duas vezes, não se lembrava bem, três, no máximo (a família é grande). Só iria usá-lo esta última vez, para pagar aquelas compras. O resto do plafond tinha de o reservar para pagar algumas contas domésticas que, por descuido, ainda não tinha pago.
Dirigiu-se à caixa, arrastando os filhos que continuam a gritar exigindo mais isto e aquilo.
- Qual vai ser o meio de pagamento? – perguntou a funcionária.
Entregou-lhe o cartão de crédito, maquinalmente pressionou o “ok”, sem sequer reparar no valor.
- Tem algum outro cartão? – questionou a funcionária.
- Algum problema com esse?
A empregada, simpaticamente, não respondeu, mostrando-lhe apenas o visor do terminal de pagamento electrónico: “NÃO AUTORIZADO”.
15 de Dez de 2008
A culpa
- Mas, afinal, de quem é a culpa?
- É claro que é deles.
Essa massa, esse corpo, esse saco de boxe, meio roto, em movimento: eles.
- E como?
- Eles é que deixaram isto neste estado.
Pega-se no discurso onde a culpa pegajosa se começava a colar aos culpados. O como, que ainda – na melhor das hipóteses futuras - fará parte de um diagnóstico, nem sequer importa.
- É deles, sim, os irresponsáveis, esses incompetentes...
- A culpa é deles.
- O que importa é que foram eles e nós, não.
- Nós, jamais.
- Nós, nunca.
- E eu, muito menos.
- Eu é que não.
E se a culpa não deve morrer solteira, pois ou muito me engano ou deve ser uma rapariga muito prendada ou com dotes especiais e que é preciso entregar a alguém, já a água do capote convém muitas vezes ser sacudida, pois, estamos exaustos de saber que quem anda à chuva, molha-se e se o capote lhe dá para não ser impermeável...
- Agora de nada vale, eles conseguiram colocar isto de pernas para o ar...
- No ponto miserável que isto está.
- Sim, porque os indigentes, esses ignorantes...
A culpa quando ataca e se cola a eles, geralmente encontra o isto – de igual modo tão indefinido quanto ela - já tão desvalorizado, que não deixará de ser um isto pelos séculos futuros...
- É, ... a menos que alguma entidade pegue nisto e lhe dê a volta.
Já vimos que a culpa casa geralmente com isto e com eles, o que não faz dela uma moça virtuosa. Também, nos dias que correm, quem quer casar com uma moça virtuosa? Isso seria sinal de ignorância. Nos dias de hoje se não sabes...
- De qualquer modo, desde que esteja casada com eles e com isto e não comigo...
- São todos uns corruptos...
- Estás a falar de quem?
- Deles, de quem pensas que é a culpa?
- Que lindo capote tens. É impermeável?
