17/11/2009

Nunca mais te quero ver

(Virou as costas e saíu)

E quando ela se fechou, um silêncio oco do tamanho de um caixão ecoou persistente como um diapasão vibrando em ondas subsónicas.
A mesma sensação residual entóptica de quando olhamos para o sol e em seguida fechamos os olhos, só que agora aplicada ao som ou à ausência dele. Ainda assim densa e intragável revoluteando, marcando uma presença incontornável, numa dor permanente.

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( - Nunca mais te quero ver)

Desenroscou o frasco que fez aparecer do fundo da mala e derramou sobre os seus próprios olhos.
Como num ritual acabado sentiu-se que tudo tinha sido dito.
Nem um ai, nem uma explicação, como um absurdo plenamente assumido apenas: nada mais.
Virou as costas e saíu.

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( - Espera )

- Não insistas, porque quando eu disser que não mais te quero ver, assim acontecerá.
- Não saias por essa porta, preciso de ti.
A chantagem emocional a crescer, daninha, na máxima força, como um vulcão prestes a rebentar.
- Nada mais temos a dizer um ao outo.
- Ainda não. Há muito por discutir. O que eu fiz pode ser reparado...
- Nunca mais te quero ver.

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( E agora uma mão no trinco da porta sublinhava uma iminente fuga)

- Uma vez que o dizes, reparo que só esta porta me separa deste momento sufocante e do nojo que é a tua presença.
- Tenho maneira de te explicar o que aconteceu.
- Nada há a explicar quando a evidência se derrama com tanta precisão.
- Espera...

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A porta contemplara tudo, como uma barreira de gelo, entre um presente calcinado e um futuro evaporado.
O que acontecera era por demais incompreensível, até para quem assistia.
- És horrendo...
- O que fiz não tem perdão, é certo...

E agora uma mão no trinco da porta sublinhava uma iminente fuga.

2 comentários:

Guiomar Fernandes disse...

Antes de mais, peço dsculpa pela minha longa ausência, que prevejo que ainda vá continuar por algum tempo.
No entanto, é bom voltar e ver que o grupo está bastante animado e com uma "produção" considerável.
"Nunca mais te quero ver"... Um texto arrepiante, sofrido e muito original, tanto na redacção como na composição gráfica, que acentua ainda mais a dor de uma conversa já sem palavras. Bravo!

Rosa Matilde disse...

Armindo,
Deste-me uma grande alegria literária, mas também um grande pesar humano.
Excepcional!